"Difícil não foi conviver com o lixo, difícil foi não virar lixo." Assim Gloria Cristina dos Santos resume o que enfrentou durante os 14 anos em que trabalhou como catadora no antigo aterro sanitário de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.
Aos 39, ela lembra com lucidez os momentos mais marcantes de uma época de sofrimento e superação.
Sua trajetória começa aos 11 anos, quando ela pisou no lixão pela primeira vez para levar a marmita da mãe, a primeira da família a trabalhar no aterro.
Dali, ela só sairia aos 25 anos, para integrar a diretoria da primeira cooperativa de catadores de lixo de Jardim Gramacho. Com o fechamento do lixão, em junho de 2012 – então o maior da América Latina -, Gloria se destacou como uma das lideranças entre os catadores e hoje está à frente do Polo de Reciclagem de Gramacho, que emprega antigos catadores – iniciativa pioneira no Brasil.
Catadores cooperativados trabalham em polo de reciclagem, inaugurado após fechamento de lixão
Mas até chegar aqui, ela percorreu uma jornada árdua, pontuada por uma infância roubada pelo trabalho no lixão, uma adolescência conturbada, dois acidentes graves e uma depressão pós-parto que culminou com uma tentativa de suicídio aos 17 anos.
A BBC foi a Gramacho para saber como os catadores estão vivendo dois anos após o fechamento do aterro. A história de Gloria e de seus colegas será retratada no documentário de rádio Your Rubbish, our Hope, que será transmitido em inglês no Serviço Mundial da BBC no dia 21 de janeiro.
Parque de diversões
Nas memórias inocentes da Gloria ainda menina, o lixão era "colorido" e um "parque de diversões ambulante", onde era farta a oferta de bonecas e tantos outros brinquedos.
Com o passar dos anos, o parque foi ficando mais parecido com um trem fantasma diante das frequentes cenas de "filme de terror".
Até o início dos anos 90, o lixo domiciliar descarregado em Gramacho era misturado com hospitalar. Frequentemente os catadores sujavam-se com sangue, espetavam-se com agulhas e deparavam-se com corpos, fetos e animais mortos.
"Furei meu pé com agulha e fique seis meses sem andar. Tive muita sorte de não ter me contaminado com HIV", diz.
Este não seria seu único acidente. Pouco antes de completar 15 anos, ela foi aterrada por uma montanha de lixo despejada por uma carreta. Foi resgatada pelos colegas após passar dez minutos sob quilos de resíduos.
"Foi a pior adolescência que alguém pode ter. Ser adolescente já é muito ruim. Mas ser adolescente e catadora era bem pior. A sensação de injustiça, de fracasso era constante. O massacre de autoestima era diário. Eu sempre quis escapar do lixão e é isso que me move até hoje".
Depressão e superação
Mesmo com todas as dificuldades, Gloria conseguiu frequentar a escola. Sua rotina era pesada. Ela subia a "rampa" (termo usado pelos ex-catadores para se referir ao lixão) às 4h30 e trabalhava até às 13h. Duas horas depois estava na sala de aula e de lá só saía às 19h.
"Às vezes não conseguia tirar o cheiro da mão e conforme suava o cheiro ficava mais forte. Eu não conseguia me enturmar na escola. As meninas da minha idade tinham problema com cabelo, com a unha da moda. Eu eu era do aterro, uma extraterrestre. Nunca contei a ninguém que trabalhava no lixão. Por muito tempo, só me sentia segura ao chegar em Gramacho".
Uma gravidez precoce aos 17 anos agravou o dilema de se aceitar como catadora. Três meses após dar à luz sua filha Lorraine, Gloria tentou o suicídio. Ela revela que sua terapia para a depressão pós-parto veio dos livros recuperados no lixão.
"Meus livros me salvaram. Todo mundo quer escapar do lixão, resta saber que maneira usar. A grande maioria optou por drogas, eu optei por livros. Era minha maneira de escape, de fugir, viver outras vidas. Era o que me dava barato, segurava a onda".
Na estante, ela exibe obras de Umberto Eco, Gabriel García Márquez, Fyodor Dostoyevsky, Machado de Assis, Erico Veríssimo, entre outros. Todos recuperados do chorume.
