sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Não é só juntar latinhas e separar o lixo

fapemat
http://revistafapematciencia.org/noticias/noticia.asp?id=652


Não é só juntar latinhas e separar o lixo
28/01/2015 17:49
Quanto pesa o seu celular? 100, 150 gramas, talvez menos? Mal o sentimos no bolso. E um notebook? Um tablet? Se comprar uma Smart TV, pode instalá-la sozinho, sem grandes problemas. A tecnologia ficou mais leve e compacta.
 
Agora, imagine juntar mais de 1,3 milhão de toneladas desses aparelhos... Quantos celulares serão necessários? Pois é, essa é a quantidade de lixo eletrônico gerado pelo Brasil em 2012, segundo dados da ONU [Organização das Nações Unidas]. Para 2017, as expectativas são ainda mais alarmantes.
 
Anotou? Então pense nos televisores e monitores antigos, aqueles de tubo. Com as telas novas, quantos equipamentos daqueles não vão para o lixo, e quanto isso deve pesar? A resposta: muito. Talvez até demais, e tudo isso causa problemas, seja na natureza ou na cidade.
 
O professor Einstein Lemos de Aguiar, da UFMT, coordenou a criação de uma máquina que facilita a reciclagem desse lixo. Ela processa placas de circuito. A invenção foi só o primeiro projeto do que viria a se tornar o Núcleo de Gestão do Conhecimento Aplicado à Economia Verde.
 
 
Prof. Einstein participou da criação de um equipamento que recicla lixo eletrônico
[Foto: Daniel Morita]
 
Hoje, o Núcleo, que está finalizando sua criação formal, já tem cinco projetos, todos voltados para a reciclagem com geração de renda. Por isso a economia verde. Ela não só gera dinheiro, mas ajuda a se livrar de um problemão, que são os resíduos.
 
A máquina que processa placas de circuito [RPCI] está em vias de ganhar um ‘cérebro’: oSmartRPCI deve ser a nova versão do equipamento que pode reconhecer diferentes componentes das placas e autocalibrar para fazer tudo de forma mais eficaz. As razões para reciclar as placas são simples: o impacto ambiental que elas causam nos lixões e depósitos e os vários metais que foram usados na sua construção, em especial, o ouro.
 
 
Com uma tonelada de placas recicladas, é possível extrair alguns gramas de ouro. Na palma da mão, não parece muito, mas equivale a alguns milhares de reais. Com um custo aproximado de R$ 500 mil para ser construído, o RPCI pode, facilmente, ser colocado em um caminhão e transportado para maratonas de reciclagem por todo o Estado.
 
Pode não parecer diferente de girar tudo isso num liquidificador potente, mas cortar centenas de placas de circuito em milímetros ou mesmo pó exige lâminas especiais. Além disso, as esteiras, peneiras e outras partes da máquina já separam o metal, deixando-o pronto para ter o ouro retirado.
 
Sabe aquelas lâmpadas queimadas, ou quebradas, que dão um trabalhão para jogar fora? Bom, elas não têm ouro, mas podem ajudar a trazer algum conforto extra para sua casa. Dois trabalhos desenvolvidos pelo Núcleo envolvem usar o vidro de lâmpadas fluorescentes e tubos de televisores antigos para produzir uma tinta especial, reflexiva. O vidro triturado e tratado pode ser incorporado à fórmula da tinta, e depois que está na parede, reflete parte dos raios solares. Que tal pintar sua casa com uma tinta que diminui em até 5°C a temperatura da parede? De quebra, você já se livra das lâmpadas queimadas.
 
Outro projeto do Núcleo é usar as partes plásticas dos aparelhos, com a finalidade de gerar energia para pequenas empresas. Uma vez triturado e processado, o produto nomeadoPetroplástico pode virar combustível para pequenas termoelétricas. 
 
Relação com o mercado
Apesar de estar baseado na UFMT, o Núcleo não restringe suas atividades à Universidade. O professor busca parceiros em outras entidades, como o Senai e demais instituições de ensino superior, desde que possuam parques tecnológicos avançados. Outras parcerias essenciais são com empresas privadas. “As públicas são muito complicadas, muito difíceis. Junto com a iniciativa privada, o cara vai e faz. Pronto, está feito, é muito mais rápido”.
 
Segundo Einstein, o termo Economia Verde se refere a uma atividade econômica, e, portanto, deve gerar renda. Focando em uma pesquisa dentro da Universidade que possa gerar, de fato, benefícios sociais, ambientais e econômicos, ele vê a expansão das parcerias para além dos muros como algo positivo e desejável. Um dos parceiros na produção do RPCI, e que hoje guarda o equipamento, é a Recyclart, de Carlos Israilev.
 
 
À esquerda, Carlos Israilev, um dos parceiros no projeto
[Foto: Daniel Morita]
 
Mesmo adotando parcerias externas, Einstein ainda encontra dificuldades de financiamento. “Mato Grosso é um grande produtor agrícola, o celeiro do país. Isso deveria ser uma mina de ouro. Mas mesmo nas pesquisas que podem beneficiar os agricultores, o investimento em inovação é muito pequeno”, conta ele, criticando a falta de investimentos de vários setores da sociedade na inovação tecnológica.
 
Exceto alguns bolsistas, a equipe do Núcleo muda muito de acordo com a fase de desenvolvimento em ação. Seguindo uma lógica mais próxima do mercado, Einstein altera seu pessoal frequentemente, buscando as pessoas mais adequadas para cada situação momentânea. “Um problema comum é a falta de pessoal qualificado. Se não houvesse a carência, o processo de produção seria mais ágil”. Talvez esse possa ser um caminho para a produção e inovação tecnológica, a expansão das parcerias e procedimentos da academia.
 
Imagem de capa: Página da Recyclart no Facebook
Daniel Morita



Cidadão é o maior penalizado por 20 anos de gestão irresponsável da água em SP

correio
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10459:manchete280115&catid=34:manchete

Cidadão é o maior penalizado por 20 anos de gestão irresponsável da água em SP

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ESCRITO POR MARCELO POMPÊO   
TERÇA, 27 DE JANEIRO DE 2015


Desde o final de 2013, a população paulistana tomou ciência da restrição hídrica que se aproximava, decorrente da falta de chuvas e dos baixos níveis de água nos reservatórios empregados no abastecimento público. Já em 2014, assistimos atônitos aos recordes e mais recordes de baixos níveis de água nos reservatórios. Agora, no início de 2015, essa situação segue pior ainda, com perspectivas sombrias para o restante do ano. Mas são inúmeras as cidades do interior de São Paulo atingidas pela falta de água, inclusive em outros estados. No presente, a falta de água não é mais gritante, pois na cidade de São Paulo os cidadãos dão sua cota de colaboração, reduzindo o consumo como podem. Do contrário, o poço já teria secado.

