domingo, 25 de janeiro de 2015

Contra a crise hídrica, as cisternas verticais

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http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/contra-a-crise-hidrica-uma-cisterna-vertical/


Contra a crise hídrica, as cisternas verticais

Cistena-Montagem
Experimento revela: é possível captar e armazenar água das chuvas, dispondo de apenas meio metro quadrado. Sociedade busca alternativas, governo paulista continua omitindo-se
Por QSocial
Um novo sistema vertical de captação e armazenamento de água de chuva foi inaugurado neste mês em uma casa na Lapa, na zona oeste de São Paulo. Ele chega como alternativa a quem quer captar a água da chuva ou de outras fontes, mas não tem espaço para cisternas tradicionais. Modular, ele pode ser adaptado às mais diferentes condições e combinado com outras formas de reuso e tratamento de água.
Cisterna 1 (Large)Inspirado no projeto do arquiteto Mano Mattos, o modelo desenvolvido pelos também arquitetos Uli Zens e João Pedro David, do Incriatório, armazena 320 litros e ocupa menos de meio metro quadrado. A água é captada da calha, passa por um filtro e separa a água inicial e as folhas. “É uma solução de baixo impacto para enfrentar a crise da água e adequada para empresas, casas e prédios”, afirma Zens.
A água captada no sistema terá vários usos: limpar o quintal e as áreas internas da casa e aguar plantas da casa e também da praça localizada em frente, entre outros. O próximo passo será a ampliação do projeto, que permitirá o tratamento da água com o uso de plantas, um processo chamado de biorremediação, ampliando, assim, as possibilidades de uso da água.
Especializado em manejo de água e vegetação, o arquiteto alemão diz que seu “objetivo é trazer mais uma alternativa para quem quer economizar e, principalmente, contribuir para uma nova cultura da água”.  Ele acrescenta que este sistema específico mostra que construções já existentes podem ser adaptadas para enfrentar a falta d’água, que deve se agravar ainda mais.
arte casa
“Nessa casa, fizemos adaptações, como instalar novas calhas e construir um pequeno muro para dar suporte aos tubos. Mas as novas construções já podem incluir essas inovações, que serão cada vez mais necessárias na fase de projeto e, assim, reduzir os custos futuros”, enfatiza o arquiteto.
O sistema, que ganhou régua e boia que marcam a quantidade de água, segue o básico das cisternas já existentes, explica Zens. No projeto, foi usado um filtro importado, canos, tintas especiais, tubos e conexões de PVC, que podem ser encontrados em lojas de materiais de construção.
Cisterna 2 (Large)
Um diferencial  do modelo é que ele pode ser integrado ao estilo da construção.  Um sistema instalado _similar ao da foto_, incluindo projeto, filtro, materiais, mão de obra especializada e garantia, sai em torno de R$ 9.000.
Quem quiser se aventurar sozinho pode seguir o tutorial do especialista Edson Urbano, do Sempre Sustentável. Para orçar o sistema adaptado pelo Incriatório, os e-mails são uli@incriatorio.com e joaopedro@incriatorio.com , e o telefone é 11 2935- 0867.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Falta de investimento, manutenção e de novas tecnologias: eis a face dos apagões no Brasil

correio
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10441%3Asubmanchete230115&catid=72%3Aimagens-rolantes&


Falta de investimento, manutenção e de novas tecnologias: eis a face dos apagões no Brasil




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ESCRITO POR TELMA MONTEIRO   
SEXTA, 23 DE JANEIRO DE 2015
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Pois bem, a realidade está falando mais alto. Em 19 de janeiro de 2015 o caos aconteceu. Faltou energia elétrica em 11 estados brasileiros e no Distrito Federal. Os problemas parecem ser idênticos aos que levaram ao apagão de 2009. O Operador Nacional do Sistema (ONS) deu a ordem para redução da carga. Motivo? Está sendo apurado, mas já adianto que divulgarão uma mentira. Eles sempre fazem isso: distorcem a realidade. Não faltou energia, a falha foi na transmissão de energia de alta tensão que opera no limite de sua capacidade.

