sábado, 7 de março de 2015

Água: a falência do sistema e o espírito bandeirante

carta maior
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Meio-Ambiente/agua-a-falencia-do-sistema-e-o-espirito-bandeirante/3/33001


Água: a falência do sistema e o espírito bandeirante

As irregularidades são tantas que ninguém sabe quanto de água se retira em São Paulo. E tem gente que ainda acha que o problema é a falta de chuvas...


Najar Tubino
Mídia Ninja / Flickr
Essa discussão, que no Brasil, a mídia chama de crise hídrica, é muito mais complicada e envolve o próprio modelo econômico adotado, além da incompetência local, no caso de São Paulo, com um sistema de gestão pífio e um sistema de fiscalização ridículo. A questão: a chuva não vai resolver o problema, nem do sistema Cantareira, nem Alto Tietê, nem na Bacia do Piracicaba, Capivari e Jundiaí, assim como não resolverá a questão dos reservatórios das hidrelétricas. Primeiro ponto: o lago da represa de Ilha Solteira, que é a terceira maior do país – produz 3.444 MW, localizado na fronteira entre SP e MS, está SECO, assim como o da represa de Três Marias.
 
No levantamento do ONS sobre o estado das represas, do dia 2 de março, a média para a região Sudeste e Centro-Oeste era de 20,97% da capacidade. As principais represas estavam na média de 13%, isso inclui a de Furnas. Na região Nordeste a situação é idêntica: Sobradinho estava com 18,21% e Três Marias com 18,36%. As regiões Sul e Norte é que estão em melhores condições- Tucuruí com 40,3% e Passo Real com 43,15%. As chuvas do nordeste estão abaixo da média como era previsto. A seca entra no quarto ano nos estados do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Isso na prática é o seguinte: 248 municípios com racionamento de água ou sem fornecimento. O Ceará ainda mantém 176 municípios, de um total de 184, em estado de emergência. Em Pernambuco são 116 dos 173 municípios.
 
Quanta água é captada?
 
Em São Paulo as chuvas foram acima da média em fevereiro, embora o Sistema Cantareira tenha recolhido água apenas para completar o primeiro volume morto – acima de 18% ele completa o segundo volume morto. Mas as previsões de março são de chuvas menos intensas. E, depois, começa o período com menor probabilidade de chover. O Dia 30 de abril é definitivo: o governo estadual vai definir se corta a água de indústrias, agricultores e demais usuários. Antes disso o espírito bandeirante aflorou. É tamanha a quantidade de irregularidades que ocorrem com a captação de água no estado – oficialmente mantém 35,4 mil pontos de captação de água, acrescentando que em 2014 concederam mais 5.471 outorgas. E o Departamento de Água e Energia Elétrica tem 271 técnicos para fiscalizar todo o estado.
 
Não vou tratar da lista dos 500 clientes da Sabesp está em discussão. Vamos ver a situação da Bacia do Alto Tietê, que abastece parte da região metropolitana de SP, incluindo municípios como Suzano, Poá, Ferraz de Vasconcelos e parte da zona leste da capital. Municípios como Salesópolis e Mogi das Cruzes concentram o cinturão verde do estado. Qual a situação da agricultura: mais de 80% dos agricultores que captam água para irrigar suas plantações – que são no regime de agronegócio, embora de verduras e legumes – estão irregulares.
 
Quer dizer, ninguém sabe quanto eles captam. Mas eles são a parte menor nesta questão. O Comitê da Bacia do Alto Tietê vai começar a cobrar dos usuários a partir desse ano. Isso já ocorre em outras bacias espalhadas pelo Brasil, desde 2001. O próprio Comitê, que é o responsável – onde participam usuários, sociedade civil e o poder público - definiu pela cobrança em 2012. A questão mais importante é a seguinte: são 2,5 mil usuários que captam água diretamente, envolve desde empresa que vendem água, tipo carro-pipa, hotéis, condomínios e indústrias.
 
Cobrança começa apenas em 2015
 
A Agência Nacional de Água é quem faz o recolhimento desta taxa, cujo objetivo único é investir na recuperação da bacia hidrográfica. No caso dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí – de domínio público federal – a taxa é recolhida desde 2006. Até 2013, a ANA repassou para a Fundação Agências das Bacias do PCJ R$150 milhões. Em todo o país, que inclui rios como São Francisco, Paraíba do Sul e outros, foram recolhidos em 2013 R$234 milhões. São Paulo recebeu R$40 milhões. No Alto Tietê a previsão é que haverá um recolhimento na ordem de R$24 milhões este ano, de empresas como Gerdau, Multipapéis, NGK, Melhoramentos, Kimberly Clark- todas localizadas em Mogi das Cruzes, além da Suzano Papel e Celulose, Clariant e Itaquareia. No Consórcio da Bacia do PCJ participam 43 prefeituras e 27 empresas, entre elas, Petrobras, Unilever, Rhodia, Ypê, responsáveis por 90% do consumo da região.
 