Polo de reciclagem
O fortalecimento do mercado de recicláveis no Brasil a partir dos anos 90 lhe estimulou a continuar trabalhando como catadora. Durante anos ela recolheu do lixão papel branco e papelão e chegou arrecadar R$3 mil por mês.
Quando o aterro foi fechado, semanas antes da conferência Rio+20, da ONU, Gloria integrou à comissão que negociou uma indenização individual de R$14 mil para os 1,7 mil catadores e financiamento para a construção do primeiro estágio do Polo de Reciclagem de Gramacho.
O local, inaugurado em novembro de 2013, emprega apenas 50 dos 500 catadores que na época do fechamento manifestaram o desejo de continuar trabalhando com reciclagem.
Isso se deve às dificuldades que Gloria enfrenta para captar recicláveis - papel, plástico, papelão, metal, vidro, entre outros, - já que o município de Duque de Caxias, do qual Gramacho é distrito, não realiza coleta seletiva domiciliar.
Catadores enfrentam escasses de recicláveis desde encerramento do lixão de Gramacho
"A gente se orgulha do polo, mas não funciona como deveria. Abastecimento é um problema diário. Todo dia eu tenho que ligar para empresas pedindo doações de recicláveis, entrar em editais, planejar o transporte. É frustrante, mas não minimiza o tamanho da nossa conquista. Conseguimos fazer o governo olhar e se responsabilizar por toda aquela situação", avalia.
O polo recebe cerca de 50 toneladas de recicláveis por mês, oriundas de parcerias com empresas privadas da Baixada Fluninense e condomínios residenciais. A quantia é ínfima se comparada as 200 toneladas/dia que os catadores recolhiam no lixão.
A escassez afeta diretamente o bolso do catadores, que sentiram uma queda brusca nos rendimentos – de R$ 2,5 mil/mês em média para apenas R$ 500.
O antigo aterro de Gramacho funcionou durante 34 anos em uma área de 1,3 milhão de m², à beira da Baía de Guanabara. O local recebia cerca de 9,5 mil toneladas diárias de resíduos de sete municípios fluminenses, incluindo os do Rio de Janeiro.
Mesmo com todos os obstáculos, Gloria mantém o otimismo.
"O polo é meu sonho, minha missão de vida, é a transição que todo lixão deveria ter. Eu tenho a necessidade de que isso dê certo para finalizar minha história e saber que eu escapei do lixão".
Organizações da sociedade civil ligadas ao Fórum Mato-Grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad) e ao Fórum de Direitos Humanos e da Terra (FDHT-MT) lançaram, nesta quarta-feira (06) um documento com propostas socioambientais para a agenda política dos candidatos ao governo do estado de Mato Grosso.
O documento “Agenda Mato Grosso Sustentável e Democrático: Eleições 2014” é assinado por trinta e seis entidades que atuam em diversos setores da sociedade e apresenta setenta e duas propostas para o avanço da política ambiental e de direitos humanos em Mato Grosso. As propostas são divididas em dois grandes eixos: Terra e Justiça Ambiental e Vida, Povos e Direitos que, de acordo com as organizações, representam a complexidade socioambiental do estado.
As organizações propõem aos candidatos “que o diálogo se estabeleça não somente durante a campanha eleitoral, mas que a concreção e a sustentabilidade desta proposta se efetive entre governo e sociedade civil na superação das desigualdades, na inclusão dos diferentes, no combate à corrupção, na proteção ecológica e outros processos que fazem parte da democrática reforma política que poderá inaugurar novos cenários da qualidade de vida”, aponta o documento.
A partir da próxima semana, uma comissão formada por representantes do Formad e do Fórum de Direitos Humanos e da Terra realizarão uma rodada de reuniões com os candidatos ao governo do estado e seus comitês. O objetivo é apresentar e discutir com os candidatos as propostas para que as mesmas sejam incorporadas aos respectivos planos de governo. Além disso, será lançada uma plataforma digital para que toda sociedade tenha acesso às propostas e contribua com as discussões levantadas pelas organizações.
“Esse projeto é uma armadilha. Além de alterar questões importantes, como a composição do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema), propõe a revogação do Fundo Estadual do Meio Ambiente (Femam)”, diz o procurador de Justiça, Luiz Alberto Esteves Scaloppe. A reportagem é do Diário de Cuiabá, publicado dia 21 de fevereiro de 2014, como segue.
