quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

As caras da injustiça ambiental

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As caras da injustiça ambiental

A injustiça ambiental tem cara. A de Antônio Filho, morador do bairro de Piquiá de Baixo, em Açailândia, Maranhão, destruído a partir da instalação de indústrias siderúrgicas ao redor das casas da comunidade. Ou a de Patrícia Generoso, de Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais, por onde passa um mineroduto de 525 quilômetros. Ou as de tantos outros atingidos por projetos que opõem desenvolvimento, justiça ambiental e saúde. Essas caras foram apresentadas no 2º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente (Sibsa), organizado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), em outubro, em Belo Horizonte. O encontro teve como marca a articulação da academia com os movimentos sociais, reconhecendo os envolvidos em conflitos territoriais não como objetos de pesquisa, mas como sujeitos de resistência.
A reportagem é de Bruno Dominguez, publicada na edição nº 148 da revista Radis, 14-01-2015.

Da abertura do simpósio à aprovação da Carta de Belo Horizonte (ver box na pág. 17), a interação entre ciência e saber popular foi destaque. O presidente do 2º SibsaHermano Castro, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), ressaltou que essa articulação é fundamental para se ter “um só corpo na defesa intransigente da vida, especialmente em um país em que o capital avança sobre a natureza, os bens naturais são precificados e retirados das populações e a sustentabilidade dos ecossistemas sucumbe”.

Inovação e necessidade
Os movimentos sociais não participaram do evento somente como convidados falando em mesas-redondas, mas também na organização e na comissão científica. “É uma inovação, um sonho e uma necessidade para entendermos integralmente o processo de desenvolvimento social com as populações que são sujeitos dele”, ressaltou Hermano.

O diretor da Ensp apontou as implicações do atual modelo para a saúde: interfere na determinação saúde/doença, levando a adoecimento e morte, especialmente de grupos mais vulneráveis — indígenas, afrodescendentes, comunidades tradicionais, camponeses e camponesas, trabalhadores e trabalhadoras de baixa renda, moradores e moradoras das zonas de sacrifício no campo, nas florestas, nas águas e nas cidades.
O presidente da FiocruzPaulo Gadelha, reforçou que saúde e ambiente são temas simbióticos. “Não se pode pensar saúde e ambiente como questões desconectadas, pois ambos sofrem as consequências perversas do modelo de desenvolvimento e do processo de organização da produção e do trabalho”, disse.

Daí surge a necessidade de se colocar a saúde no centro do modelo, tarefa que a Fiocruz tem levado à frente, como ele apontou, especialmente nos debates da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20(Radis 118 e 121), e na formulação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (Radis 113, 121, 127 e 147). “Os indicadores da saúde qualificam a medição de um desenvolvimento sustentável e trazem no seu bojo as noções de direito e de políticas sociais”.

O grito da justiça ambiental
Sobre a desterritorialização gerada pelos casos de injustiça ambiental, falou o filósofo francês Jean Pierre Leroy, integrante da Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA) e assessor da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), na conferência Direitos, justiça ambiental e políticas públicas. Nas palavras dele, justiça ambiental deve ser encarada mais do que como uma definição conceitual: “É um grito”.

Trata-se da afirmação de algo que interpela toda a sociedade: não se pode pensar um futuro sem que o meio ambiente seja parte da vida. “É um grito, uma luta travada para que ninguém se encaixe na condição de atingido, partindo dos que não aceitam ser eliminados e silenciados pelo injusto modelo de desenvolvimento do capitalismo. É um clamor daqueles que sabem que seus modos de viver e de se relacionar com o ambiente não são parte do problema, mas da solução”.

Jean Pierre tratou os territórios como espaços das tradições, onde se pode encontrar esperança para um futuro sustentável, dada a ligação profunda dos povos com a natureza. As ameaças são a agricultura industrial, os latifúndios monocultores e os grandes empreendimentos, que avançam pelo país, gerando desterritorialização e desapropriação, com respaldo governamental, em nome do crescimento econômico.

Na reflexão do filósofo, a desterritorialização não é apenas física, mas também simbólica. “Quando povos são expulsos de seus territórios, eles perdem mais do que a posse da terra; perdem o que têm de mais profundo: suas raízes”, disse, indicando como exemplo a destruição de uma cachoeira sagrada para os Munduruku com vistas a se construir uma barragem no rio Tapajós.