O presidente da Fiesp, Paulo Skaf diz que 70% das empresas fazem reúso da água. Já o diretor de Meio Ambiente da mesma entidade, Nelson Pereira dos Reis, disse que 60 mil empresas serão atingidas pela falta de água na Grande São Paulo e Campinas, responsáveis por 1,5 milhão de empregos na área industrial. A saída é óbvia: investimentos na abertura de poços artesianos. Em 2012, a Fundação Brasileira de Desenvolvimento Sustentável apresentou um relatório sobre o setor privado e os recursos renováveis. Em São Paulo, 41,2% da água é usada pela agricultura, 32% para abastecimento público e 26,8% pela indústria.
 
Consumo industrial no meio urbano
 
Citava metas de redução do consumo de água pela indústria e listava os maiores consumidores: alimentos e bebidas, indústria têxtil, mineração, siderurgia, papel e celulose, petróleo e derivados químicos. Uma das integrantes da lista dos clientes da Sabesp que pagam tarifa promocional é a Viscofan, da área de papel e celulose. A produção de papel fino gasta um milhão de litros por tonelada de papel – no caso do sulfite são 700 mil litros por tonelada. Uma indústria têxtil também está na lista: o tingimento de tecido consome 150 mil litros por tonelada e o preparo do linho 40 mil litros. Para fazer polipropileno, base química para milhares de produtos são gastos 230 mil litros por tonelada.
 
Recentemente o prefeito de Campinas insistiu com a Sabesp para fazer um sobrevoo sobre o rio Atibaia porque a diferença no desnível do rio era muito acentuada. Constataram o que todo mundo sabe – furto de água. Agora, numa situação como a atual, chega-se a seguinte conclusão: ninguém sabe quanto de água se retira dos rios, riachos, aquíferos em São Paulo, tal o nível de irregularidades constatadas. Um trecho do documento lançado recentemente na capital paulista pela Aliança pela Água:
 
“- Não existem dados para afirmar que o ciclo de estiagem esteja acabando, a seca pode continuar e até se intensificar ao longo deste ano. Com a falta de água o individualismo e a violência tendem a prevalecer. O vácuo alimenta o alarmismo e o pânico, dificultando ainda mais a garantia dos direitos e a saúde dos cidadãos nesta iminente calamidade. O esforço para enfrentar o colapso deverá ser coletivo e exigirá um longo período de sacrifícios por parte da população. E transparência e diálogo com os diversos setores da sociedade.”
 
Panorama mundial - mais consumo e menos água
 
Qual o panorama no mundo sobre a escassez, desperdício, poluição da água? Em fevereiro a ONU lançou dois relatórios sobre o tema. No primeiro sobre o aumento de 40% no consumo de água até 2030, mas com um adendo importante: a redução na vazão dos principais rios do mundo em 25% - em alguns meses do ano eles não chegarão a sua foz. Mais importante: 48 países deverão ser enquadrados na categoria com escassez ou falta de água no mesmo período, envolvendo uma população de quase três bilhões de pessoas – lógico que Índia e China estão entre eles. Pior: 80% da água no mundo não é coletada, nem tratada. Nos países em desenvolvimento 70% dos resíduos industriais não são tratados. Morrem por ano no mundo 1,5 milhão de crianças menores de cinco anos por doenças decorrentes do suprimento de água contaminada – as chamadas doenças diarréicas.
 
O relatório também cita um fato comprovado desde 1970, em regiões que começaram a enfrentar problemas de seca. O volume de chuvas, desde então, tem diminuído nestas mesmas regiões em pelo menos 20%. A degradação da terra, a desertificação e a seca atingem 1,5 bilhão de pessoas no planeta. Houve uma perda de 24 bilhões de toneladas de solo fértil nos últimos anos, uma área comparada à zona agriculturável dos Estados Unidos. Sem contar que mais de 200 milhões de toneladas de esgotos são jogados em rios, córregos e no mar.
 
Exemplo bandeirante
 
Uma pesquisa realizada pela UNESP em 54 riachos da região de São José do Rio Preto constatou que no período de 2003-2013 em 80% deles houve diminuição do volume de água e perda da qualidade do ambiente por assoreamento e deposição de areia nos leitos. Diz a pesquisadora Lilian Casatti:
 
“- Nós sabíamos que haveria uma perda de qualidade ambiental, mas não imaginávamos que ela seria tão grave em tão pouco tempo”.
 
Na região dos sistemas que abastecem a maior metrópole da América Latina existem dois milhões de construções irregulares e um complexo industrial altamente poluidor e consumidor de água, além de uma população de 25 milhões. O espírito bandeirante busca o milagre na porta do inferno.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Carl Warner’s Whimsical Food Landscapes

brainpickings
http://www.brainpickings.org/2011/11/09/carl-warner-food-landscapes/