Um sistema de transmissão de alta tensão leva a energia da unidade geradora – hidrelétrica, termelétrica, eólica – até a subestação transformadora, de onde saem as linhas de distribuição para o consumidor. O conjunto da transmissão de alta tensão é formado de cabos condutores, cabos para-raios, estruturas metálicas, espaçadores-amortecedores, cadeias de isoladores, torres autoportantes ou estaiadas e subestações transformadoras que têm mais outros tantos componentes.

Quase todas as linhas de transmissão no Brasil têm mais de 30 anos, exceto o terceiro circuito de Itaipu Itaberá-Tijuco Preto III, que foi concluído em 2001, depois de um histórico de quatro anos de irregularidades no processo de licenciamento, questionadas pelo Ministério Público.

Visitei subestações de Furnas e tive a impressão de ter voltado no tempo, para a idade da pedra em tecnologia. Impossível não notar os painéis de controle na base das luzinhas coloridas piscando como árvores de natal, alavancas mecânicas, sinais sonoros, reloginhos de ponteiros e salas de controle em estado de sucata, além de decibéis incompatíveis com a saúde do trabalhador. Eis alguns dos problemas.

Novas tecnologias

Em 2010, foi inaugurada a linha de transmissão de energia em tensão ultra-alta, a mais extensa e potente do mundo, na China. O projeto Xiangjiaba-Xangai, de 800 kW (kilowatts), tem aproximadamente 2.000 quilômetros e é uma nova referência em capacidade de transmissão, ocupa menos espaço e as perdas ficam abaixo de 7%. A economia é equivalente à demanda de energia de aproximadamente um milhão de pessoas na China. No Brasil, as perdas de transmissão ultrapassam os 20%.
Esse sistema de alta capacidade, na China, compreende uma única linha de transmissão aérea. A nova tecnologia dispõe de um sistema de controle avançado, com maior capacidade e eficiência e é adequada para países com dimensões continentais, onde os centros de consumo estão localizados longe das geradoras de energia.

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Portanto, diante desses avanços tecnológicos, não faz o menor sentido construir o sistema de transmissão das usinas do Madeira com tecnologia ultrapassada – são duas linhas, uma ficará em stand by, o que comprova não só a falta de confiança no sistema como o interesse do setor de energia em promover obras desnecessárias –, considerando um corredor de 10 quilômetros de largura, que atravessa a floresta, cidades, comunidades.

Infelizmente, o desenvolvimento de novas tecnologias, novos conceitos de equipamentos, a manutenção e as especificações técnicas de componentes mais evoluídos com sistemas informatizados, controle digital, menor impacto e mais eficiência, ainda não chegaram no Brasil. Há empresas oferecendo linhas de transmissão de alta tensão subterrâneas. Mas, como as empresas estatais Eletronorte, Furnas e Cemig dominam o setor de transmissão de alta tensão, só nos resta amargar prejuízos.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) tem o papel de defender os consumidores desses prejuízos causados pelos recorrentes apagões e pela incapacidade gerencial, falta de investimentos em novas tecnologias das empresas estatais e concessionárias de distribuição. Depois da privatização das distribuidoras de energia, não houve investimento em modernização de estações transformadoras, subestações e muito menos nas redes de distribuição e transmissão.

Outro ponto a considerar sobre transmissão seria a substituição da CA (corrente alternada), usada em todas as linhas no Brasil, por CC (corrente contínua), mais eficiente. Porém, é uma tecnologia ainda não dominada por aqui. Devido à falta de investimento em tecnologias, o sistema de transmissão do Madeira só ficará pronto neste ano de 2015, muito depois da primeira turbina de Santo Antônio começar a operar!