Esta grave crise serviu para mostrar que a lição de casa não foi feita e, seja para o município, para o estado ou mesmo para a União, muita coisa tem que mudar a partir deste triste cenário. Ficou claríssimo para quem quer ver que nossas leis e a gestão das águas não são satisfatórias e a condução política não preserva o cidadão e o meio ambiente, ao menos na oferta do serviço público, como da água tratada de qualidade e na quantidade adequadas.

Nestes últimos 20 anos, o Estado não planejou e se preparou adequadamente e o cidadão será penalizado por não ter água necessária aos seus usos históricos e culturais. É novamente penalizado por ter que pagar a conta, através de multas e/ou elevação de tarifas e, eventualmente, será mais penalizado ainda por ter seu consumo medido pela média de 2014 (medida em estudo pelo governo estadual). Uma média, sem dúvida, fora do padrão histórico de consumo de cada família, já que foi em 2014 que o cidadão ativo reduziu o consumo. E, por fim, o cidadão é o maior penalizado, pois caberá a ele a maior parcela de contribuição, seja financeira ou de restrição hídrica.

Entre outros prejuízos, soma-se a menor quantidade de água para a indústria e agricultura, que sem dúvida impactará o emprego, renda e os preços, principalmente dos produtos originados do setor agrícola. Na questão da gestão das águas, chegamos ao fundo do poço. Se ficou alguma coisa de bom, é que a população sabe fazer a sua parte.

Um país com cerca de 12% da água doce superficial do mundo, apesar de não tão bem distribuída pelo território nacional, não pode desconsiderar planejamento no curto, médio e longo prazos. Ainda mais tendo nosso país sólida tradição de pesquisas nas áreas de hidrologia, hidráulica, recursos hídricos (aspectos qualitativo e quantitativo), ecologia, limnologia, saneamento, legislação ambiental, por exemplo, com excelentes universidades, centros e grupos de pesquisas, além de recurso financeiro suficiente, como uma das maiores economias do mundo.

Portanto, não necessitamos importar especialistas para nos dizer como fazer, mas trocar experiências é sempre importante. Nossos técnicos são bem formados e sabem fazer, quando a eles é passada a tarefa. Daí concluir que o modo de gerir a questão das águas no Brasil não está baseado primeiramente em premissas científicas, na pesquisa estruturada, na consulta ao corpo técnico, ou mesmo em questões de sustentabilidade e meio ambiente, mas, sim, deixa transparecer que são decisões meramente políticas.

Mas não transparecem ser decisões políticas como parte de um claro plano de governo, aberto, transparente, escrito e em diálogo com a sociedade. Neste momento de crise, o que compreendemos das declarações de muitos técnicos do setor, especialistas, gestores e políticos ligados ao tema, divulgadas pelos diversos meios de comunicações, deixa claro que são sempre decisões tomadas de última hora, pontuais e emergenciais, torcendo para Deus ser brasileiro, esperando por São Pedro fazer o seu serviço ou culpando a natureza, mesmo quando “trabalhamos sem parar” (1). São apresentadas soluções imediatistas tal como puxadinhos, remendos, colcha de retalhos ou tapa buracos, como a retirada de um primeiro volume morto, depois de um segundo, seguindo para um terceiro e derradeiro volume morto (se necessário), seja de um reservatório e depois de outro e mais outro, torcendo pelas chuvas, que chegaram, mas de pequena intensidade.

Se não der certo, e não chover, o reservatório da vez será a Billings. Há também de se manter o rio Pinheiros com águas altas e as comportas fechadas, no Cebolão, junto ao rio Tietê, para reverter suas águas ao reservatório Billings, mas também para gerar hidroeletricidade em Henry Boarden, na Baixada Santista, quem sabe contribuindo para evitar outro apaguinho/blecaute. De outro rio retira-se mais 0,5 m3/s. Outra ideia é interligar os mananciais, para retirar água de dado reservatório na medida da necessidade, enquanto se reduz em outro. E como recentemente declarou o secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, o Prof. Dr. Benedito Braga, em seis meses não é possível fazer obras da envergadura adequada ao problema.

Durante 2014, nosso governador, pessoalmente, sempre reforçou que não teríamos problemas, pois as chuvas logo estariam aí e tudo se resolveria. As chuvas ainda não chegaram, ao menos onde deveriam. Há planos de retirar águas do rio Ribeira de Iguape e autorização para captar água do Paraíba do Sul. Outra opção, na gestão da crise do abastecimento público, é reduzir a pressão na rede de abastecimento, ou mesmo cortar de vez o abastecimento, com rodízio entre setores da cidade, que podem ter água em certos dias e horários da semana, como forma de reduzir o volume de água ofertada e refletir na redução do consumo.

Correm no meio da cidade importantes rios como o Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, por exemplo, esgotos a céu aberto, não sendo possível empregar suas águas nem mesmo para a rega de parques e jardins, quanto mais para o consumo humano. Não há efetiva e substancial captação de água de chuva para emprego no abastecimento púbico. Há praticamente 30% de fuga da água limpa que percorre as tubulações até chegar em nossas casas. Isso sem falar da descaracterização total do ecossistema reservatório, com as comunidades biológicas constituintes mortas ou substituídas, decorrente da quase seca total do reservatório, como se de fato o reservatório fosse unicamente uma caixa de água, não mais um estabelecido ecossistema, com estrutura, função e dinâmica próprias, e prestando inúmeros e importantes serviços ecossistêmicos.

E nem mesmo há reconhecimento oficial formal de que estamos em período de forte restrição hídrica e de racionamento. Isso tudo é a política de Estado para a gestão dos recursos hídricos para abastecimento público em São Paulo? Esse é o plano de governo para a gestão das águas no estado? Vale lembrar que somente a Região Metropolitana de São Paulo é composta de quase 20 milhões de habitantes e qualquer coisa para atender a demanda desse universo de pessoas não pode ser realizada sem planejamento adequado.