Carl Warner’s Whimsical Food Landscapes

by 
What the London skyline has to do with asparagus, rhubarb, and Pink Floyd.
British photographic artist Carl Warner, whom you might recall as one of our favorite architects of edible landscapes, is a master of food and form, crafting astounding fantasy food landscapes that are part Ansel Adams, part Anthony Bourdaine, part your childhood daydreams dreamt from the counter of your grandmother’s kitchen. These miniature vignettes are painstakingly hand-crafted with only minimal Photoshop involvement and exude a kind of vibrant whimsy that stands in stark contrast with the mundane, dully ordinary ingredients Warner uses. Food Landscapes collects Warner’s most magnificent work, alongside detailed production notes and ingredient lists for each scene.
Making landscapes out of food seems like a rather unusual thing to do for a living, and people often ask, ‘What made you start doing this?’ It seems that the burning heart of this question is really the curiosity about what it is that motivates any human being to do something out of the ordinary, and my short answer to this is usually a simple, because I had the idea and I chose to do something about it.” ~ Carl Warner
Salmon Sea
Smoked salmon sea, dark soda bread rocks, sugar and pinto beans sand and pebbles, foreground rocks from new potatoes and parsley; pea pod and bean sprout boat, side of salmon sky
Coconut Haystacks
Parsley trees with horseradish trunks, red cabbage sky, toasted almonds as distant haystacks, and loaves of bread for hills
Chinese Junk
The roster of ingredients includes dried lotus leaves for snails, noodles for the wood floor, physalis lanterns, and the obscure wild green yamakurage for the rope.
And since we’re on the subject of influences today, Warner traces the kernel of his inspiration to the work of Tessa Traeger, a food photographer who in the early 1990s published A Visual Feast, a collection of painterly, two-dimensional pictures composed using food. Warner wondered whether he could take this a step further and create three-dimensional vignettes with food. Then, one day, as he was strolling through the fruit and vegetable market, he noticed the curving trunks and parasol canopies of portobello mushrooms were reminiscent of trees in the African savannah. He quickly grabbed the mushrooms and some grains, and headed back to his studio to create a tabletop scene that would photograph like a larger landscape. The rest was creative history.
Of his start with photography, Warner recounts:
For me, drawing and music were a means of escape into other worlds and alternate realities, and this provided the means to stimulate and exercise the muscles of my imagination. This went on for years, until I discovered photography. I found that I could photograph the real world but make it surreal by the techniques and the processes I was able to use in the camera and in the darkroom. I soon realized that this was a lot quicker than drawing, and I was able to develop ideas and concepts with more ease… At the same time, album cover art was in its heyday, and graphic designers such as Storm Thorgerson of Hipgnosis were creating amazing surreal images for bands like Pink Floyd. I knew that this was what I wanted to do with my life.”
Celery Rain Forest
Canope made of okra with dried chili oarsman, tiny mushroom hat and a cardamom pod; path: pumpkin seeds, sunflower seeds and lentils
Cart & Balloons
Balloons made of red onion, apple, garlic bulb and other fruits; balloon baskets: nuts; hills and fields: bread, cucumber, string beans, green beans, corn, asparagus
Broccoli Forest
Broccoli trees, chopped parsley ground, fresh herb plants, small foreground rocks from Jerusalem artichokes and potatoes, cumin, turmeric and fennel seed pathway, crusty bread rocks, sugar waterfall, cauliflower clouds
London Skyline
Riverbank walls: panini; lamppost: mackerel, asparagus, onion, vanilla pods; London Eye: green beans; courgette, leek, lemon, rhubarb supports; The Dome: green melon.
A pinnacle of finding magic in the mundane, Food Landscapes is an absolute treat and a living manifesto for the power of truly running with the seemingly crazy creative ideas that take hold of your imagination.
Images courtesy of Carl Warner / Abrams Books

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

E da erva se fez a cura

fpemat
http://revistafapematciencia.org/noticias/noticia.asp?id=650


E da erva se fez a cura
26/01/2015 20:18
E se alguém te abordasse agora com um tapinha nas costas e perguntasse: “curte um baseado?”. Como resposta, talvez viesse um “é proibido o uso de qualquer droga no Brasil” ou “consumir maconha faz mal à saúde”. No frigir dos ovos, ou você recusaria, ou toparia, não sem levar em conta um amontoado de ressalvas.
 
Mudemos o cenário: um médico te dá uma prescrição, sugerindo que você passe numa farmácia e compre um remédio, cuja fórmula apresenta um dos 60 compostos ativos da maconha. Que tal? Se ali estivesse a garantia da solução dos seus problemas, você seria um maconheiro com muito orgulho, com muito amor.
 
Pois bem. Não são poucos os pesquisadores da área da Saúde que defendem o uso do canabidiol [CBD] – uma das principais substâncias da maconha – para o combate de algumas doenças graves, como a epilepsia.
 
O canabidiol, em estado líquido, é injetado via oral
[Foto: www.dm.com.br] 
 
No Estado de São Paulo, por exemplo, duas gêmeas nasceram com Síndrome de West[forma de epilepsia severa, de difícil controle]. Com os remédios tradicionais, uma delas chegou a ter 50 convulsões no mesmo dia. Após duas semanas do início do tratamento com o canabidiol, as crises terminaram e não voltaram, ao contrário do que ocorria com o uso de medicamentos convencionais.
 
Porém, a questão ganhou notoriedade com o caso da garota Anny. A criança de cinco anos sofre de Síndrome de Rett CDKL5, anomalia rara que chegou a gerar 60 crises convulsivas em apenas um dia. Quando ainda não existia qualquer tipo de via legal para medicar o canabidiol, os pais chegaram a traficar a substância.
 
O vídeo aborda a luta dos pais da menina Anny para conseguir o canabidiol. O conteúdo foi produzido e veiculado em março de 2014, ou seja, antes da decisão do Cremesp e da Anvisa. 
 