A tecnologia de corrente contínua requereria a repaginação de todas as hidrelétricas em operação no Brasil, pois existe uma incompatibilidade com as máquinas geradoras antigas em operação há mais de 30 anos. A linha de transmissão do Madeira – com os dois circuitos de 600kv CC - será acompanhada de outras linhas de transmissão convencionais paralelas (no plural porque são várias), mas com o mesmo conceito e componentes ultrapassados (fabricados pelas mesmas indústrias desde sempre), usados há três décadas ou mais.

Quanto à geração, o problema virá com a diminuição da capacidade das hidrelétricas com mais de 30 anos e numa curva descendente, pois ultrapassaram em muito o limite da vida útil dos seus reservatórios já assoreados (já estamos vivendo esse problema). Turbinas de última geração estão disponíveis no mercado e a simples troca das ultrapassadas poderia revitalizar e aperfeiçoar a capacidade de geração. Esse passo teria evitado a construção de Belo Monte, inclusive; no entanto, não interessou às concessionárias investir em modernização, já que estavam no final do contrato de concessão.

Enquanto a China resolve seu problema de transmissão especial de alta tensão a longa distância, reduz as perdas e os corredores, poupa energia, aumenta a eficiência e utiliza métodos de transmissão econômica segura e eficiente, nós, no Brasil, continuamos nas mãos da ineficiência da Eletronorte, Furnas, Cemig, AES Eletropaulo, enfrentando apagões.

Clique aqui para ler e ver imagens que constam do Relatório de Furnas, sobre as causas e consequências do apagão de 10 de novembro de 2009. Ele mostra o estado da arte da falta de investimento e manutenção na transmissão no Brasil.

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Conclusão do relatório sobre o apagão de 2009
*Este artigo foi originalmente escrito em 2011. Mas, como a história se repete, apenas atualizei o texto e mantive as informações do relatório do artigo original.


Telma Monteiro é ativista socioambiental, pesquisadora, editora do bloghttp://www.telmadmonteiro.blogspot.com.br, especializado em projetos infraestruturais na Amazônia. É também pedagoga e publica há anos artigos críticos ao modelo de desenvolvimento adotado pelo Brasil.

A sustentabilidade dos mananciais: a ética do uso da água

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/539218-a-sustentabilidade-dos-mananciais-a-etica-do-uso-da-agua


A sustentabilidade dos mananciais: a ética do uso da água

"Sem uma visão sistêmica do ciclo das águas e sem uma ética do uso da água que implique o cuidado dos mananciais, comprometeremos sempre mais o abastecimento humano, a dessedentação dos animais e os demais usos", escreveRoberto Malvezzi, graduado em Teologia pelo Instituto Teológico de São Paulo e atuante na CPT, em artigo publicado pelaComissão Pastoral da Terra - CPT, 20-01-2015.
Eis o artigo.
Quando a lei brasileira de recursos hídricos 9.433/97 incorporou em seu texto o uso prioritário da água para consumo humano e a dessedentação dos animais (Art. 10, Inc. III), ela estava assimilando uma escala de valores. Quando falamos em valores - e numa hierarquia de valores -, então estamos falando de ética.
Esses princípios já existiam a partir de uma reflexão global (Princípios de Dublin), quando setores da humanidade deram-se conta que estávamos mergulhando numa crise da água. Ela faz parte de uma crise civilizacional maior, que sobre usa os bens naturais acima do que a natureza pode oferecer, ou num ritmo mais veloz do que ela é capaz de repor. É o que se chama de insustentabilidade.
Mas, há um vácuo na ética da água no Brasil. Não existe na lei brasileira de recursos hídricos nenhum parágrafo que normatize o cuidado com os mananciais, a não ser um princípio geral da referida lei que afirma ser necessária a gestão dos recursos hídricos integrada à gestão ambiental (Art. 30, Inc. III).
Em 2004, quando a Campanha da Fraternidade da CNBB questionou esse vazio, a resposta das autoridades é que essa dimensão estava implícita em outras leis ambientais, sobretudo no Código Florestal. Porém, o Código foi modificado.
Sem a vegetação, a penetração da água que forma os lençóis freáticos se reduz de 60% para 20%. Sabemos que é o rio aéreo da Amazônia que abastece todo sul e sudeste brasileiros, dependendo da evapotranspiração da floresta. Entretanto, quem pretende ter água nessa região, tem que respeitar também os parâmetros ecológicos locais para que ela esteja ao alcance. Logo, a compra de áreas de preservação na Amazônia em troca do desmatamento em nível local não soluciona o problema da recarga dos aquíferos. É preciso preservar a Amazônia e a vegetação local.
Os dois principais programas do governo federal para a água são no sentido de expandir o consumo. O Água para Todosvisa realizar o valor primordial no uso da água que é o abastecimento humano. O Oferta de Água visa expandir seu uso econômico. Temos ainda investimentos pelo PAC em abastecimento humano, com o objetivo de ampliar os serviços de saneamento básico. Entretanto, não temos nenhum programa relevante em termos de proteção dos mananciais.
Sem uma visão sistêmica do ciclo das águas e sem uma ética do uso da água que implique o cuidado dos mananciais, comprometeremos sempre mais o abastecimento humano, a dessedentação dos animais e os demais usos.
O óbvio ulula diante de nossos olhos.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Bancada ruralista apoia Eduardo Cunha para presidir Câmara

