sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

The week in wildlife – in pictures

guardian
http://www.theguardian.com/environment/gallery/2015/jan/09/the-week-in-wildlife-in-pictures


The week in wildlife – in pictures

Stunning frost formations, an underwater feeding frenzy and a rare bittern feature in this week’s best images from the natural world

2015: como será o mundo de Alice?

correio
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10382:ambcidadania050115&catid=28:ambiente-e-cidadania&Itemid=57

 2015: como será o mundo de Alice?


ImprimirE-mail
ESCRITO POR ROGÉRIO GRASSETTO TEIXEIRA DA CUNHA   
SEGUNDA, 05 DE JANEIRO DE 2015



Ao pensar sobre as perspectivas para 2015 na área ambiental, foi difícil escapar das reflexões sobre o mundo que minha filha, Alice, que nascerá em março, encontrará, e em que mundo viverá. No momento, estou bastante cético, ainda mais após ler uma entrevista de 2007 do cientista britânico James Lovelock, criador da famosa Teoria de Gaia, que recentemente voltou à tona e difundiu-se pelas redes sociais: certamente não será um mundo das maravilhas. O cientista prevê, entre outras coisas, que por volta de 6 bilhões de pessoas irão morrer e que o aumento de temperatura será maior que o previsto. Exagero? Pode até ser, mas, pelo princípio da precaução, terei que prepará-la para entrar na toca do coelho e para um possível mundo bizarro que irá encontrar.

Previsões de longo prazo são complicadas, no entanto. Por outro lado, as previsões de curto prazo ficaram por demais óbvias na área ambiental, por serem repetitivas: queimadas na estação seca do Brasil tocando o terror, deslizamentos em algum ponto da Serra do Mar na estação chuvosa, desmatamento na Amazônia arrefecendo pouco, ruralistas cada vez mais agressivos contra o meio ambiente (contra si próprios, na verdade) e governo pressionando pela hidrelétrica da vez na Amazônia – agora é o Tapajós que está na berlinda. Assim, irei restringir-me a dois temas apenas, um local e outro global: a crise da água em São Paulo e os acordos climáticos.

O tema água, embora seja muito caro ao povo nordestino há séculos, entrou fortemente na pauta do noticiário este ano ao afetar a maior cidade da América do Sul e os estados do Sudeste de uma maneira geral. Em muitos locais, onde a situação é menos crítica, teremos um respiro de alívio após as chuvas de verão. Mas, quanto a São Paulo, não espero o melhor, embora torça muito e sinceramente para que esteja redondamente enganado.

Não estou sozinho nestas previsões; baseio-me no que tenho lido de especialistas. Apesar de o religioso governador do estado rezar insistentemente para isto (nisto ele se parece com o coelho de Alice, olhando o relógio e dizendo “as chuvas estão atrasadas, as chuvas estão atrasadas!”), as chuvas não serão suficientes para encher os reservatórios. E pode ser ainda pior. Parece que um El Niño fraco está em formação e, no momento, as previsões de médio prazo do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do INPE indicam igual probabilidade para os três cenários possíveis (chuvas na média, abaixo da média ou acima da média). Ou seja, considerando as atuais informações, temos apenas 1/3 de chance de chuvas acima da média. E mesmo que fossem acima da média, não irão resolver o problema. No máximo irão apenas empurrá-lo com a barriga um pouco mais para frente. Qualquer semelhança com a situação ambiental global e as tímidas medidas paliativas NÃO é mera coincidência.

A insanidade em relação a este problema ocorre em múltiplos níveis e com múltiplos personagens, parecendo o chá de loucos ao qual a Alice da história compareceu. Também como na história, parece que o tempo congelou-se para os personagens, imobilizados que estão perante os acontecimentos. Só que, diferentemente do livro, eles não parecem ter consciência disto. Por exemplo, o que pensaria o leitor ao ver a seguinte manchete: “Reserva do Cantareira evita racionamento por 60 dias”, com explicações sobre o volume morto que pode ser usado do sistema. Diria tratar-se de alguma notícia que foi veiculada lá pelo meio do ano, correto?