Como o consumo da maconha é proibido no país, o uso para fins medicinais era limitado e burocrático. O interessado precisava encaminhar para a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] a receita e o relatório médico. Depois de autorizada a aquisição, era preciso importar o remédio, que custa cerca de R$ 400 e dura um mês.
 
Para amenizar a demora, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo foi precursor, e elaborou, ainda em 2014, uma resolução que autorizou o uso do canabidiol apenas para formas graves de epilepsia em bebês e crianças. No último dia 14, foi a vez da própriaAnvisa excluir o canabidiol do rol de substâncias proibidas. Agora, ele é considerado um medicamento e pode ser receitado [por neurologistas, neurocirurgiões e psiquiatras] a pacientes de até 18 anos, desde que as formas convencionais de tratamento não apresentem resultados satisfatórios.
 
O Governo Federal já recebeu 374 pedidos, dos quais 336 foram aprovados. Do restante, 20 aguardam o enquadramento às exigências por parte dos interessados e 11 são analisados pela área técnica. Por questões judiciais ou pessoais, sete solicitações foram arquivadas.
 
Um pouco mais sobre o medicamento
Canabidiol, ou CBD, é uma das 60 substâncias ativas presentes na maconha [Cannabis sativa]. Não provoca alteração nos sentidos, nem gera dependência. O outro componente principal da Cannabis é o THC [Tetrahidrocanabinol], responsável pelo efeito inverso e mais agressivo da planta.
 
Em artigo publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria, edição de maio de 2010, José Alexandre Crippa, Antonio Waldo Zuardi e Jaime Hallak discorrem sobre o comparativo entre CBD e THC. “Um recente estudo (...) com CBD e ∆9-THC confirmou a ideia do potencial antipsicótico do CBD. Neste estudo, os autores verificaram que o ∆9-THC e o CBD apresentaram efeitos opostos na ativação de diversas áreas cerebrais usando diferentes tarefas. Em um segundo experimento, o pré-tratamento com o CBD foi capaz de prevenir a indução aguda de sintomas psicóticos induzidos pelo ∆9-THC. Este resultado é consistente com o achado de que os sujeitos usuários de amostras de cannabis que contêm mais CBD em adição ao ∆9-THC têm menor propensão de apresentar sintomas psicóticos do que aqueles que fumam amostras de cannabis sem CBD”.
 
Foto: www.lersaude.com.br 
 
O CBD apresenta eficiência em pacientes com glaucoma, mal de Parkinson, ansiedade, esquizofrenia e alguns transtornos de sono. Age contra a perda de memória dos pacientes com Alzheimer, atenua a degeneração de neurônios em casos de alcoolismo, inibe metástases em câncer, especialmente o de mama, além de diminuir as náuseas de pacientes em quimioterapia ou em tratamento contra o HIV.
 
Falando especificamente sobre o Parkinson, os três pesquisadores da Universidade de São Paulo [Medicina/Ribeirão Preto] relatam testes feitos com CBD em humanos. “Em um estudo piloto aberto, testamos a administração de CBD em seis pacientes ambulatoriais com o diagnóstico de DP [doença de Parkinson] e com sintomas psicóticos associados por pelo menos três meses. Estes receberam uma dose oral flexível de CBD [começando com 150mg/dia] por quatro semanas, além de suas terapias usuais. Tanto os sintomas psicóticos como motores reduziram significativamente com o tratamento com o CBD e não houve piora dos sintomas cognitivos. Estes resultados preliminares sugerem que o CBD pode ter um efeito benéfico na DP”.
 
Usos e histórias da maconha
Você pode até duvidar, mas o sucesso da viagem de Pedro Álvares Cabral e sua trupe à terra brasilis foi bem sucedida graças à maconha. Sim, porque as potentes caravelas lusitanas levavam carvalho no casco e cânhamo [fibra produzida a partir de planta do gênero cannabis] nas velas, material bem mais resistente que o algodão. Ou seja, Portugal tinha o básico para chegar ao Brasil: visão, grana e... maconha.
 
À época, o cânhamo era matéria-prima para produção cordas, tecidos e papel. Antes disso, os chineses, inventores do papel, utilizavam a fibra, bem como Gutenberg, na hora de imprimir seus livros. Antes da iluminação a gás ou elétrica, o componente que viabilizava energia era o óleo de cânhamo, antecedido pelo óleo de baleia.
 
Fios de cânhamo
[Foto: www.portuguese.alibaba.com] 
 
No entanto, bem antes, a maconha já era tida como matéria-prima. Anterior ao ano 2 mil a.C., algumas culturas orientais já utilizavam a maconha para fins medicinais. Já o viés pecaminoso da planta – e do seu uso –, implementado pela Igreja, data do século XV. Os curandeiros da época, perseguidos em nome do Papa, utilizavam a cannabis como recurso de cura. Era o que a Igreja precisava para decretar a proibição do consumo da planta.
 