eco
http://www.oeco.org.br/noticias/28884-bancada-ruralista-apoia-eduardo-cunha-para-presidir-camara


Bancada ruralista apoia Eduardo Cunha para presidir Câmara
Daniele Bragança - 21/01/15

eduardo-camposEduardo Cunha, deputado pelo PMBD-RJ, da bancada evangélica, e também presidente da Câmara dos sonhos da bancada ruralista. Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados
A bancada ruralista já sabe em quem votar para a concorrida presidência da Câmara dos Deputados. O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) ganhou apoio formal na semana passada, após prometer facilitar a tramitação de temas caros da bancada. Até o momento, candidataram-se 3 deputados para o cargo de presidente da Câmara: Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Júlio Delgado (PSB-MG) e Arlindo Chinaglia (PT-SP).
Entre esse temas está a retomada da PEC 215, que transfere para o Congresso o poder de demarcar Terras Indígenas, Terras Quilombolas e criar Unidades de Conservação. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215 foi arquivada em dezembro/2014, após o colegiado formado para analisá-la não conseguir votar antes do término dos trabalhos legislativos. A proposta foi para a gaveta, episódio comemorado como uma vitória dos grupos indígenas e deputados contrários à PEC, que fizeram pressão para impedir a votação.
O alívio durou pouco.
Apelidada de PEC das Terras Indígenas, a PEC 215 também afeta a criação de novas Unidades de Conservação. Até hoje, esta é uma prerrogativa do Executivo. Se a PEC 215 for aprovada, o Congresso passará a definir quando e onde criar áreas protegidas.
De volta ao começo
A PEC 215 será desarquivada, não importa quem estiver sentado na cadeira da presidência da Câmara dos Deputados. Pelas regras da casa, basta a apresentação de um requerimento encaminhado ao presidente para que ela volte a tramitar. A regra é o requerimento conter a assinatura do autor da PEC ou de um dos deputados que assinaram o documento de criação da proposta.
A disputa é importante para a bancada ruralista, pois é o presidente da Câmara que coloca os projetos de lei em votação. Quando isso acontece, os ruralistas sabem que ganham, pois são a maior bancada suprapartidária do país. Foi assim com a tramitação do Código Florestal.
"Não é de hoje que enfrentamos os desafios com destemor. Foi assim na aprovação do Código Florestal, na revisão dos índices de produtividade, no emplacamento de máquinas agrícolas etc. E será assim na demarcação de terras indígenas, no projeto de acesso aos recursos genéticos, trabalho escravo, na legislação sobre agroquímicos, na lei trabalhista específica para o trabalhador rural, entre outros temas", diz a nota da Frente Parlamentar da Agropecuária em apoio à candidatura de Eduardo Cunha.