Da Reportagem
Entidades ambientalistas discutiram com a Procuradoria de Justiça Especializada em Defesa Ambiental e Ordem Urbanística a minuta do projeto de lei que propõe a adequação da política florestal do Estado às mudanças no Código Florestal.
“Esse projeto é uma armadilha. Além de alterar questões importantes, como a composição do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema), propõe a revogação do Fundo Estadual do Meio Ambiente (Femam)”, diz o procurador de Justiça, Luiz Alberto Esteves Scaloppe.
Segundo ele, o projeto Revoga artigos que tratam de competências consultivas do Consema e do processo de eleição das organizações não governamentais no referido conselho, bem como a criação do Femam, que representa a única garantia de recursos financeiros para a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema).
“Essa não é a primeira vez que tentam enfraquecer o Femam. Em 2012, a 15ª Promotoria Cível de Defesa do Meio Ambiente Natural teve que ingressar com ação civil pública com pedido liminar contra o Estado para impedir que recursos destinados ao referido fundo fossem utilizados em outros setores. Na época, pelo menos R$ 12 milhões deixaram de ser aplicados na defesa do meio ambiente”, lembra o procurador de Justiça.
De acordo com Scaloppe, muitas questões que deveriam ser regulamentadas não estão sendo contempladas no projeto. “A proposta não define questões chaves que o novo Código deixou em aberto para aplicação no Estado. É uma mera cópia do Código Florestal”.
Os ambientalistas também reclamaram da falta de transparência das informações disponibilizadas pela Sema. Foram instaurados inquéritos civis para apurar essa questão nos ministérios públicos Estadual e Federal. (Com informações da assessoria)
Governo precisa multar e apreender para coibir lixo e urina nas ruas
Adital
O programa Lixo Zero foi implantado na cidade do Rio de Janeiro para punir com multas em dinheiro quem jogar lixo no chão. Em funcionamento desde o último dia 20 de agosto, o programa já apresentou resultados positivos ao detectar menor volume de lixo nas ruas. A mesma cidade também se viu obrigada a recolher até à delegacia quem for visto urinando em locais impróprios.
Desde o dia 20 de agosto até às 15h desta terça-feira (22), já foram aplicadas 8.162 multas, a maioria gerada por pequenos resíduos jogados no chão. Hoje, 600 equipes de fiscalização, cada uma formada por um fiscal, um guarda municipal e um policial, está implantada em 21 bairros ou fazendo blitz surpresa nos demais bairros da cidade. A multa vai de R$ 98,00 a R$ 3 mil. Quem jogar lixo na rua de dentro do carro terá o veículo multado com uso da placa.
O balanço de dois meses de programa, feito pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), aponta que a quantidade de lixo não diminuiu, mas sim caiu a quantidade de resíduos descartados irregularmente no chão e aumentou a quantidade nas lixeiras. Dessa forma, é menos necessário varrer o chão e os garis podem ser deslocados para áreas mais necessitadas de limpeza.
Nos 21 bairros onde há equipes de fiscalização diariamente, já se verificou a redução em 46% do volume de lixo jogado no chão. Para acelerar ainda mais essa redução no volume de lixo nas ruas também serão feitas blitz noturnas em locais de grande concentração de bares e pessoas, como a Lapa, no centro do Rio de Janeiro.
"O objetivo do programa já está sendo atingido, porque temos tido uma resposta positiva da população e a percepção da limpeza já se faz notar em várias ruas”, avaliou Vinícius Roriz, presidente da Comlurb.
Diante das evoluções do programa outras cidades brasileiras também estão estudando a possibilidade de implementar a multa para quem jogar lixo no chão. Em Curitiba, no Paraná, um projeto de lei será analisado hoje pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara. Se o debate for favorável à tramitação, o texto será votado em plenária. A ideia é que a multa vá de R$ 157,00 a R$ 980,00. Nas cidades de Porto Alegre e São Paulo a medida também está sendo analisada pelo poder público.