Mas o leitor estaria errado. Foi uma notícia do final do ano. Só que de 2003 … (veja aqui). Quem era o governador à época? Algum palpite? Esta você acertou. Isto mesmo, Geraldo Alckmin. E o que ele fez? Planejou de forma séria no longo prazo? Realizou alguma obra relevante para a segurança do sistema? Coordenou-se com as prefeituras da região, protegeu os mananciais, córregos e rios que alimentam o sistema? Infelizmente não. Além de praguejar contra a pior seca dos últimos 70 anos (agora, dez anos depois, o número subiu para 80 e, daqui a 20 anos, pode ser a pior dos últimos cem anos … adapta-se a frase de acordo com a situação), havia instituído previamente uma medida de racionalização do consumo, como pode se ver em seu decreto de outubro daquele ano. Geraldo deve ter rezado muito também, só que, neste caso, parece que não funcionou muito. Sim, medidas de racionalização são legais e importantes, sempre, e eu as apoio integralmente, mas não resolveram o problema.

Mas obviamente que o devoto governador não tem responsabilidade isolada no cartório. O desmatamento na Amazônia pode ter seu quinhão de responsabilidade também. Então, soma-se à fatura os anos e anos em que todos os governos federais oscilaram entre a complacência irresponsável e timidez ineficaz na repressão (afinal, quem quer brigar frontalmente com o agronegócio e os poderes locais nos estados da região?). No longo prazo, como alguns especialistas têm alertado, poderemos ter que nos acostumar com um menor volume de chuvas em São Paulo. Isto graças à nossa insanidade coletiva, capitaneada por nossos governantes, de todos os matizes políticos e esferas do poder, de permitir a destruição de uma das fontes principais de água para São Paulo e outras partes do Sul-Sudeste-Centro-Oeste: as correntes úmidas provenientes da Amazônia (leia-se das florestas) que chegam até aqui pela alta atmosfera, conhecidas como rios voadores.

Chega de água. Falando do clima global, tivemos no final do ano passado em Lima, no Peru, mais uma Conferência das Partes (COP), a vigésima, relativa à Convenção Quadro das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas. Qual o resultado? Surpresa, surpresa: nada de consistente, apenas um documento vago e genérico, como tantos outros produzidos pela Convenção. Com o perdão do trocadilho infame, no Peru tivemos mais um frango desta Convenção. E aqui, faço uma previsão que acho tenho chance muito grande de acertar. A COP 21, que ocorrerá em dezembro de 2015, em Paris, terá exatamente o mesmo resultado, assim como várias das COPs dos próximos anos. A Convenção aqui parece-se com a Rainha Vermelha da famosa história de ‎Lewis Carroll: corre, corre, corre, mas não sai do lugar.

Nossos governantes e sociedades ainda não se deram conta da incompatibilidade das bases do atual modelo econômico global com a preservação ambiental real (não os arremedos sugeridos por um mal definido “desenvolvimento sustentável”). Também não se deram conta de sua insustentabilidade e do risco que representa para a preservação da espécie humana no longo prazo. Em alguns rincões do mundo, inclusive, as forças ligadas ao modelo têm contra-atacado de maneira mais violenta, reforçando e aprofundando o modelo. Vimos isto por aqui em todo o imbróglio por trás do novo Código Florestal.

Por outro lado, cresce, embora em ritmo lento, a consciência acerca dos problemas relacionados ao sistema econômico e ao nosso modo de vida. Esta consciência é turbinada cada vez que a Terra responde às agressões com algum desastre do ponto de vista humano (como a crise hídrica). Como e quando este dilema de forças se resolverá é assunto para especulações em outros artigos.