“Quando se fala em desterritorialização de povos tradicionais, alguns dizem: ‘são apenas dez famílias atingidas aqui e dez ali; o que representam diante do tamanho das nossas cidades?’ Porém, ao cortar raízes, corta-se junto a possibilidade de continuar um projeto de vida de integração profunda com a natureza”, argumentou. Essas vidas perdem o sentido: passam a ser “vidas em suspenso” ou “vidas não reconhecidas”, na definição do pesquisador.

‘Neoextrativismo’
Jean Pierre lamentou que o extrativismo seja a sina do Brasil. Ele classificou o período atual de neoextrativista, traduzido como o mesmo de outrora com a diferença de ter sido apropriado pelo Estado com o objetivo de servir ao capital. “UmCongresso dominado pelo agronegócio quer concentrar o poder de decidir onde indígenas podem ficar”, observou.

O filósofo fez ressalvas: essas práticas não são de um governo ou de outro, e sim práticas de Estado, inseridas em um contexto internacional. “O capital financeiro não conhece fronteiras e não está submetido a nenhum tipo de controle democrático”, avaliou, defendendo um projeto com saúde ambiental em dimensão global.

O desafio, indicou, é que esse projeto seja assumido pelos cidadãos das cidades, que muitas vezes perdem de vista que suas vidas têm ligação com o que acontece no campo. Um projeto não dos bens comuns, mas dos comuns, que escapa das noções de lucro, bens e mercado e prioriza a sintonia da população com a natureza.O que emperra a transformação é o que o médico equatoriano Jaime Breilh chamou de “economia da morte”, na conferência A função social da ciência, ecologia de saberes e outras experiências de produção compartilhada de conhecimentos. A economia da morte baseia-se, segundo ele, na convergência de capitais para fomentar o uso produtivista das tecnologias, na desapropriação e nos processos de pilhagem, e no que a jornalista canadense Naomi Klein classificou como shock: o aproveitamento de crises e eventos adversos, como o furacão Katrina, para fazer reformas impopulares.

Para além dos agrotóxicos e do uso insalubre da nanotecnologia, Breilh indicou que novas tecnologias de comunicação e informação geram novas toxicidades: “A comunicação contribui para modificar o espaço social onde se operam os impactos do sistema, com toxicidade cibernética, que leva a conflitos sobre identidade, subjetividade, privacidade, sociabilidade e desenvolvimento neurocomportamental”. Assim, defendeu que as iniquidades não se dão somente pelos modos de produção, mas por uma organização material da vida calcada na acumulação, que gera solidão para perpetuar o consumismo.

Construção de resistências
Pesquisador do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador (Cesteh), da Ensp, e coordenador do Mapa da Injustiça AmbientalMarcelo Firpo explicou que os conflitos ambientais são expressão da disputa por territórios e diferentes cosmovisões de economia, trabalho, natureza, vida e saúde. Eles envolvem comunidades atingidas, movimentos sociais, organizações solidárias, os produtores dessas violências e o Estado — que, segundo ele, funciona como elemento chave na geração das injustiças. Relatora da Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (Dhesca), Cristiane Faustino apontou que o poder público opera criando consenso social da importância de projetos de desenvolvimento.

“Os grandes empreendimentos demandam territórios, biodiversidade e água, mas não ocupam territórios vazios. Os territórios são habitados por pessoas de carne, osso e sentimento. E a vida ali instituída tem relação com o que no lugar existe”, observou. O mais violento, na avaliação dela, é justamente o poder de decidir com quem fica a posse de um território, por alguns poucos sujeitos, com maior poder político e econômico, acostumados a ditar as regras do jogo. “Os conflitos não estão descolados da estrutura patriarcal, racista, adultocêntrica, sexista, heteronormativa”, enumerou.

Firpo reforçou que os conflitos têm relação direta com o modelo de desenvolvimento hegemônico, baseado em poderio de transnacionais, mercantilização da vida e da natureza, produtivismo e consumismo, o que alguns chamam de crescimentismo. Ele apontou, no entanto, um aspecto positivo: a construção de resistências e alternativas. “Os conflitos ambientais têm potencial dinâmico, revelador, emancipatório, na medida em que permitem a emergência e a articulação para o enfrentamento desse modelo hegemônico”. Cristiane fez importante ressalva: “Mesmo quando não há resistência explícita à desterritorialização, há conflito. Pode ficar no nível do não dito, mas há conflito”.