As campanhas para pedir que a população não urine nas ruas são mais comuns durante o Carnaval. A repercussão é nacional, mas no Rio de Janeiro a ação da polícia tem sido mais intensa. A Comlurbe tem o poder de multar quem esteja praticando qualquer ação prejudicial à limpeza urbana, no entanto, quem é pego urinando na rua geralmente é levado para a delegacia, registrado e depois liberado.
Os detidos respondem em liberdade, mas posteriormente precisam comparecer ao Juizado Especial Criminal (Jecrim). Esta conduta não é crime, mas pode ser enquadrada como ato obsceno (artigo 233, do Código Penal) e gerar pena que varia de três meses a um ano de detenção.
Investigação psicossocial aponta que ‘‘Universo‘‘, o morador de rua mais conhecido e querido de Chapada dos Guimarães (65 quilômetros de Cuiabá), é um cabo da Marinha Brasileira que perdeu a memória e saiu viajando pelo Brasil.
Bruno Adalberto Martins Pereira, 33 anos, o Universo, volta para casa após dez anos
Investigação psicossocial aponta que “Universo”, o morador de rua mais conhecido e querido de Chapada dos Guimarães (65 quilômetros de Cuiabá), é um cabo da Marinha Brasileira que perdeu a memória e saiu viajando pelo Brasil.
De acordo com o levantamento, há cerca de 10 anos ele abandonou o emprego e a família após crises psiquiátricas. Esta semana, “Universo”, cuja identidade é Bruno Adalberto Martins Pereira, 33 anos, retornou à cidade de Queimados, região metropolitana do Rio de Janeiro, onde morava, levado por um dos irmãos, Carlos Alexandre Martins Pereira.
Dias atrás, internado para tratar de um ferimento no pé, Bruno recobrou parte da memória e lucidez suficiente para fazer relatos sobre sua família e história de vida à psicóloga Leslie Puntschart, da Secretaria de Saúde de Chapada dos Guimarães.
Durante esse período de internação, contou o nome do irmão, Carlos Alexandre Martins Pereira, seu local de nascimento e outras informações. Também, que costumava “sentir muita pressão interna e que um dia remeteu a cabeça sobre uma manilha, sofrendo fratura craniana”.
“Universo” vivia em Chapada sem nenhum documento pessoal. Foi na tentativa de fazer a documentação dele, e assim incluí-lo em algum benefício previdenciário, que a psicóloga localizou seu irmão por meio do cartório eleitoral.
Carlos Alexandre disse que desde o sumiço a família não tinha informações sobre o paradeiro de Bruno. Jamais imaginaram que estaria em Chapada, em Mato Grosso. E ainda, que já ele havia saído casa antes, mas era localizado.
Na época em que “Universo” sumiu os parentes chegaram a publicar fotos e distribuir cartazes na região na tentativa de localizá-lo. O desaparecimento teria ocorrido na segunda crise psiquiátrica.
Considerado de grande inteligência, desde a adolescência Bruno, conforme relato do irmão, toca cinco instrumentos musicais, entre os quais bateria, guitarra e bandolim. Também seria um exímio enxadrista.
Em Chapada dos Guimarães, tornou-se popular pela alegria, educação e por compartilhar bons momentos com os moradores e turistas de eventos culturais que sempre ocorrem na cidade. Tinha por hábito declamar poesias, cantar e conversar longamente com moradores sobre o mais variados temas, sempre surpreendendo pela inteligência.
A jornalista Laura Lucena, que mora em Chapada, por exemplo, relatou que um dia, ao reunir-se na praça com amigos para tocar violão, conheceu a veia artística de “Universo”, que, para ela, seria o “mendigo mais culto que já viu”. “Ele tocou e cantou com um repertório que empolgou a todos”, escreveu Laura em seu blog, o portalchapadense.blogspot.com.br
Pouco antes de deixar Chapada dos Guimarães, “Universo” voltou a ser o Bruno que a família conhecia. Ele, que vivia maltrapilho, com cabelo e barba grandes, recebeu roupas novas, fez a barba e cortou o cabelo.
Também dormiu em um hotel, na companhia do irmão que acabara de resgatá-lo da rua, deixando para trás o lar improvisado em que transformara a varanda de um imóvel. Moradores contam que “Universo” dormia sob a varanda, mas passava o dia na porta da casa lotérica a na praça.