Cheguemos aos dias de hoje. Tem-se o hábito de relacionar a Jamaica à maconha. E a analogia não é equivocada [embora as nossas leis e convenções deem, equivocadamente, um tom pejorativo a esse paralelo]: toda a tradição daquele país se deve à Coroa Britânica. Ao levar para a América Central mão-de-obra africana, a ideia era transformar o país em uma imensa área de cultivo para a produção do cânhamo. Isso ocorreu no Brasil também: Portugal sabia que o mercado de tecido era intenso, e o cânhamo apresentava-se como principal matéria-prima. Além disso, os escravos vindos da Angola trouxeram para o país o costume de fumar, convencionando-se a expressão “fumo de Angola”. Em suma, nas lavouras tupiniquins já teve maconha a dar com pau.
 
Mais um uso da planta pode ser identificado em outras duas culturas. Até hoje a maconha é utilizada no costume rastafári, que mescla as tradições judaicas e cristãs, em rituais de limpeza e purificação. Já nos Vedas [reunião dos quatro volumes de textos em versos – hinos e preces], principal livro do hinduísmo, escrito mais de 1500 anos antes da Era Cristão, a cannabis era descrita como o alimento preferido do deus Shiva. Para os indianos, usar maconha era entrar em comunhão com Shiva. Trocando em miúdos, fazer a planta virar fumaça significava estar quite com a divindade.
 
Como se vê, tivemos períodos de uso indiscriminado da maconha, enquanto o momento atual proíbe a sua utilização, pelo menos no Brasil. Ao que parece, uma necessidade medicinal quer botar o assunto em discussão novamente.
 
 
Colaboração: Mariana Mouro, estudante do 2º semestre de Comunicação Social da UFMT/Cuiabá
Imagem de capa: www.brasilpost.com.br
Thiago Cury



Não é só juntar latinhas e separar o lixo

fapemat
http://revistafapematciencia.org/noticias/noticia.asp?id=652


Não é só juntar latinhas e separar o lixo
28/01/2015 17:49
Quanto pesa o seu celular? 100, 150 gramas, talvez menos? Mal o sentimos no bolso. E um notebook? Um tablet? Se comprar uma Smart TV, pode instalá-la sozinho, sem grandes problemas. A tecnologia ficou mais leve e compacta.
 
Agora, imagine juntar mais de 1,3 milhão de toneladas desses aparelhos... Quantos celulares serão necessários? Pois é, essa é a quantidade de lixo eletrônico gerado pelo Brasil em 2012, segundo dados da ONU [Organização das Nações Unidas]. Para 2017, as expectativas são ainda mais alarmantes.
 
Anotou? Então pense nos televisores e monitores antigos, aqueles de tubo. Com as telas novas, quantos equipamentos daqueles não vão para o lixo, e quanto isso deve pesar? A resposta: muito. Talvez até demais, e tudo isso causa problemas, seja na natureza ou na cidade.
 
O professor Einstein Lemos de Aguiar, da UFMT, coordenou a criação de uma máquina que facilita a reciclagem desse lixo. Ela processa placas de circuito. A invenção foi só o primeiro projeto do que viria a se tornar o Núcleo de Gestão do Conhecimento Aplicado à Economia Verde.
 
 
Prof. Einstein participou da criação de um equipamento que recicla lixo eletrônico
[Foto: Daniel Morita]
 
Hoje, o Núcleo, que está finalizando sua criação formal, já tem cinco projetos, todos voltados para a reciclagem com geração de renda. Por isso a economia verde. Ela não só gera dinheiro, mas ajuda a se livrar de um problemão, que são os resíduos.
 
A máquina que processa placas de circuito [RPCI] está em vias de ganhar um ‘cérebro’: oSmartRPCI deve ser a nova versão do equipamento que pode reconhecer diferentes componentes das placas e autocalibrar para fazer tudo de forma mais eficaz. As razões para reciclar as placas são simples: o impacto ambiental que elas causam nos lixões e depósitos e os vários metais que foram usados na sua construção, em especial, o ouro.
 
 
Com uma tonelada de placas recicladas, é possível extrair alguns gramas de ouro. Na palma da mão, não parece muito, mas equivale a alguns milhares de reais. Com um custo aproximado de R$ 500 mil para ser construído, o RPCI pode, facilmente, ser colocado em um caminhão e transportado para maratonas de reciclagem por todo o Estado.
 
Pode não parecer diferente de girar tudo isso num liquidificador potente, mas cortar centenas de placas de circuito em milímetros ou mesmo pó exige lâminas especiais. Além disso, as esteiras, peneiras e outras partes da máquina já separam o metal, deixando-o pronto para ter o ouro retirado.
 
Sabe aquelas lâmpadas queimadas, ou quebradas, que dão um trabalhão para jogar fora? Bom, elas não têm ouro, mas podem ajudar a trazer algum conforto extra para sua casa. Dois trabalhos desenvolvidos pelo Núcleo envolvem usar o vidro de lâmpadas fluorescentes e tubos de televisores antigos para produzir uma tinta especial, reflexiva. O vidro triturado e tratado pode ser incorporado à fórmula da tinta, e depois que está na parede, reflete parte dos raios solares. Que tal pintar sua casa com uma tinta que diminui em até 5°C a temperatura da parede? De quebra, você já se livra das lâmpadas queimadas.
 
Outro projeto do Núcleo é usar as partes plásticas dos aparelhos, com a finalidade de gerar energia para pequenas empresas. Uma vez triturado e processado, o produto nomeadoPetroplástico pode virar combustível para pequenas termoelétricas. 
 