O desmatamento é uma má notícia – e a ciência não se cansa de nos alertar

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O desmatamento é uma má notícia – e a ciência não se cansa de nos alertar

desmatamento é ruim para o meio ambiente e para o clima. Também é péssimo para a biodiversidade, além de liberargases do efeito estufa na atmosfera. Isso tudo nós já sabemos.
Mas a ciência está agora cada vez mais certa de que o desmatamento também é um péssimo negócio para a agricultura.Ele provoca o aumento das temperaturas e interfere nos sistemas de chuvas, tornando o clima mais seco.
A reportagem foi publicada pelo Greenpeace, 13-01-2015.
Este mês, uma análise detalhada sobre os impactos do desmatamento de florestas tropicais na agricultura (Effects of tropical deforestation on climate and agriculture), publicado na revista Nature pelas pesquisadoras Deborah Lawrence eKaren Vandecar, do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade de Virgínia (EUA), lançou luz sobre a relação existente entre o desmatamento destas florestas, a mudança da temperatura, os padrões de precipitação e seu subsequente risco para a produção mundial de alimentos.
As florestas são parte vital do ciclo da água. Elas são responsáveis por transportar a água do solo para a atmosfera, por evaporação – tecnicamente chamada de evapotranspiração. As florestas tropicais são capazes de transportar mais água do que qualquer outro ecossistema terrestre. Esta umidade cai em forma de chuva, seja localmente ou em outras regiões. A evapotranspiração também tem um efeito resfriador no ambiente, assim como a transpiração humana. Em geral, odesmatamento gera um clima mais seco e quente.
agricultura sofre com extremos de temperatura. Plantas de determinadas culturas, por exemplo, não são capazes de resistir a altas temperaturas. Estações chuvosas fora de época, períodos com muita ou pouca chuva, precipitações frequentes ou muito espaçadas, todas estas oscilações também têm efeito sobre a produção agrícola.
Um exemplo apresentado na revisão de modelos de desmatamento fora de áreas protegidas prevê uma queda de 25% no rendimento da soja em pelo menos metade da área total cultivada hoje em dia. Consequentemente, algumas áreas de pecuária não seriam mais viáveis.
Outro fato importante é que o desmatamento de florestas tropicais também oferece risco a produção de alimentos cultivados a milhares de quilômetros. Em 2013, o Greenpeace publicou o relatório “An Impending Storm”, (Tempestade Iminente), com algumas das mais recentes pesquisas científicas que mostram como as florestas (e seu desmatamento) influenciam o clima global.
O estudo lançado este mês corrobora com nosso trabalho, inclusive nos exemplos citados, como a conclusão de que odesmatamento da Amazônia e das florestas tropicais da África central causaram a redução das precipitações no centro-oeste norteamericano na temporada de plantio. Do mesmo modo, o completo desmatamento da floresta da Bacia do Congo, na África, deve intensificar as monções no Oeste africano, enquanto o aumento de temperatura, que deve ficar entre 2 e 4 °C, e a redução em até 50% nas chuvas, devem afetar toda a região.
O novo estudo também descreve, de uma maneira bem realista, os impactos do desmatamento parcial. O desmatamentopode tornar-se crítico quando o “ponto de inflexão” é atingido quando não há chuva suficiente para que a floresta possa se sustentar, de tal forma que ela acabe substituída por savana ou pastagem. Os autores sugerem que, para a Amazônia, e possivelmente para a África Central, o ponto de inflexão pode ser alcançado com os níveis de desmatamento entre 30-50%. Este ponto pode ser bem menor em algumas florestas costeiras que são importantes na condução de umidade do oceano para o interior dos continentes.
A pesquisa conclui que o desmatamento de florestas tropicais aumentas as incertezas e os riscos para a produção de alimentos, seja perto ou longe das áreas desmatadas, graças as mudanças de temperatura e alteração nos sistemas de chuvas.
A evidência científica que aponta para o fato de que todos dependemos das florestas tropicais, independente do lugar do mundo onde se viva, está se tornando cada vez mais forte. Isso mostra a importância de prevenir a destruição das florestas e até de recuperar áreas degradadas, o que poderá garantir que as florestas continuem a regular o clima e a temperatura do planeta, mantendo nossa capacidade de produzir alimentos e de conservar a biodiversidade.
Não faltam provas de que a manutenção das florestas tropicais são fundamentais para a vida na terra. Mas ainda hoje continuamos a perder anualmente extensas áreas de Floresta Amazônica, seja em desmatamentos legais ou ilegais.
Alguns dos principais fatores que promovem o desmatamento do bioma são a atividade madeireira ilegal, a pecuária e acultura de soja. Temas que se tornaram centrais em campanhas do Greenpeace Brasil. Acreditamos que desmatar, sob qualquer pretexto, não faz mais sentido algum. Felizmente, não estamos sozinhos nessa.
O projeto de Lei do Desmatamento Zero, lançado em 2012, prevê o fim da emissão de licenças de desmatamento em florestas nativas, ou seja, mesmo a porcentagem permitida por lei não poderá mais ser desmatada A iniciativa já conta com o apoio de mais de 1 milhão de brasileiros. Faça parte deste movimento, assine a petição.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A agricultura integrada, uma forma de vencer a mudança climática