Como a Alice da história, temos uma opção entre dois caminhos, no nosso caso, entre um futuro possível ou um desastre anunciado, mas não sabemos bem onde queremos ir. Ou melhor, a maioria ainda não tem plena consciência dos resultados de nossas escolhas. Mas, ao contrário da história, a escolha não é indiferente, e estamos sendo levados pelo caminho errado. Só espero e sonho que o dilema se resolva e tomemos o caminho certo, de forma que a Alice real ainda possa encontrar o mundo de maravilhas ao qual eu ainda tive acesso.

Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é docente da Universidade Federal de Alfenas-MG e, apesar do pessimismo,  no fundo tem sempre uma esperança.
ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO EM DOMINGO, 04 DE JANEIRO DE 2015

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania

E o “verde”, como fica?

amazonia
http://amazonia.org.br/2015/01/e-o-verde-como-fica/?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Not%EDcias+da+Amaz%F4nia+-+5+de+janeiro+de+2015


E o “verde”, como fica?

Foto: Martim Garcia/Divulgação/MMA
Nesta entrevista exclusiva, Izabella Teixeira revela em que momento foi chamada para permanecer no Ministério do Meio Ambiente, quais as prioridades acertadas com a presidente Dilma para os próximos quatro anos, suas expectativas em relação aos novos colegas de primeiro escalão – especialmente Kátia Abreu e Aldo Rebelo – e como vem recebendo as críticas dirigidas a ela pelo movimento ambientalista.
Izabella Teixeira me disse que já havia se programado para dar aulas em 2015 na Universidade de Stanford (EUA) como professora visitante. Mas o projeto teve que ser adiado, segundo ela, por uma “convocação” da presidenta Dilma. No último dia 18 de dezembro, logo após a cerimônia de diplomação, Dilma avisou à Izabella que contava com ela à frente do Ministério do Meio Ambiente por mais quatro anos. Pedido feito, malas desfeitas.
Sobre os rumores dando conta de que o senador Jorge Vianna (PT-AC) seria o nome preferido de Dilma até que o irmão dele, o governador reeleito do Acre, Tião Vianna, apareceu na lista de políticos denunciados na Operação Lava-Jato, Izabella foi taxativa. “Em nenhum momento isso foi falado comigo. Ela me convidou para darmos sequência àquilo que iniciamos no primeiro mandato, com algumas novas atribuições, como o enfrentamento da crise hídrica e a aprovação do novo marco de acesso a recursos genéticos”.
Um dos raros quadros técnicos do primeiro escalão do governo, Izabella não representa nenhum partido político e aparece no seleto grupo de mulheres (apenas seis) que figuram na foto oficial do ministério de Dilma neste segundo mandato, dividindo espaço com 33 homens.
E é justamente neste núcleo feminino da Esplanada que a presidenta reuniu duas protagonistas de uma antiga batalha política que vem sendo travada há anos.
Agora, Izabella Teixeira e Kátia Abreu pertencem ao mesmo time. A nova ministra da Agricultura – principal liderança do agronegócio no Brasil – foi uma das principais defensoras do novo Código Florestal (cujo texto final desagradou amplos segmentos do ambientalismo brasileiro). Kátia Abreu também vem apoiando a mudança constitucional que prevê a transferência do Poder Executivo para o Congresso Nacional (onde a bancada ruralista é forte) da responsabilidade por novas demarcações de terras indígenas e Unidades de Conservação. Esses não são os únicos pontos divergentes entre ela e Izabella Teixeira. Guerra à vista? Não necessariamente.
“Eu já conversei com a ministra Kátia Abreu. Estarei na cerimônia de posse dela. Nós nos falamos na cerimônia de posse da presidenta Dilma e combinamos de nos reunir para acertarmos uma agenda de trabalho comum. Kátia Abreu também considera prioridade a implementação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e me disse que deseja modernizar a legislação que rege a recuperação florestal.”