Empresa brasileira vai vender garrafa com água retirada do ar da Amazônia por R$ 20

amaz
http://amazonia.org.br/2015/01/empresa-brasileira-vai-vender-garrafa-com-agua-retirada-do-ar-da-amazonia-por-r-20/?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Not%EDcias+da+Amaz%F4nia+-+21+de+janeiro+de+2015


Empresa brasileira vai vender garrafa com água retirada do ar da Amazônia por R$ 20

Empresários vão investir R$ 30 milhões em marca voltada para o mercado europeu; estratégia é lucrar 100 milhões de euros
Empresários esperam lucros de 100 milhões de euros em dez anos
O ‘raio gourmetizador’, como brincam os usuários das redes sociais com a moda de produtos cercados por cuidados mercadológicos – o bom e velho segmento premium – terá a partir de março uma pequena, mas já ilustre participante: uma marca de água mineral retirada não de debaixo da terra, mas da atmosfera da floresta amazônica.
Uma garrafinha da Ô Amazon Air Water, de 250 mls, terá preço sugerido de aproximadamente R$ 20. Ou, para ser preciso, A 6,5. Isso porque 95% da produção terá como destino o mercado europeu, onde será distribuído para 200 pontos de venda de luxo, como o hotel Four Seasons de Lisboa.
Os 5% restantes serão reservadas para o consumidor brasileiro, vendidas em um e-commerce da marca e por uma flagship store, ou loja conceito, prevista para ser anunciada em julho e, certamente, ocupando um endereço chique da cidade de São Paulo, como o Jardim Europa por exemplo.
Um grupo formado por quatro empresários brasileiros é responsável pela ideia. Já experimentados no empreendedorismo, eles aportaram R$ 20 milhões na empresa A2BR, que abriga a marca Ô Amazon. Outros R$ 10 milhões estão previstos para os próximos 12 meses, dinheiro destinado para o início da produção, marcado para a segunda quinzena de março, estratégias de marketing e comunicação, além do subsídio ao mercado na primeira leva a ser exportada. “Nós estamos com uma estratégia de abordagem de mercado onde a gente financia a primeira compra de nosso cliente, porque a gente seleciona quem a gente quer que revenda nosso produto”, conta o sócio Cal Junior, que em dez anos estima um retorno de 100 milhões de euros, em lucros.
Instalados em uma casa com cara de sede de startup na cidade de São Paulo, os quatro empresários, na verdade, mantém um parque fabril de 1,75 milhão metros quadrados às margens do rio Negro, na Amazônia. É lá, no espaço concedido por 30 anos pela prefeitura de Barcelos, que eles instalaram duas máquinas que se parecem com grandes geradores de eletricidade, e que serão responsáveis por condensar a umidade do ar da floresta, fazendo a água passar por filtros e equipamentos de mineralização.
O processo, para que o leitor possa compreender, é similar ao do aparelho de ar-condicionado, que desumidifica o ar e, em seguida, devolve o ar refrigerado, eliminando a água. Nesse caso, como o objetivo não é a climatização do ambiente, e sim gerar água potável, toda o potencial da máquina está voltado para o desempenho de condensação e, posteriores filtragem, mineralização e engarrafamento. Uma simples máquina, feita com exclusividade na China, é capaz de produzir 5 mil litros de água por dia.
“As pessoas nos perguntam qual será o impacto da produção na Amazônia e eu digo que é zero. É como tirar um copo de água de uma piscina olímpica, sendo que durante a noite, a natureza trata de restituir a perda”, afirma Ricardo Rozgrin, sócio e diretor financeiro do negócio. “Um dos nossos sócios, o Paulo Ferreira (filho de Nuno Ferreira, dono da empresa de logística internacional homônima), conheceu a tecnologia em uma transação logística e começamos a estudar esse mercado. No início, a gente queria produzir máquinas e vender no varejo. Só que nosso foco foi redefinido”, lembra Cal Junior, que promete apenas 6 milhões de garrafas por ano. “Vai ser a água de luxo mais exclusiva do mundo.”
Com embalagem de vidro e uma tampa com resina de amido de milho, repleta de sementes, a proposta é que o cliente depois plante a tampa e compartilhe a informação com a marca e demais consumidores por meio de um aplicativo para smartphones. Nosso projeto é totalmente sustentável, da embalagem de vidro à energia elétrica da fábrica, 100% solar”, afirma Cal.
O mercado, por sua vez, parece ter gostado da proposta do quarteto. Tanto que a fábrica que ainda não produziu uma gota de água sequer já é disputada por investidores. Dois gandes grupos de private equity já fizeram propostas pelo controle da empresa, mas foram descartados. Neste momento, entretanto, eles acertam as base de um contrato para ceder 15% da companhia para dois investidores físicos, que pagarão R$ 45 milhões pelas cotas, fazendo da empresa sem faturamento ou produto à venda, um empreendimento orçado na casa dos R$ 300 milhões.
Fonte: O Estado de São Paulo