Segundo Brasil (2003) (2), os sistemas de abastecimento de água devem ser dimensionados para atender às necessidades de água da região beneficiada. Ainda, segundo esse mesmo documento, é importante que as projeções das necessidades e as disponibilidades dos recursos hídricos, em função do aquecimento da economia e do crescimento demográfico, sejam calculadas com antecipação.

Os sistemas devem ser planejados, arquitetados e construídos, para funcionarem durante muito tempo sem riscos de deterioração. Apesar disso, as atividades de monitoramento do sistema, buscando detectar, no mais curto espaço de tempo, possíveis problemas ou defeitos, são de importância capital, para garantir a retroalimentação sistêmica, relacionada com as atividades de manutenção. Estas são as premissas do plano de governo que vivenciamos em São Paulo?

Sendo urgente despender esforços para equacionar questões relativas à manutenção da qualidade e quantidade da água nos mananciais e visando minimizar os problemas relacionados ao abastecimento público e esgotamento sanitário nos grandes centros urbanos e garantir mananciais mais saudáveis para gerações futuras, são propostas (3):

a)  nenhuma entidade federal, estadual, municipal ou privada poderá captar qualquer quantidade de água bruta sem a aprovação prévia dos órgãos competentes;

b)  toda entidade federal, estadual, municipal ou privada terá o prazo máximo de cinco anos para regularizar e cadastrar seu sistema de captação de água bruta em operação, atendendo normas estabelecidas pelas diferentes esferas de governo; no caso de descumprimento, ficará definida multa diária;

c)   definir em lei a quantidade máxima de água bruta que poderá ser captada, com base na quantidade – vazão e carga retiradas, levando em consideração a vazão e carga do manancial (rio) e a recarga de lagos e reservatórios, discriminando responsabilidades e sanções quando do seu descumprimento;

d)  o não cumprimento das normativas apresentadas nos itens anteriores implicará em não ter analisadas novas solicitações de captação, até a regularização da atual situação; 
e)   a obrigatoriedade definida em lei que, para cada metro cúbico de água potável ofertada à população, seja definido em projeto a respectiva coleta e tratamento da água servida. A oferta de água potável e coleta e tratamento do esgoto gerado devem ser entendidos como um sistema único, integrados e indissociáveis, implicando que sejam considerados conjuntamente no planejamento, implantação e solicitação de recursos, com pena de não ter aprovada a proposta de captação de água bruta;

f)    definir em lei o limite máximo de 10% para a fuga de água, implicando em multas e sanções quando do seu não cumprimento; para tanto será obrigatória a implantação de sólido programa de monitoramento de perdas e controle da água ofertada;

g)  a obrigatoriedade definida em lei para que, no prazo máximo de dez anos, todo esgoto gerado seja efetivamente coletado e tratado (descarte zero), definindo severas sanções às diferentes esferas de governo e seus dirigentes quando da não observância da lei;

h)  empreendimentos já instalados têm o prazo de dez anos para se integrarem à rede coletora de esgotos; após esse prazo, serão integrados compulsoriamente, arcando com os custos de instalação, somados às despesas de multas e custos processuais;

i)    definir em lei que novos empreendimentos somente serão aprovados para uso após serem definitivamente integrados à rede coletora de esgoto;

j)    definir em lei prazos para a instalação de sistemas de tratamento e descarte de lodo, proveniente das estações de tratamento de água para o abastecimento público (ETAs) e das estações de tratamento de esgotos (ETEs), com definições de responsabilidades, sanções e multas quando do seu não cumprimento;

k)  definir em lei que novos empreendimentos (condomínios, museus, clubes, estádios, escolas, shopping centers, parques temáticos, indústrias, hospitais, hotéis, motéis, restaurantes, casas de espetáculos e de exposições e outros estabelecimentos comerciais e empreendimentos de grande porte público e privado, com base na área física instalada e no número de pessoas atendidas) implantem sistema de reuso de água, com prazos de instalação e projetos aprovados por órgãos competentes;

l)    definir que estes mesmos empreendimentos também implantem sistema de captação de água de chuva, com prazos de instalação e projetos aprovados por órgãos competentes;

m)             definir em lei o prazo de dez anos para que empreendimentos já instalados (ver item k) implantem sistema de captação de água de chuva, com prazos de instalação e projetos aprovados por órgãos competentes;

n)  cobrar de modo diferenciado e escalonado, segundo o consumo de água: quanto mais consome, mais paga, garantindo uma tarifa social mínima de ao menos 110 litros/habitante/dia;

o)  instalar medidores de consumo de água individuais – uma casa, um medidor de consumo;

p) empreender esforços visando ampliar o controle e a vigilância da qualidade da água pelos órgãos responsáveis pelo abastecimento e por órgãos de saúde pública, da água bruta à torneira para o consumidor final;

q)  empreender esforços em todos os níveis, com campanhas educacionais sobre a importância da água, seu uso racional, a preservação de sua qualidade e quantidade;

r)   empreender esforços em campanhas educacionais relacionadas à saúde pública, reforçando a importância de hábitos simples, como lavar as mãos com sabão após usar o banheiro e antes das refeições;

s)   estabelecer que estado e prefeitura obrigatoriamente implantem secretaria de meio ambiente e de saneamento;

t)    definir que toda a secretaria de estado (federal, estaduais e municipais), de meio ambiente e de saneamento, deva manter site atualizado, com as ações empreendidas e metas para o sistema de abastecimento de água e esgotamento sanitário.

A intervenção divina não nos trará a água desejada e necessária. Caberá ao homem planejar e vislumbrar cenários futuros, corrigindo distorções no curso dos acontecimentos.
Notas:
(1) - Declaração do Governador Geraldo Alkmin, Folha de São Paulo, de 25 de Janeiro de 2015. Caderno Cotidiano.
(2) -  BRASIL, Ministério da Integração Nacional. (MI). Secretaria Nacional de Defesa Civil. (SEDEC), Manual de desastres humanos: desastres humanos de natureza tecnológica – v. 2. – I parte / Ministério da Integração Nacional. Secretaria Nacional de Defesa Civil. – Brasília: MI, 452p, 2003.
(3) - Marcelo Pompêo & Viviane Moschini-Carlos, O abastecimento de água e o esgotamento sanitário: propostas para minimizar os problemas no Brasil, In: André Henrique Rosa, Leonardo Fernandes Fraceto, Viviane Moschini - Carlos, Meio Ambiente e Sustentabilidade, Porto Alegre: Bookman Companhia Editora Ltda., 2012.