Outro colega de primeiro escalão com quem Izabella Teixeira conversou no dia da posse, foi Aldo Rebelo, da Ciência, Tecnologia e Inovação. Relator do Código Florestal – a quem dedicou aos “agricultores brasileiros” – Aldo foi criticado por ambientalistas e cientistas de apresentar um texto desprovido de embasamento científico e sem o aval de importantes instituições referenciais para o setor, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Agência Nacional de Águas (ANA).
A impopularidade de Aldo Rebelo junto aos ambientalistas alcançou um ponto crítico em 2011 com a publicação de um texto, assinado por ele, intitulado “A trapaça ambiental”. Nele, afirmou que “o chamado movimento ambientalista internacional nada mais é, em sua essência geopolítica, que uma cabeça de ponte do imperialismo.” Ao comentar o agravamento do efeito estufa, foi taxativo: “Não há comprovação científica das projeções do aquecimento global, e muito menos de que ele estaria ocorrendo por ação do homem e não por causa de fenômenos da natureza”, opinião que contraria frontalmente a posição histórica do Brasil nas negociações do clima.
O ministro do PC do B acaba de assumir um ministério que vem subsidiando o governo brasileiro com informações estratégicas nas negociações climáticas patrocinadas pela ONU e que buscam a redução imediata das emissões de gases estufa. Negociações em que Izabella é liderança ativa. E agora? Para que lado vamos?
“Aldo Rebelo manifestou interesse em conversar comigo sobre a agenda do clima e os assuntos da biodiversidade. É bom lembrar que foi a própria presidenta Dilma quem destacou o protagonismo do Brasil nas negociações climáticas e que esse é um tema prioritário deste mandato. É uma ação articulada de governo onde estamos todos envolvidos”, ressaltou a ministra do Meio Ambiente.
Ao ser convidada por Dilma para permanecer no cargo, Izabella ouviu da presidenta a lista de prioridades na área ambiental. A posição brasileira na COP 21 – a Conferência do Clima que acontecerá em dezembro deste ano em Paris – é uma delas. A expectativa é a de que o encontro estabeleça novas metas e prazos para que todos os países – exceto aqueles mais pobres – reduzam suas emissões de gases estufa. O Brasil promoverá consultas públicas antes de fechar uma proposta.
Outra prioridade é a implementação do Código Florestal, especialmente a conclusão do Cadastro Ambiental Rural (CAR) que hoje, segundo o governo, alcança 130 milhões de hectares dos 329 milhões de hectares possíveis. Para que os proprietários de terra sejam cobrados em relação ao cumprimento das regras de proteção ambiental, é preciso conhecer a real situação de cada propriedade. Quem também procurou Izabella (na mesma cerimônia de posse de Dilma) para unir forças na conclusão do CAR foi o ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias.
Aperfeiçoar o licenciamento ambiental é outra meta para os próximos quatro anos. O assunto incomoda aos ambientalistas, que temem a flexibilização dos atuais protocolos em favor dos interesses econômicos.
Em relação a esse ponto, Izabella lembra que a maioria absoluta dos licenciamentos hoje é oferecida pelos Estados (no caso das obras do PAC, 82% dos licenciamentos são estaduais) e diz que o Ibama se modernizou e virou referência. Segundo ela, o órgão conta hoje com 400 funcionários concursados para cuidar dos licenciamentos federais em uma estrutura mais ágil e informatizada. “Precisamos avançar nessa agenda. Não é possível, por exemplo, encomendar um novo estudo de impacto ambiental a cada dragagem de porto. Pode-se licenciar em blocos, como já se faz nas unidades de exploração de petróleo, sem nenhum prejuízo ambiental”.