Relação com o mercado
Apesar de estar baseado na UFMT, o Núcleo não restringe suas atividades à Universidade. O professor busca parceiros em outras entidades, como o Senai e demais instituições de ensino superior, desde que possuam parques tecnológicos avançados. Outras parcerias essenciais são com empresas privadas. “As públicas são muito complicadas, muito difíceis. Junto com a iniciativa privada, o cara vai e faz. Pronto, está feito, é muito mais rápido”.
 
Segundo Einstein, o termo Economia Verde se refere a uma atividade econômica, e, portanto, deve gerar renda. Focando em uma pesquisa dentro da Universidade que possa gerar, de fato, benefícios sociais, ambientais e econômicos, ele vê a expansão das parcerias para além dos muros como algo positivo e desejável. Um dos parceiros na produção do RPCI, e que hoje guarda o equipamento, é a Recyclart, de Carlos Israilev.
 
 
À esquerda, Carlos Israilev, um dos parceiros no projeto
[Foto: Daniel Morita]
 
Mesmo adotando parcerias externas, Einstein ainda encontra dificuldades de financiamento. “Mato Grosso é um grande produtor agrícola, o celeiro do país. Isso deveria ser uma mina de ouro. Mas mesmo nas pesquisas que podem beneficiar os agricultores, o investimento em inovação é muito pequeno”, conta ele, criticando a falta de investimentos de vários setores da sociedade na inovação tecnológica.
 
Exceto alguns bolsistas, a equipe do Núcleo muda muito de acordo com a fase de desenvolvimento em ação. Seguindo uma lógica mais próxima do mercado, Einstein altera seu pessoal frequentemente, buscando as pessoas mais adequadas para cada situação momentânea. “Um problema comum é a falta de pessoal qualificado. Se não houvesse a carência, o processo de produção seria mais ágil”. Talvez esse possa ser um caminho para a produção e inovação tecnológica, a expansão das parcerias e procedimentos da academia.
 
Imagem de capa: Página da Recyclart no Facebook
Daniel Morita



Cidadão é o maior penalizado por 20 anos de gestão irresponsável da água em SP

correio
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10459:manchete280115&catid=34:manchete

Cidadão é o maior penalizado por 20 anos de gestão irresponsável da água em SP

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ESCRITO POR MARCELO POMPÊO   
TERÇA, 27 DE JANEIRO DE 2015


Desde o final de 2013, a população paulistana tomou ciência da restrição hídrica que se aproximava, decorrente da falta de chuvas e dos baixos níveis de água nos reservatórios empregados no abastecimento público. Já em 2014, assistimos atônitos aos recordes e mais recordes de baixos níveis de água nos reservatórios. Agora, no início de 2015, essa situação segue pior ainda, com perspectivas sombrias para o restante do ano. Mas são inúmeras as cidades do interior de São Paulo atingidas pela falta de água, inclusive em outros estados. No presente, a falta de água não é mais gritante, pois na cidade de São Paulo os cidadãos dão sua cota de colaboração, reduzindo o consumo como podem. Do contrário, o poço já teria secado.

Esta grave crise serviu para mostrar que a lição de casa não foi feita e, seja para o município, para o estado ou mesmo para a União, muita coisa tem que mudar a partir deste triste cenário. Ficou claríssimo para quem quer ver que nossas leis e a gestão das águas não são satisfatórias e a condução política não preserva o cidadão e o meio ambiente, ao menos na oferta do serviço público, como da água tratada de qualidade e na quantidade adequadas.

Nestes últimos 20 anos, o Estado não planejou e se preparou adequadamente e o cidadão será penalizado por não ter água necessária aos seus usos históricos e culturais. É novamente penalizado por ter que pagar a conta, através de multas e/ou elevação de tarifas e, eventualmente, será mais penalizado ainda por ter seu consumo medido pela média de 2014 (medida em estudo pelo governo estadual). Uma média, sem dúvida, fora do padrão histórico de consumo de cada família, já que foi em 2014 que o cidadão ativo reduziu o consumo. E, por fim, o cidadão é o maior penalizado, pois caberá a ele a maior parcela de contribuição, seja financeira ou de restrição hídrica.

Entre outros prejuízos, soma-se a menor quantidade de água para a indústria e agricultura, que sem dúvida impactará o emprego, renda e os preços, principalmente dos produtos originados do setor agrícola. Na questão da gestão das águas, chegamos ao fundo do poço. Se ficou alguma coisa de bom, é que a população sabe fazer a sua parte.

Um país com cerca de 12% da água doce superficial do mundo, apesar de não tão bem distribuída pelo território nacional, não pode desconsiderar planejamento no curto, médio e longo prazos. Ainda mais tendo nosso país sólida tradição de pesquisas nas áreas de hidrologia, hidráulica, recursos hídricos (aspectos qualitativo e quantitativo), ecologia, limnologia, saneamento, legislação ambiental, por exemplo, com excelentes universidades, centros e grupos de pesquisas, além de recurso financeiro suficiente, como uma das maiores economias do mundo.