Marcelo Pompêo é professor do departamento de Ecologia da USP.

O que Dilma não disse, mas poderia falar sobre a crise hídrica

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http://www.ihu.unisinos.br/noticias/539342-o-que-dilma-nao-disse-mas-poderia-falar-sobre-a-crise-hidrica


O que Dilma não disse, mas poderia falar sobre a crise hídrica

"Neste momento em que a crise hídrica impacta uma população estimada de 46 milhões de brasileiros, qualquer manifestação propositiva da maior autoridade da República seria muito bem-vinda", escreve André Trigueiro, jornalista, em artigo publicado no Portal G1, 26-01-2015.
Eis o texto.
"Minhas amigas e meus amigos,
Como se sabe, o Brasil vem enfrentando uma das piores estiagens de sua história, especialmente na região Sudeste, a mais rica e populosa do país.
Acompanhamos de perto a evolução dos acontecimentos nos estados e municípios castigados pela seca, sempre respeitando a autonomia federativa que confere a governadores e prefeitos, dependendo da localidade, a gestão dos recursos hídricos.
De nossa parte, monitoramos a situação dos rios federais que atravessam mais de um estado, como é o caso do Paraíba do Sul, que corta os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Apesar de o país dispor de uma Lei Nacional de Recursos Hídricos, da Agência Nacional de Águas, dos Comitês de Bacias Hidrográficas e de outros instrumentos de gestão e governança, este governo entende que é preciso fazer mais. Nesse sentido, a atual crise hídrica representa uma excelente oportunidade para avançarmos ainda mais na direção de um modelo mais inteligente e eficiente de gerenciamento de recursos hídricos.
Decidimos, portanto, tomar as seguintes providências:
- Estou instituindo um Conselho de Notáveis com os mais prestigiados hidrologistas, cientistas e representantes das mais importantes instituições de pesquisa e universidades brasileiras (com pessoas de todos os estados) para que possam instruir o governo sobre como tornar o Brasil não apenas o país com o maior volume de água doce superficial de rio do mundo, mas também o mais eficiente no uso dessa água. Nosso compromisso é o de ampliar este debate com consultas públicas e trabalhar pela implementação das medidas sugeridas ainda este ano.
- Instruí o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, a convocar representantes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Agência Nacional de Águas (ANA) para que reapresentem as críticas formuladas por essas instituições contra o novo Código Florestal, no que se refere aos riscos que ele representaria às bacias hidrográficas. Em se confirmando que as alterações aprovadas pelo Congresso no texto original dessa lei carecem de estudos devidamente embasados sobre o seu impacto na resiliência dessas bacias, meu compromisso é o de mobilizar todos os esforços possíveis no sentido de reabrir o debate e, se for o caso, defender uma nova mudança na legislação.
- Ordenei ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que apresente no prazo de uma semana propostas de novos estímulos fiscais a produtos e serviços que promovam a drástica redução do consumo de água e energia nos mais diversos setores da economia. É preciso elevar os parâmetros já existentes e apoiar quem já investe em inovação.
- Determinei à ministra da Agricultura Kátia Abreu que realize um amplo levantamento das técnicas mais eficientes no uso de água pelo setor agrícola. Aproximadamente 70% das águas doces em nosso país são usadas nas lavouras, nem sempre com o devido cuidado ou orientação. O Brasil não pode continuar promovendo o uso perdulário de água nas irrigações com a utilização de pivô central, aspersores ou culturas de inundação, para citar apenas alguns exemplos de técnicas que já estão sendo abandonadas em muitos países. Há muito o que se avançar neste setor e pretendo ainda neste governo condicionar a concessão de crédito agrícola à eficiência no consumo de água no campo.
- Encomendei ao ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Armando Monteiro, um estudo identificando quais os empreendimentos que mais consomem energia elétrica hoje no país. Nossa intenção é condicionar a liberação de recursos públicos, via Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ou outros órgãos de fomento públicos, à apresentação de planos que confirmem a disposição desses setores em serem exemplos de eficiência e inovação.
- Declaro que este governo apoiará ostensivamente a ampla disseminação da água de reúso em todo o território nacional. Instruí o diretor-presidente da ANA, Vicente Andreu, a realizar os esforços necessários para a tão esperada regulamentação técnica da água de reúso, definindo seus parâmetros e características para que não haja mais nenhuma hesitação do mercado em investir nessa direção. Queremos apoiar todas as atividades que utilizem água de reúso em suas rotinas.
- É nosso desejo que todas as companhias públicas ou privadas de água e esgoto no país sejam mais eficientes. Não é possível que registremos em média 37% de perdas de água potável nas redes, desperdiçando preciosos recursos públicos. Para estimular a maior eficiência do setor, pretendemos condicionar a liberação de recursos federais à redução dessas perdas no sistema. Acertaremos caso a caso quais são as metas possíveis e aplicaremos as novas regras de financiamento.
- Este governo deverá encaminhar ao Congresso, logo após a votação para a Presidência da Câmara e do Senado, um projeto de lei determinando a criação de linhas especiais de crédito para todas as construções que sejam comprovadamente eficientes no consumo de água e energia elétrica, e que possuam certificações reconhecidas internacionalmente.
Encerro meu pronunciamento reconhecendo que esta terrível estiagem nos estimula a sermos ainda mais propositivos naConferência do Clima, que terá lugar em dezembro em Paris. Infelizmente, ao que tudo indica, eventos extremos como esse poderão ser tornar cada vez mais frequentes em função das mudanças climáticas. Mas é meu dever, enquanto Chefe de Estado da maior potência "mega biodiversa" do planeta, preparar o país para qualquer um dos cenários previstos pelos cientistas. Sinto-me pronta para esta missão.
Convoco todos os brasileiros a unirem forças em favor das nossas águas – o bem mais precioso e indispensável à vida, sem o qual nenhuma atividade humana é possível – que a natureza generosamente nos proporcionou e que mantêm o Brasil em condição ainda invejável perante o mundo neste século XXI.
Boa noite."
OBS: A Presidente Dilma não escreveu esse discurso. Mas neste momento em que a crise hídrica impacta uma população estimada de 46 milhões de brasileiros, qualquer manifestação propositiva da maior autoridade da República seria muito bem-vinda.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