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Catadora relembra 'massacre de autoestima' em lixão de Gramacho

bbc
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/01/141202_gramacho_fernanda



Catadora relembra 'massacre de autoestima' em lixão de Gramacho

  • 19 janeiro 2015
"Difícil não foi conviver com o lixo, difícil foi não virar lixo." Assim Gloria Cristina dos Santos resume o que enfrentou durante os 14 anos em que trabalhou como catadora no antigo aterro sanitário de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.
Aos 39, ela lembra com lucidez os momentos mais marcantes de uma época de sofrimento e superação.
Sua trajetória começa aos 11 anos, quando ela pisou no lixão pela primeira vez para levar a marmita da mãe, a primeira da família a trabalhar no aterro.
Dali, ela só sairia aos 25 anos, para integrar a diretoria da primeira cooperativa de catadores de lixo de Jardim Gramacho. Com o fechamento do lixão, em junho de 2012 – então o maior da América Latina -, Gloria se destacou como uma das lideranças entre os catadores e hoje está à frente do Polo de Reciclagem de Gramacho, que emprega antigos catadores – iniciativa pioneira no Brasil.
Gloria no polo de reciclagem
Catadores cooperativados trabalham em polo de reciclagem, inaugurado após fechamento de lixão
Mas até chegar aqui, ela percorreu uma jornada árdua, pontuada por uma infância roubada pelo trabalho no lixão, uma adolescência conturbada, dois acidentes graves e uma depressão pós-parto que culminou com uma tentativa de suicídio aos 17 anos.
A BBC foi a Gramacho para saber como os catadores estão vivendo dois anos após o fechamento do aterro. A história de Gloria e de seus colegas será retratada no documentário de rádio Your Rubbish, our Hope, que será transmitido em inglês no Serviço Mundial da BBC no dia 21 de janeiro.

Parque de diversões

Nas memórias inocentes da Gloria ainda menina, o lixão era "colorido" e um "parque de diversões ambulante", onde era farta a oferta de bonecas e tantos outros brinquedos.
Com o passar dos anos, o parque foi ficando mais parecido com um trem fantasma diante das frequentes cenas de "filme de terror".
Até o início dos anos 90, o lixo domiciliar descarregado em Gramacho era misturado com hospitalar. Frequentemente os catadores sujavam-se com sangue, espetavam-se com agulhas e deparavam-se com corpos, fetos e animais mortos.
"Furei meu pé com agulha e fique seis meses sem andar. Tive muita sorte de não ter me contaminado com HIV", diz.
Este não seria seu único acidente. Pouco antes de completar 15 anos, ela foi aterrada por uma montanha de lixo despejada por uma carreta. Foi resgatada pelos colegas após passar dez minutos sob quilos de resíduos.
"Foi a pior adolescência que alguém pode ter. Ser adolescente já é muito ruim. Mas ser adolescente e catadora era bem pior. A sensação de injustiça, de fracasso era constante. O massacre de autoestima era diário. Eu sempre quis escapar do lixão e é isso que me move até hoje".