Outra questão importante, segundo ela, é “acabar com o desmatamento ilegal em todos os biomas, e não apenas na Amazônia”. Izabella garante que não faltarão recursos para isso, mesmo sabendo que 2015 será um ano de severas restrições orçamentárias para todo o governo. “Não sei de quanto será o corte, mas nunca faltou dinheiro para fiscalização e combate ao desmatamento. Quando assumi o Ministério, o orçamento era de 560 milhões de reais por ano . Hoje é de aproximadamente 1,1 bilhão”.
Izabella lembra que conhece o atual dono do cofre – leia-se, Joaquim Levy, novo todo-poderoso do Ministério da Fazenda – desde que os dois participaram do governo Sérgio Cabral (ele na Secretaria de Fazenda, ela na Secretaria do Ambiente). Vem de lá uma afinidade em relação aos assuntos ambientais, muito por conta da militância da mulher de Levy, Denise, a ambientalista da família, que trabalha no BID e mora em Washington.
Sem ser política profissional – portanto, desamparada dos “apadrinhamentos” que aceleram processos e abrem caminhos nas redes de interesses que orbitam o Poder Central – Izabella Teixeira desenvolveu seus próprios métodos para tentar fugir do ostracismo em pleno exercício do cargo. “O importante é o diálogo, não se isolar e definir pautas comuns entre os ministérios”, diz ela, reconhecendo que é preciso comunicar melhor o dia-a-dia do seu ministério junto à sociedade.
Para Izabella, as fortes críticas dirigidas ao primeiro mandato da presidenta Dilma na área ambiental – principalmente as que partem das próprias organizações ambientalistas – não levariam em consideração um numeroso pacote de realizações que ela enumera, sem disfarçar uma certa indignação. Um dos assuntos mais controversos, por exemplo, é a taxa de desmatamento da Amazônia. “Registramos as quatro menores taxas de desmatamento da Amazônia. Realizamos mudanças importantes nos mecanismos de fiscalização e controle em parcerias com o Ministério da Ciência e Tecnologia e o INPE”.
Sobre as críticas de que Dilma foi a chefe de Estado que menos criou Unidades de Conservação (UCs) desde os governos militares, Izabella defende as novas diretrizes adotadas pelo governo. “Criar Unidades de Conservação em áreas onde existam conflitos fundiários não adianta. É preciso regularizar a situação primeiro. A propósito, nos últimos quatro anos, nenhum governador da Amazônia criou novas Ucs. E ninguém menciona isso. Implementamos planos de manejo em 60 dessas unidades, mais do que foi feito nos oito anos de governo Lula”.
A maioria das medidas citadas na entrevista – não reproduziremos todas neste espaço – não teve visibilidade nem repercussão. O que não quer dizer que não sejam importantes. Na lista de Izabella não aparece, talvez por modéstia, a contribuição efetiva da delegação brasileira (chefiada por ela) para que o mundo alcançasse depois de 18 anos de negociações o Protocolo de Nagoya – o mais importante acordo ambiental internacional desde o Protocolo de Kioto – que versa sobre as regras de uso e proteção da biodiversidade. Também não mencionou a conquista do Prêmio Campeões da Terra, que lhe foi oferecido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), na categoria “liderança política”, pelos “esforços bem sucedidos em reverter o desmatamento da Amazônia”.
Leal a Dilma, Izabella sabe que o governo não entende a sustentabilidade como “eixo matricial das políticas públicas”, conforme tem defendido há décadas o colega e amigo jornalista Washington Novaes. Sabe também que boa parte de seus colegas de primeiro escalão – a maioria absoluta, vá lá – ainda vive, pensa e age como se não experimentássemos uma crise ambiental sem precedentes na história da Humanidade. E aí, o que fazer?
A ex-ministra Marina Silva pediu demissão alegando que perderia o pescoço, mas não o juízo.
O ex-ministro Carlos Minc bateu boca em público com mais de um ministro que lhe deixou “verde” de raiva pelo atropelamento das mais básicas cartilhas ambientais.
Izabella vai ficando. Que incomode bastante.
Por: André Trigueiro
Fonte: G1/ Mundo Sustentável 