'A internet desaparecerá', diz diretor-executivo do Google em Davos

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http://www.ihu.unisinos.br/noticias/539290-a-internet-desaparecera-diz-diretor-executivo-do-google-em-davos


'A internet desaparecerá', diz diretor-executivo do Google em Davos

Em meio a tantas novidades tecnológicas e um crescimento constante no setor, o diretor-executivo do Google, Eric Schmidt, se arriscou em apontar um provável futuro para a internet: "Ela desparecerá", afirmou Schmidt no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suiça), nesta quinta-feira (22) .
A reportagem foi publicada pelo Portal Uol, 24-01-2015.
Mas a previsão do representante do buscador não é um alarme. Ele acredita que no futuro a internet estará tão integrada ao dia a dia da população que não fará sentido pensar em uma vida desconectada, ou seja, teremos um novo conceito de internet e de como ele será empregada na rotina.
"Existirá tantos endereços de IPs [espécie de endereço do computador], dispositivos, sensores, coisas que você estará vestindo e interagindo, que não perceberá", disse Schmidt.
A declaração do diretor-executivo foi feita durante o painel "O futuro da economia digital". Também participaram da discussãoSheryl Sandberg, do FacebookJim Hagemann Snabe, da Sap, e Satya Nadella, da Microsolft.
Schmidt ainda disse que viveremos em um mundo muito mais interativo, interessante, no qual poderemos personalizá-lo. "Você entrará em uma sala e com sua permissão interagirá com tudo o que acontece com ela. Fará parte de nós".

E se a água deixar de ser mercadoria?

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http://outraspalavras.net/brasil/se-a-agua-deixar-de-ser-mercadoria/


E se a água deixar de ser mercadoria?

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150125-Água
Como Paris, Berlim, e dezenas de cidades estão remunicipalizando o abastecimento. Por que as metrópoles brasileiras, em crise devido à privatização, deveriam fazer o mesmo
Por Myriam Bahia Lopes
Em um momento no qual a vida na maior capital brasileira encontra-se ameaçada em razão da falta d´água, seria oportuno entender prática adotada em 86 cidades no mundo. Elas abandonaram o modelo de empresa privada de abastecimento de água, no qual a meta é o lucro e seu cálculo depende da cotação de ações na bolsa de valores. Tomara a decisão depois de avaliarem os limites desse modelo e os prejuízos ecológicos e sociais e econômicos dele decorrentes. Em dezembro de 2013, consolidou-se um grande agrupamento europeu de cidadania pelo direito humano de acesso à água e pela interrupção e reversão da privatização desse bem. Nessa direção observamos um movimento de remunicipalização e de retomada e criação de parcerias público-público para o abastecimento d´água nas cidades.
Breve história
Os sistemas de distribuição de água e de esgotamento foram aperfeiçoados, ao longo do século XIX, como uma resposta à eclosão de epidemias nas cidades industriais. Essas cidades, que haviam se adensado rapidamente, em apenas algumas décadas, concentraram milhares de habitantes em precárias condições de moradia e de trabalho. Nesse quadro, os sanitaristas e reformadores sociais dos oitocentos preconizaram que, sem um meio saudável, com circulação de água, luz e ar e uma alimentação regrada, a vida e a moral dos habitantes da cidade se esvairia. E mostraram como as epidemias não se detinham nas fronteiras dos bairros pobres: percorriam cidades, viajavam por oceanos e se distribuíam entre países. Para eles, seria impossível formar o cidadão sem um meio saudável, pois era o meio que constituía o indivíduo. O bom governo seria aquele que conseguisse reduzir a mortalidade e aumentar a população. A biopolítica impulsionou as reformas urbanas ocorridas nas principais capitais europeias e também no continente sul-americano, como as reformas ocorridas no Rio de Janeiro e em Buenos Aires, no início do século XX.
TEXTO-MEIO
Se cada cultura cria uma forma específica e diferenciada de lidar com as excreções do corpo, de fixar o que é sujo e o que é limpo, o reconhecimento de que a água é fonte da vida é um consenso universal. O direito ao acesso à água é um direito fundamental.
A partir da década de 1960, o continente sul-americano foi tomado pela intervenção de governos militares. Com o aporte e a ingerência do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, um amplo processo de privatização de serviços de abastecimento de água teve lugar no continente. O Chile tornou-se o exemplo mundial máximo, visto que a totalidade dos recursos hídricos desse país foi privatizada durante o governo do General Pinochet. A partir de 1990 e em resposta às pressões do capital financeiro, houve novo impulso e privatização desses serviços em outros países. Em 2000, a Comissão Mundial de Barragens avaliou que a sua construção desalojou entre quarenta e oitenta milhões de pessoas no planeta.
Os Movimentos sociais e a água
A apropriação privada da água e da terra e a cartelização mundial do hidronegócio vêm sendo denunciadas em diversas frentes. Como a água é indispensável à vida e possui um ciclo que deve ser protegido, encontramos uma variedade de grupos que direta ou indiretamente se engaja em sua defesa. No plano internacional, para citar apenas três exemplos, há profissionais que se associam à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como consultores para investimentos em agricultura responsável, a organização internacional Fórum Mundial de Pescadores e Trabalhadores da Pesca (FMPTP), grupos que se batem contra o fracking – a forma mais predatória de extração de petróleo.
No Brasil, indicamos os grupos que lutam em defesa da demarcação das terras indígenas, grupos que se engajam na promoção da agricultura familiar e orgânica, da reforma agrária, cujo maior exemplo é o Movimento dos Sem Terra (MST), aqueles que lutam em defesa dos atingidos por grandes barragens (MAB), como Belo Monte e grupos que lutam em defesa dos atingidos por minerodutos, como o da Anglo-American, recém-inaugurado em dezembro de 2014.
Em campos opostos, enfrentam-se de um lado, grupos que exploram o recurso hídrico e promovem a perpetuação da temporalidade cíclica da água e de outro, multinacionais e empresas produtoras de commodities, que operam na temporalidade linear da técnica, realizam gigantescas e irreversíveis intervenções no território, tais como a construção de grandes usinas hidrelétricas, as explorações minerárias, os minerodutos. Além da resistência local, esses conflitos produzem uma batalha judicial no Brasil e na esfera internacional que coloca o país, em alguns casos, na posição de ser conivente com o desrespeito de direitos humanos fundamentais, a despeito do país ser signatário dos tratados internacionais.
Remunicipalizar?
Transferir os serviços de água das companhias privadas – que também podem possuir capital misto – para as autoridades municipais. A favor dessa reversão encontramos o exemplo de várias capitais, entre as quais, Paris, Berlim, Buenos Aires e de países como Malásia e Tanzânia. Essa transformação ou reversão foi possível a partir da tomada de consciência, por parte dos habitantes,das nefastas consequências do processo que transforma a água de recurso natural em commodity.
Nos últimos quinze anos, pelo menos 86 cidades no mundo remunicipalizaram os serviços de água. Paris, capital e sede de duas poderosas empresas do hidronegócio, a Veolia e a Suez, remunipalizou em 2010; Berlim, em 2013. A PUPS, ou seja, parceria público-público, público-comunidade e comunidade-comunidade é forma de parceria que envolve o planejamento e a participação coletiva do uso dos recursos hídricos e que rejeita a concepção, segundo a qual, o alvo do empreendimento é o lucro.
Segurança Hídrica
O que fazer quando São Paulo, a maior capital brasileira e várias outras cidades não tiverem mais água para distribuir entre os seus habitantes? O modelo adotado pela Sabesp, cujo lucro reverbera a imprevisível bolsa de valores de Nova York, atende a quem? Ao habitante comum, visto a qualidade e a escassez da água fornecida pela empresa, não tem sido. É admissível que o provedor de água crie uma pirâmide de usuários na qual destaca as maiores empresas consumidoras para hierarquizar e comercializar privilégios em relação ao acesso à água? E que guarde a sete chaves esses dados, à revelia da lei da transparência? Na hipótese de haver vultosos investimentos federais para se tentar evitar o pior, esses recursos atingirão positivamente os serviços dispensados ao pequeno usuário? Em um momento de ameaça à vida de seus habitantes, por todos os riscos que a ausência ou escassez de água de boa qualidade para o consumo humano provoca, devemos insistir na defesa cega desse modelo de negócio privado que por sua essência visa o lucro?
Ou devemos olhar com muito cuidado e aprender com o processo de remunicipalização da água em curso em outras capitais? Com segurança hídrica não se brinca pois a vida de todos não pode ser um jogo e alvo de especulação.
Referências Bibliográficas:
* Martin Pigeon, David A McDonald, Oliver Hoedeman, Satoko Kishimoto Remunicipalization Putting Water Back into Public Hands.
Transnational Institute, Amsterdam, March 2012
* Karen Piper The price of thirst University of Minesota Press, 2014
* http://outraspalavras.net/brasil/agua-as-mineradoras-tem-muita-sede/
* http://apublica.org/2015/01/sabesp-se-nega-a-publicar-contratos-de-empresas-que-mais-consomem-agua/