Depressão e superação

Mesmo com todas as dificuldades, Gloria conseguiu frequentar a escola. Sua rotina era pesada. Ela subia a "rampa" (termo usado pelos ex-catadores para se referir ao lixão) às 4h30 e trabalhava até às 13h. Duas horas depois estava na sala de aula e de lá só saía às 19h.
"Às vezes não conseguia tirar o cheiro da mão e conforme suava o cheiro ficava mais forte. Eu não conseguia me enturmar na escola. As meninas da minha idade tinham problema com cabelo, com a unha da moda. Eu eu era do aterro, uma extraterrestre. Nunca contei a ninguém que trabalhava no lixão. Por muito tempo, só me sentia segura ao chegar em Gramacho".
Uma gravidez precoce aos 17 anos agravou o dilema de se aceitar como catadora. Três meses após dar à luz sua filha Lorraine, Gloria tentou o suicídio. Ela revela que sua terapia para a depressão pós-parto veio dos livros recuperados no lixão.
"Meus livros me salvaram. Todo mundo quer escapar do lixão, resta saber que maneira usar. A grande maioria optou por drogas, eu optei por livros. Era minha maneira de escape, de fugir, viver outras vidas. Era o que me dava barato, segurava a onda".
Na estante, ela exibe obras de Umberto Eco, Gabriel García Márquez, Fyodor Dostoyevsky, Machado de Assis, Erico Veríssimo, entre outros. Todos recuperados do chorume.

Polo de reciclagem

O fortalecimento do mercado de recicláveis no Brasil a partir dos anos 90 lhe estimulou a continuar trabalhando como catadora. Durante anos ela recolheu do lixão papel branco e papelão e chegou arrecadar R$3 mil por mês.
Quando o aterro foi fechado, semanas antes da conferência Rio+20, da ONU, Gloria integrou à comissão que negociou uma indenização individual de R$14 mil para os 1,7 mil catadores e financiamento para a construção do primeiro estágio do Polo de Reciclagem de Gramacho.
O local, inaugurado em novembro de 2013, emprega apenas 50 dos 500 catadores que na época do fechamento manifestaram o desejo de continuar trabalhando com reciclagem.
Isso se deve às dificuldades que Gloria enfrenta para captar recicláveis - papel, plástico, papelão, metal, vidro, entre outros, - já que o município de Duque de Caxias, do qual Gramacho é distrito, não realiza coleta seletiva domiciliar.
catadoras no polo de reciclagem
Catadores enfrentam escasses de recicláveis desde encerramento do lixão de Gramacho
"A gente se orgulha do polo, mas não funciona como deveria. Abastecimento é um problema diário. Todo dia eu tenho que ligar para empresas pedindo doações de recicláveis, entrar em editais, planejar o transporte. É frustrante, mas não minimiza o tamanho da nossa conquista. Conseguimos fazer o governo olhar e se responsabilizar por toda aquela situação", avalia.
O polo recebe cerca de 50 toneladas de recicláveis por mês, oriundas de parcerias com empresas privadas da Baixada Fluninense e condomínios residenciais. A quantia é ínfima se comparada as 200 toneladas/dia que os catadores recolhiam no lixão.
A escassez afeta diretamente o bolso do catadores, que sentiram uma queda brusca nos rendimentos – de R$ 2,5 mil/mês em média para apenas R$ 500.
O antigo aterro de Gramacho funcionou durante 34 anos em uma área de 1,3 milhão de m², à beira da Baía de Guanabara. O local recebia cerca de 9,5 mil toneladas diárias de resíduos de sete municípios fluminenses, incluindo os do Rio de Janeiro.
Mesmo com todos os obstáculos, Gloria mantém o otimismo.
"O polo é meu sonho, minha missão de vida, é a transição que todo lixão deveria ter. Eu tenho a necessidade de que isso dê certo para finalizar minha história e saber que eu escapei do lixão".