domingo, 7 de dezembro de 2014

Água: as mineradoras têm (muita) sede

correio
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10309:meioambiente061214&catid=32:meio-ambiente&Itemid=68

 Água: as mineradoras têm (muita) sede


ImprimirE-mail
ESCRITO POR MYRIAM BAHIA LOPES E BRUNO DE OLIVEIRA BIAZATTI   
SEXTA, 05 DE DEZEMBRO DE 2014


alt
Como grandes empresas estão desviando recursos hídricos para minerodutos –
sem que a sociedade saiba que são e a quem servem

Os minerodutos, tubulações usadas para o transporte rápido e barato de minérios a longas distâncias, estão se multiplicando em Minas Gerais. A Samarco, que já possui dois minerodutos ativos, que ligam Germano, em Mariana (MG), a Ubu, em Anchieta (ES), projeta construir mais três, ligando Minas Gerais ao litoral.

O sistema dutoviário de transporte opera com um líquido e nos casos citados é a água. Assim, uma discussão imperativa na implementação destas vias de transporte, e que não está recebendo a atenção necessária, é o problema dos possíveis danos ao abastecimento doméstico e o impacto no ecossistema provocados pela drenagem excessiva de água por essas mineradores para abastecer o sistema de dutos. A fim de demonstrar a gravidade dos efeitos a curto e longo prazo, causados pelo transporte de recursos hídricos, passa-se a descrever a desolação do vale do Rio Owens, no estado americano da Califórnia, provocada pelo bombeamento exorbitante pela prefeitura de Los Angeles para abastecer a cidade.

A Devastação do Vale Owens

Los Angeles é hoje, com 3,8 milhões de habitantes, a segunda cidade mais populosa dos Estados Unidos, ficando atrás apenas de Nova York. Desde o início do século XX, tem sofrido um intenso processo de crescimento demográfico: em 1900, a sua população se resumia a 100 mil habitantes. Esse influxo migratório tornou-se um desafio para seus dirigentes políticos, que logo perceberam que a única fonte de água da cidade, o Rio Los Angeles, não seria suficiente.

Diante desse prognóstico, o prefeito Fred Eaton e seu engenheiro-chefe, William Mulholland, construíram e inauguraram (em 1913) um aqueduto ligando Los Angeles ao vale do Rio Owens, a fonte de água mais próxima da cidade, localizado a 386 quilômetros a nordeste. As águas do Rio Owens advinham do constante e anual degelo da Serra Nevada, de forma que dispunha de mais de 4,5 bilhões de metros cúbicos de água, quantidade igual à do lago da Represa Hoover, maior reservatório artificial dos Estados Unidos e o equivalente a 15,5% do volume de água armazenada no lago da Usina de Itaipu, no Brasil. Essa fartura de recursos hídricos e a construção de um sistema de canais de irrigação permitiram o desenvolvimento da agricultura no vale, que passou a ser conhecido nacionalmente como Suíça da Califórnia.

alt
5/11/1913: Quarenta mil pessoas enfileiram-se às margens do
Aqueduto de Los Angeles, para acompanhar sua inauguração (Foto: Los Angeles Times)

Para conseguir abastecer Los Angeles, cuja população continuava a crescer, e irrigar as terras localizadas em seu entorno, a prefeitura começou a tomar medidas questionáveis. Para garantir o aumento do volume de água no aqueduto, comprou fazendas no vale e companhias que operavam os canais de irrigação. Além de drenar a água superficial, a prefeitura instalou um conjunto de bombas, a fim de extrair as reservas hídricas subterrâneas, o que acarretou em um drástico rebaixamento do nível do lençol freático do vale e forçou os fazendeiros a vender suas terras a preços irrisórios e abandonar a região. Os agricultores que resistiam à pressão construíam, por conta própria, diques e represas em riachos do vale, mas agentes de Los Angeles disfarçados dinamitavam as construções.

Setores da população do vale responderam com fundamentalismo ao assédio da prefeitura. Em 1923, células da Ku Klux Klan surgiram na região e faziam visitas noturnas nas residências de moradores locais que desistiam de lutar contra a Prefeitura, a fim de coagi-los a não cooperar. Finalmente, o extremismo alcançou o ápice em 21 de maio de 1924, quando quarenta homens implantaram três caixas de dinamites no aqueduto e o explodiram. Outros atentados ocorreram entre 1925 e 1927, interrompendo o abastecimento da cidade. Em represália aos ataques, a prefeitura enviou ao vale homens armados com autorização para atirar em qualquer um que se aproximasse do aqueduto.