David Harvey: A crise da urbanização planetária

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http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=96509


David Harvey: A crise da urbanização planetária

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Que significa a resistência dos que lutam pela Tarifa Zero, num mundo em que metrópoles parecem cada vez mais marcadas por desigualdade, violência e controle social
Por David Harvey, no blog da Boitempo
Com uma nova temporada de manifestações inaugurada em 2015, o Blog da Boitempo publica este ensaio de David Harvey, escrito originalmente para o catálogo da exibiçãoUneven Growth: Tactical Urbanisms for Expanding Megacities, em 18 de novembro de 2014, logo após sua visita ao Brasil para o ciclo de conferências “A economia política da urbanização“, em que lançou o volume final de seu guia de leitura sobre O capital de Marx, em Brasília, Recife, Fortaleza, Curitiba e São Paulo. Partindo de uma reflexão sobre as Jornadas de  Junho 2013 e seu lugar no contexto das explosões de rua que vêm pipocando ao redor do mundo, Harvey diagnostica o que chama de uma “crise da urbanização planetária” que estaríamos atravessando às cegas e oferece um panorama dos desafios e perspectivas que vêm sendo construídas pelos diversos atores e movimentos sociais emergentes. A tradução é de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.
* * *
Na noite de 20 de junho de 2013, mais de um milhão de pessoas em cerca de 388 cidades brasileiras tomaram as ruas em um enorme movimento de protesto. O maior desses protestos, reunindo mais de 100,000 pessoas, ocorreu no Rio de Janeiro e sofreu considerável violência policial. Por mais de um ano antes disso, manifestações esporádicas vinham acontecendo em diversas cidades brasileiras. Capitaneadas pelo MPL que há muito vinha se mobilizando entre estudantes pelo transporte gratuito, os protestos anteriores foram em larga medida ignorados.
Mas no começo de junho de 2013, o aumento da tarifa sobre o transporte público desencadeou manifestações mais amplas. Muitos outros grupos, incluído black blocs anarquistas, saíram em defesa dos manifestantes do MPL e outros que estavam sofrendo repressão policial. No dia 13 de junho, o movimento já havia se transformado em um protesto generalizado contra a repressão policial, o fracasso dos serviços públicos perante as necessidades sociais, e a qualidade deteriorante da vida urbana. Os enormes gastos de recursos públicos para sediar megaeventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas – em detrimento do interesse público mas muito favoráveis, como amplamente se reconheceu, aos interesses de empreiteiras e incorporadoras corruptas – só aumentaram o descontentamento.
Manifestação_São Paulo_MPL
Os protestos no Brasil vieram menos de um mês depois de milhares de pessoas terem ido às ruas das principais cidades da Turquia. O que aparentemente começara como uma revolta com o projeto de reurbanização que transformaria em shopping center o precioso espaço verde do Parque Taskim Gezi, em Istambul, se alastrou em um protesto mais amplo contra a forma cada vez mais autocrática de governo e a violência da resposta policial. Um descontentamento generalizado sobre o ritmo e o estilo das transformações urbanas (incluindo aí enormes despejos de populações inteiras de terrenos valorizados no centro da cidade) também há muito vinha borbulhando e só jogou mais lenha na fogueira. A má qualidade de vida, para todos menos as classes mais abastadas, em Istambul e em outras cidades turcas era claramente uma questão importante.
O amplo paralelo entre o Brasil e a Turquia levou o articulista Bill Keller a escrever uma coluna de opinião no New York Times intitulada “The Revolt of the Rising Class” [A revolta da classe ascendente]. Os levantes não “nasceram do desespero”, ele escreveu. Tanto o Brasil quanto a Turquia haviam passado por um crescimento econômico notável em um período de crise global generalizada. Tratavam-se dos “mais recentes em uma série de revoltas brotando da classe média – as classes urbanas, educadas e não necessitadas, que são de certa forma as principais beneficiárias dos regimes que agora se põem a rejeitar” e que tinham algo a perder ao tomar as ruas em protesto. “Quando os movimentos atingiram uma massa crítica, eles já reivindicavam algo maior e mais incoeso como dignidade, os pré-requisitos da cidadania, as obrigações do poder.” As revoltas significavam “uma nova alienação, um novo anseio” que tinha de ser encarado.
A bem da verdade, as manifestações no Brasil e na Turquia diferiram dos protestos anti-austeridade e das greves que dominavam nas praças gregas e espanholas. Também diferiram das erupções de violência em Londres, Estocolmo, e nos subúrbios parisienses por parte das populações marginalizadas e imigrantes. E todos esses se mostraram diferentes dos movimentos “Occupy” em muitas cidades ocidentais e dos levantes pró-democracia que ecoaram de Túnis, Egito e Syria passando pela Bósnia e a Ucrânia.
Entretanto, há também pontos comuns que atravessam essas diferenças. Todas foram, por exemplo, centradas no espaço urbano, até certo ponto levemente supraclassistas, e ainda (ao menos inicialmente) inter-étnicas (embora isso tenha se desfeito na medida em que forças internas se deslocavam para dividir e controlar, e poderes externos exploravam os descontentamentos por vantagens geopolíticas, como na Síria e na Ucrânia). Desafeição e alienação urbana foram bastante proeminentes dentre os desencadeadores, bem como a indignação universal com a crescente desigualdade social, com a elevação nos custos de vida, e com repressões policiais gratuitamente violentas.