Portanto, não necessitamos importar especialistas para nos dizer como fazer, mas trocar experiências é sempre importante. Nossos técnicos são bem formados e sabem fazer, quando a eles é passada a tarefa. Daí concluir que o modo de gerir a questão das águas no Brasil não está baseado primeiramente em premissas científicas, na pesquisa estruturada, na consulta ao corpo técnico, ou mesmo em questões de sustentabilidade e meio ambiente, mas, sim, deixa transparecer que são decisões meramente políticas.

Mas não transparecem ser decisões políticas como parte de um claro plano de governo, aberto, transparente, escrito e em diálogo com a sociedade. Neste momento de crise, o que compreendemos das declarações de muitos técnicos do setor, especialistas, gestores e políticos ligados ao tema, divulgadas pelos diversos meios de comunicações, deixa claro que são sempre decisões tomadas de última hora, pontuais e emergenciais, torcendo para Deus ser brasileiro, esperando por São Pedro fazer o seu serviço ou culpando a natureza, mesmo quando “trabalhamos sem parar” (1). São apresentadas soluções imediatistas tal como puxadinhos, remendos, colcha de retalhos ou tapa buracos, como a retirada de um primeiro volume morto, depois de um segundo, seguindo para um terceiro e derradeiro volume morto (se necessário), seja de um reservatório e depois de outro e mais outro, torcendo pelas chuvas, que chegaram, mas de pequena intensidade.

Se não der certo, e não chover, o reservatório da vez será a Billings. Há também de se manter o rio Pinheiros com águas altas e as comportas fechadas, no Cebolão, junto ao rio Tietê, para reverter suas águas ao reservatório Billings, mas também para gerar hidroeletricidade em Henry Boarden, na Baixada Santista, quem sabe contribuindo para evitar outro apaguinho/blecaute. De outro rio retira-se mais 0,5 m3/s. Outra ideia é interligar os mananciais, para retirar água de dado reservatório na medida da necessidade, enquanto se reduz em outro. E como recentemente declarou o secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, o Prof. Dr. Benedito Braga, em seis meses não é possível fazer obras da envergadura adequada ao problema.

Durante 2014, nosso governador, pessoalmente, sempre reforçou que não teríamos problemas, pois as chuvas logo estariam aí e tudo se resolveria. As chuvas ainda não chegaram, ao menos onde deveriam. Há planos de retirar águas do rio Ribeira de Iguape e autorização para captar água do Paraíba do Sul. Outra opção, na gestão da crise do abastecimento público, é reduzir a pressão na rede de abastecimento, ou mesmo cortar de vez o abastecimento, com rodízio entre setores da cidade, que podem ter água em certos dias e horários da semana, como forma de reduzir o volume de água ofertada e refletir na redução do consumo.

Correm no meio da cidade importantes rios como o Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, por exemplo, esgotos a céu aberto, não sendo possível empregar suas águas nem mesmo para a rega de parques e jardins, quanto mais para o consumo humano. Não há efetiva e substancial captação de água de chuva para emprego no abastecimento púbico. Há praticamente 30% de fuga da água limpa que percorre as tubulações até chegar em nossas casas. Isso sem falar da descaracterização total do ecossistema reservatório, com as comunidades biológicas constituintes mortas ou substituídas, decorrente da quase seca total do reservatório, como se de fato o reservatório fosse unicamente uma caixa de água, não mais um estabelecido ecossistema, com estrutura, função e dinâmica próprias, e prestando inúmeros e importantes serviços ecossistêmicos.

E nem mesmo há reconhecimento oficial formal de que estamos em período de forte restrição hídrica e de racionamento. Isso tudo é a política de Estado para a gestão dos recursos hídricos para abastecimento público em São Paulo? Esse é o plano de governo para a gestão das águas no estado? Vale lembrar que somente a Região Metropolitana de São Paulo é composta de quase 20 milhões de habitantes e qualquer coisa para atender a demanda desse universo de pessoas não pode ser realizada sem planejamento adequado.

Segundo Brasil (2003) (2), os sistemas de abastecimento de água devem ser dimensionados para atender às necessidades de água da região beneficiada. Ainda, segundo esse mesmo documento, é importante que as projeções das necessidades e as disponibilidades dos recursos hídricos, em função do aquecimento da economia e do crescimento demográfico, sejam calculadas com antecipação.

Os sistemas devem ser planejados, arquitetados e construídos, para funcionarem durante muito tempo sem riscos de deterioração. Apesar disso, as atividades de monitoramento do sistema, buscando detectar, no mais curto espaço de tempo, possíveis problemas ou defeitos, são de importância capital, para garantir a retroalimentação sistêmica, relacionada com as atividades de manutenção. Estas são as premissas do plano de governo que vivenciamos em São Paulo?