Em resposta a novos ataques, a prefeitura decidiu, então, agir por outra frente: a financeira. Sabendo que somente bancos locais estavam financiando as atividades econômicas no vale, Los Angeles denunciou-os por certas irregularidades fiscais. Três dias depois, os bancos foram fechados e seus proprietários, os Irmãos Watterson, principais líderes da resistência não-armada no vale, foram julgados e condenados por peculato. Depois desse evento, a resistência no vale desmoronou e as terras foram vendidas à prefeitura. Desta forma, já em maio de 1933, Los Angeles controlava 95% das terras e 85% das propriedades nas cidades no Vale Owens. Com essas medidas, houve um intenso decrescimento populacional na região. Sua base econômica mudou, à força, para turismo e atividades de baixo consumo de água, como pecuária extensiva.

A crise do Vale Owens, conhecida como Guerras Californianas por Água ou simplesmente Guerra Civil Californiana, tornou-se um evento marcante na história dos Estados Unidos. Desde então, a implementação de projetos hídricos é feita sob a ressalva de evitar a repetição desse lamentável episódio.

alt

Sistema hídrico, sociedade e paisagem

A crise do Vale Owens, nos Estados Unidos, deve ver lida como um momento exemplar de disputa pela água e pela vida. No Brasil, e principalmente em Minas Gerais, a expansão de minerodutos deve ser avaliada de vários ângulos. Apesar de serem uma forma barata de transporte, eles consumem grandes quantidades de água e operam uma intervenção irreversível na cultura e na paisagem local. Cabe às autoridades ponderar sobre a aplicabilidade dos recursos hídricos do Estado, a fim de não prejudicar o uso doméstico, a irrigação que alimenta a agricultura, e desertificar a paisagem.

O processo de privatização promovido pelos governos estaduais tucanos de São Paulo e Minas Gerais, respectivamente na Sabesp e na Copasa, interfere de forma radical na produção da água para consumo. Essas empresas, em seu “choque de gestão”, irão se pautar pelo ritmo da bolsa de Nova York…, o que implica transferir o capital da empresa para o exterior. Essa mudança produz impactos violentos sobre as companhias, que deixam de ter por alvo o provimento de um serviço fundamental à vida, e passam a visar a especulação financeira.

Em um momento que deveria ser de amplo debate nacional sobre o Código de Mineração, assistimos, dentro de um cenário de seca sem precedentes no Sudeste brasileiro, a construção do mineroduto da Anglo American. A lamentável história do Vale Owens também deve ser vista como um aviso às comunidades localizadas a jusante dos minerodutos. A crise da Califórnia demonstra que, num jogo de poderes entre fortes e fracos, o poderio dos primeiros pode suplantar estes últimos. Caberia ao Estado e à sociedade civil cuidar para que o poder econômico dominante ou justificativas políticas desenvolvimentistas não tenham supremacia sobre direitos individuais ou de comunidades locais.

Os direitos fundamentais, entendidos como sentinelas da justiça, devem ser aplicados como trunfos contra essas decisões majoritárias. Tais direitos não podem ser negligenciados ou sacrificados em prol de interesses econômicos, sendo inadmissível, em nome da conveniência política ou do que seja, deixar de levar tais direitos a sério, como foi feito no episódio do Vale Owens, o que resultou em uma escalada de violência sem precedentes e em intervenção irreversível e drástica na cultura e no ecossistema.

Myriam Bahia Lopes e Bruno de Oliveira Biazatti são jornalistas.
Originalmente publicado em Outras Palavras - http://outraspalavras.net/brasil/agua-as-mineradoras-te-muita-sede/

Estudo analisa projeto de lei que pretende tirar MT da Amazônia Legal

 https://noticias.ambientebrasil.com.br/clipping/2022/09/16/179606-estudo-analisa-projeto-de-lei-que-pretende-tirar-mt-da-amazonia-legal.htm...