Nada disso deveria surpreender. A urbanização tem cada vez mais constituído um sítio primário de infindável acumulação de capital que administra suas próprias formas de barbárie e violência sobre populações inteiras em nome do lucro. A urbanização se tornou o centro de atividades econômicas avassaladores em escala planetária nunca antes vistas na história da humanidade. O Financial Times informa, por exemplo, que o “investimento imobiliário é o mais importante motor na economia chinesa”, que por sua vez tem sido o principal motor da economia global ao longo da crise mundial que começou em 2007. “A construção, venda e mobília de apartamentos representou 23% do PIB chinês em 2013.”1 Se somarmos os gastos com infraestruturas físicas de grande porte (estradas, ferrovias e obras públicas de todo tipo) então quase metade da economia chinesa está voltada para urbanização. A China consumiu mais de metade do aço e do cimento globais ao longo da última década. “Em apenas dois anos, de 2011 a 2012, a China produziu mais cimento que os Estados Unidos em todo o século XX”.2
Embora extremas, essas tendências não se encerram no território chinês. Concreto vem sendo despejado por toda parte em um ritmo sem precedentes sobre a superfície terrestre. Estamos, em suma, em meio a uma enorme crise – ecológica, social e política – de urbanização planetária sem, ao que parece, nos dar conta ou mesmo marcando-a.
Nada desse novo desenvolvimento poderia ter ocorrido sem despejos e despossessões massivas, onda após onda de destruição criativa que tem cobrado não só um preço físico mas também destruído solidariedades sociais, varrido qualquer pretensões de governança urbana democrática, e tem cada vez mais recorrido ao terror e à vigilância policial militarizada  como seu modo primário de regulação social. A inquietação ligada à despossessão na China é difícil de medir, mas é certamente muito difundida. O sociólogo Cihan Tugal escreveu: “Bolhas imobiliárias, preços altíssimos de habitação, e a privatização-alienação generalizada de bens urbanos comuns constituem o chão comum de protestos em lugares tão diversos como Estados Unidos, Egito, Espanha, Turquia, Brasil, Israel e Grécia”.3 O crescente custo de vida – particularmente de alimentação, transporte e habitação – tem tornado a vida cotidiana cada vez mais difícil para populações urbanas. Revoltas em torno de alimentação em cidades do norte da África eram frequentes e difundidas mesmo antes dos levantes na Tunísia e na Praça Tahrir.
TEXTO-MEIO
Esse boom de urbanização não tem tido muito a ver com atender às necessidades da população. Trata-se de uma estratégia para absorver capital excedente, sustentar taxas de lucro, e maximizar o retorno sobre valores de troca independentemente de quais forem as demandas por valores de uso. As consequências tem frequentemente se mostrado extremamente irracionais. Enquanto há uma escassez crônica de moradias financeiramente acessíveis em quase toda grande cidade, suas skylines são emporcalhadas com condomínios vazios para os ultra-ricos, cujos principais interesses são especular valores imobiliários ao invés de promover o bem-estar.
FOTO: Mídia Ninja
Em Nova York, onde metade da população tem de viver com menos de $30,000 dólares ao ano (em contraste com o 1%, que tinha uma renda anual média de $3.57 milhões de acordo com os relatórios tributários referentes a 2012), há uma crise de moradias financeiramente acessíveis porque em lugar algum é possível encontrar um apartamento de dois cômodos pelos $1,500 dólares ao mês que uma família de quatro deveria dedicar a habitação (dada a renda de $30,000). Em quase todas as principais cidades dos EUA, a porcentagem das despesas em habitação são muito superiores aos 30% da renda considerados razoáveis.4
O mesmo vale para Londres, onde há ruas inteiras de mansões desocupadas, mantidas por motivos puramente especulativos. Enquanto isso, o governo britânico busca aumentar a oferta de moradias acessíveis implementando uma taxa de sub-ocupação – que ficou conhecida como a bedroom tax –  sobre habitação social para o setor mais vulnerável da população, causando, por exemplo, o despejo de uma viúva morando sozinha em uma Council House de dois quartos. A taxa de sub-ocupação foi claramente implementada na classe errada, mas os governos esses dias parecem singularmente dedicados a bajular os mais abastados às custas dos pobres e desavantajados. A mesma irracionalidade de cômodos vazios em meio a carência de moradias a preços acessíveis pode ser encontrada no Brasil, na Turquia, em Dubai e no Chile, bem como em todas as cidades globais de altas finanças como Londres e Nova York. Enquanto isso, austeridades orçamentárias e relutância em taxar os mais ricos dado o poder esmagador de uma agora triunfante oligarquia significa um declínio de serviços públicos para as massas e ainda mais acumulação de riqueza para poucos.
É em condições desse tipo que a propensão a revolta política começa a inchar. Alienação universal de uma vida diária tolhante na cidade se evidencia por toda parte. Mas igualmente salientam-se as inúmeras tentativas por parte de indivíduos, grupos sociais, e movimentos políticos de encontrar formas de construir uma vida decente em um ambiente decente de vida. O tema de que deve haver alguma alternativa assume diversas formas e produz muitas quasi-soluções em aparentemente infinitas guisas.