Sendo urgente despender esforços para equacionar questões relativas à manutenção da qualidade e quantidade da água nos mananciais e visando minimizar os problemas relacionados ao abastecimento público e esgotamento sanitário nos grandes centros urbanos e garantir mananciais mais saudáveis para gerações futuras, são propostas (3):

a)  nenhuma entidade federal, estadual, municipal ou privada poderá captar qualquer quantidade de água bruta sem a aprovação prévia dos órgãos competentes;

b)  toda entidade federal, estadual, municipal ou privada terá o prazo máximo de cinco anos para regularizar e cadastrar seu sistema de captação de água bruta em operação, atendendo normas estabelecidas pelas diferentes esferas de governo; no caso de descumprimento, ficará definida multa diária;

c)   definir em lei a quantidade máxima de água bruta que poderá ser captada, com base na quantidade – vazão e carga retiradas, levando em consideração a vazão e carga do manancial (rio) e a recarga de lagos e reservatórios, discriminando responsabilidades e sanções quando do seu descumprimento;

d)  o não cumprimento das normativas apresentadas nos itens anteriores implicará em não ter analisadas novas solicitações de captação, até a regularização da atual situação; 
e)   a obrigatoriedade definida em lei que, para cada metro cúbico de água potável ofertada à população, seja definido em projeto a respectiva coleta e tratamento da água servida. A oferta de água potável e coleta e tratamento do esgoto gerado devem ser entendidos como um sistema único, integrados e indissociáveis, implicando que sejam considerados conjuntamente no planejamento, implantação e solicitação de recursos, com pena de não ter aprovada a proposta de captação de água bruta;

f)    definir em lei o limite máximo de 10% para a fuga de água, implicando em multas e sanções quando do seu não cumprimento; para tanto será obrigatória a implantação de sólido programa de monitoramento de perdas e controle da água ofertada;

g)  a obrigatoriedade definida em lei para que, no prazo máximo de dez anos, todo esgoto gerado seja efetivamente coletado e tratado (descarte zero), definindo severas sanções às diferentes esferas de governo e seus dirigentes quando da não observância da lei;

h)  empreendimentos já instalados têm o prazo de dez anos para se integrarem à rede coletora de esgotos; após esse prazo, serão integrados compulsoriamente, arcando com os custos de instalação, somados às despesas de multas e custos processuais;

i)    definir em lei que novos empreendimentos somente serão aprovados para uso após serem definitivamente integrados à rede coletora de esgoto;

j)    definir em lei prazos para a instalação de sistemas de tratamento e descarte de lodo, proveniente das estações de tratamento de água para o abastecimento público (ETAs) e das estações de tratamento de esgotos (ETEs), com definições de responsabilidades, sanções e multas quando do seu não cumprimento;

k)  definir em lei que novos empreendimentos (condomínios, museus, clubes, estádios, escolas, shopping centers, parques temáticos, indústrias, hospitais, hotéis, motéis, restaurantes, casas de espetáculos e de exposições e outros estabelecimentos comerciais e empreendimentos de grande porte público e privado, com base na área física instalada e no número de pessoas atendidas) implantem sistema de reuso de água, com prazos de instalação e projetos aprovados por órgãos competentes;

l)    definir que estes mesmos empreendimentos também implantem sistema de captação de água de chuva, com prazos de instalação e projetos aprovados por órgãos competentes;

m)             definir em lei o prazo de dez anos para que empreendimentos já instalados (ver item k) implantem sistema de captação de água de chuva, com prazos de instalação e projetos aprovados por órgãos competentes;

n)  cobrar de modo diferenciado e escalonado, segundo o consumo de água: quanto mais consome, mais paga, garantindo uma tarifa social mínima de ao menos 110 litros/habitante/dia;

o)  instalar medidores de consumo de água individuais – uma casa, um medidor de consumo;

p) empreender esforços visando ampliar o controle e a vigilância da qualidade da água pelos órgãos responsáveis pelo abastecimento e por órgãos de saúde pública, da água bruta à torneira para o consumidor final;

q)  empreender esforços em todos os níveis, com campanhas educacionais sobre a importância da água, seu uso racional, a preservação de sua qualidade e quantidade;

r)   empreender esforços em campanhas educacionais relacionadas à saúde pública, reforçando a importância de hábitos simples, como lavar as mãos com sabão após usar o banheiro e antes das refeições;

s)   estabelecer que estado e prefeitura obrigatoriamente implantem secretaria de meio ambiente e de saneamento;

t)    definir que toda a secretaria de estado (federal, estaduais e municipais), de meio ambiente e de saneamento, deva manter site atualizado, com as ações empreendidas e metas para o sistema de abastecimento de água e esgotamento sanitário.

A intervenção divina não nos trará a água desejada e necessária. Caberá ao homem planejar e vislumbrar cenários futuros, corrigindo distorções no curso dos acontecimentos.
Notas:
(1) - Declaração do Governador Geraldo Alkmin, Folha de São Paulo, de 25 de Janeiro de 2015. Caderno Cotidiano.
(2) -  BRASIL, Ministério da Integração Nacional. (MI). Secretaria Nacional de Defesa Civil. (SEDEC), Manual de desastres humanos: desastres humanos de natureza tecnológica – v. 2. – I parte / Ministério da Integração Nacional. Secretaria Nacional de Defesa Civil. – Brasília: MI, 452p, 2003.
(3) - Marcelo Pompêo & Viviane Moschini-Carlos, O abastecimento de água e o esgotamento sanitário: propostas para minimizar os problemas no Brasil, In: André Henrique Rosa, Leonardo Fernandes Fraceto, Viviane Moschini - Carlos, Meio Ambiente e Sustentabilidade, Porto Alegre: Bookman Companhia Editora Ltda., 2012.

Marcelo Pompêo é professor do departamento de Ecologia da USP.

A garota, o fascista e a luta pelo futuro

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