É neste contexto que grupos de pensadores e ativistas estão explorando alternativas, por vezes em escalas pequenas mas em outras instâncias, no despertar de revoltas urbanas, para estimular a busca por melhores formas de vida urbana.5 O ethos faça-você-mesmo de muitos grupos sociais marginalizados da dinâmica prevalecente de acumulação de capital cria possibilidades de alianças entre pensadores e técnicos urbanos com movimentos sociais nascentes buscando uma vida boa ou, ao menos, melhor. Em nações andinas, o ideal do buen vivir está inscrito em constituições nacionais mesmo que na prática acabe entrando em conflito com políticas neoliberalizantes.6
Há possibilidades e potencialidade populares emergindo da crise da urbanização planetária e seus múltiplos mal-estares. Isso ocorre mesmo em face da aparentemente implacável força da acumulação infindável de capital, crescendo a uma taxa exponencial insustentável e apesar do poder que atravessa classes sociais sendo manejado por uma oligarquia global cada vez mais escancarada e intransigente.7
Uma escavadeira, posteriormente apelidada de de POMA, tomada por manifestantes e usada contra os veículos TOMA, carros-forte da polícia turca, em Istambul.
Então o que é que pode emergir das revoltas populares? Há signos e sinais confusos mas também algumas pistas importantes. No Parque Taskim Gezi, por exemplo, não era apenas o parque que importava. A “classe ascendente” construiu solidariedades sociais instantâneas, uma economia de compartilhamento e provisão social coletiva (alimentação, saúde, vestimentas), de zelar pelos outros (particularmente os feridos e amedrontados). Os participantes mostraram evidente prazer e disposição em debater interesses comuns através de assembleias democráticas, com discussões acaloradas que se estendiam noite adentro, e sobretudo encontraram um mundo possível de humor coletivo e liberação cultural que anteriormente parecia interditado. Eles abriram espaços alternativos, construíram um commons a partir de espaços públicos, e liberaram o poder do espaço a um propósito social e ambiental alternativo. Eles encontraram uns aos outros bem como o parque;8 eles identificaram uma ordem social nascente à espera.
Essas indicações nos permitem vislumbrar uma futura alternativa. O espírito de muitos (embora não todos) desses protestos e o espírito no interior dos movimentos pró-democracia e “Occupy” é de ir além da “nova alienação” que Keller percebe como sendo tão importante para construir uma experiência urbana menos alienante. Resistência visceral à proposta de despejar concreto sobre o Parque Taskim Gezi para construir uma imitação de um quartel otomano que funcionaria como mais um shopping center é nesse sentido emblemático do que é a crise da urbanização planetária. Despejar mais e mais concreto em uma busca sem sentido por crescimento infindável obviamente não é resposta alguma para nossos atuais males.
Aula pública convocada pelo MPL-São Paulo, com o economista Lucio Gregori, autor do projeto para o Passe Livre. Vale do Anhangabaú, 5 de janeiro de 2015.
Mas a “classe ascendente” também não representa a totalidade da população. Na Turquia, a massa das classes trabalhadoras islâmicas não se juntaram à revolta. Eles já possuíam suas próprias solidariedades culturais (frequentemente anti-modernistas) e relações sociais endurecidas (particularmente no que diz respeito à questão de gênero). Eles não se atraíram pela retórica emancipatória do movimento de protesto porque aquele movimento não abordou efetivamente sua condição de imensa privação material. Eles gostaram da combinação de shopping centers e mesquitas que o partido dominante, o AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento), estava construindo e não se importavam com a evidente corrupção em torno da explosão na construção civil contanto que representasse uma fonte de emprego. O movimento de protesto do Parque Taksim Gezi não era, como as eleições municipais subsequentes mostraram, supraclassista o suficiente para durar.
Não há resposta única aos nossos predicamentos. A experiência urbana sob o capitalismo está se tornando bárbara, bem como repressiva. Se as raízes dessa experiência alienante estão na infindável acumulação de capital, então essas raízes têm de ser definitivamente rompidas. As vidas e o bem estar têm de ser re-enraizados em outros modos de produzir e consumir, enquanto novas formas de socalidade precisam ser construídos. O ethosneoliberal de individualismo isolado e responsabilidade pessoal, ao invés de social tem de ser superado. Retomar as ruas em atos de protesto coletivo pode ser um começo. Mas é somente um começo e não pode ser um fim em si mesmo. Maximizar o buen vivir para todos na cidade ao invés do PIB, para o benefício de poucos é uma ótima ideia. Ela precisa ser fundamentada em práticas urbanas em toda parte.
f
Notas
1. Jamil Anderlini, “Property Sector Slowdown Adds to China Fears,” Financial Times, May 13, 2014
2. Keith Bradsher, “China’s Sizzling Real Estate Market Cools,” New York Times, May 13, 2014, B1.
3. Cihan Tugal, “Resistance Everywhere: The Gezi Revolt in Global Perspective,” New Perspectives on Turkey 49(2013): 157–72.
4. Shaila Dewan, “In Many Cities Rent is Rising Out of Reach of Middle Class,” New York Times, April 14, 2014, A1.
5. Ver o capítulo 17 de meu livro Dezessete contradições e o fim do capitalismo (Boitempo, no prelo).
6. Republic of Ecuador National Planning Council, National Plan for Good Living: Building a Plurinational and Intercultural State (Quito: Senplades, 2010).
7. As tendências para uma maior desigualdade social foram recentemente documentadas de forma espetacular emLe capital ao xxi siécle, de Thomas Piketty.
8. Arzu Ozturkmen, “The  Park, the Penguin and the Gas: Experience and Performance in Progress of Gezi Events”, Mimeo (Bogazici University, Istanbul).

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