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A agricultura integrada, uma forma de vencer a mudança climática

A propriedade de meio hectare que Sukomal Mandal tem na maior floresta de mangue do mundo é um oásis de prosperidade, apesar de o mar estar tragando lentamente a terra. Mandal, de 50 anos, e sua família vivem na localidade indiana de Biswanathpur, em Sundarbans, a floresta de mangue de dez mil quilômetros quadrados que Índia e Bangladesh compartilham no delta da baía de Bengala.
A reportagem é de Manipadma Jena, publicada pelo portal Envolverde/IPS, 09-01-2015.
Neste ponto álgido de biodiversidade, declarado Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), não restam dúvidas sobre o impacto da elevação do nível do mar em razão do aquecimento global. Os estudos mostram que a região perdeu anualmente cerca de 5,5 quilômetros quadrados entre 2001 e 2009, em comparação com os quatro quilômetros quadrados perdidos por ano nas quatro décadas anteriores.
A população local, de aproximadamente quatro milhões de pessoas, sofre inúmeras crises, entre elas a falta de águapotável, uma das necessidades mais urgentes das comunidades de subsistência que vivem e trabalham há gerações na rede de ilhas que compõem Sundarbans.
A invasão do mar, bem como ciclones, tempestades, terras de cultivo prejudicadas pela erosão e perdas nas costas das ilhas, inundações fluviais devido às chuvas concentradas, água salobra que escorre pela terra e o aumento da salinidade do solo aprofundaram a pobreza desses povos, onde três em cada dez pessoas vivem abaixo da linha da pobreza.
Os habitantes, como Mandal e sua mulher Alpana, tiveram que inovar para se manterem vivos. E para isso adotaram métodos novos, como a agricultura integrada, para enfrentar a mudança climática.
Um estudo realizado em novembro de 2014 pela União Internacional para a Conservação da Natureza alerta que aescassez de água doce está chegando ao ponto crítico na parte indiana de Sundarbans, que ocupa uma grande parte do Estado de Bengala Ocidental. Segundo Sugata Hazra, oceanógrafo e especialista em mudança climática da Universidade de Jadavpur, em Kolkata, a região precisa com urgência de uma injeção de 507 metros cúbicos de água doce por dia para manter seus ecossistemas e meios de vida.
O aumento da salinidade prejudicou as terras de cultivo em 52 das cerca de 102 ilhas habitadas no lado indiano da floresta. Um observatório na ilha de Sagar, a maior delas, que sofre a pior parte das consequências climáticas, registrou elevação média do nível do mar de 17,8 milímetros por ano entre 2001 e 2009, bem mais do que os 3,14 milímetros anuais na década anterior. Não é fácil chegar ao fim do mês nessas condições.
Vários grupos de agricultores do bloco administrativo Patharpratima, no distrito Sul 24-Parganas, disseram à IPS que cada família tem pelo menos um integrante que emigrou, cujo dinheiro que enviam é cada vez mais necessário. Outros, comoSukomal e sua mulher, recorrem a métodos de agricultura integrada.
“O sistema de agricultura integrada praticamente reproduz a natureza”, explicou Debabrata Guchhait, um capacitador daSociedade de Bem-Estar Srijan Indraprastha (ISWS), que trabalha pela segurança alimentar da comunidade. A técnica “integra a fazenda e a casa”, por isso os resíduos de um âmbito da vida se transformam em insumo para o outro. Oscultivos básicos se mesclam com outras variedades de plantas e hortaliças, enquanto o gado, patos e galinhas fazem parte do ciclo autossustentável.
O processo “reduz os custos e riscos da exploração agrícola ao recorrer ao orgânico e à diversificação das fontes de rendimento e renda, ao mesmo tempo em que garante a nutrição”, ressaltou Guchhait à IPS. As galinhas se alimentam de folhas verdes, grãos quebrados e milho. Seus resíduos são usados como adubo orgânico junto com esterco das três vacas e duas cabras de Mandal. O resto dos dejetos das aves é drenado para um tanque onde alimenta os peixes.
A escavação do pequeno tanque para coletar água durante a monção anual, que normalmente proporciona cerca de 1.700 milímetros de chuva, foi de grande ajuda para a família. Na superfície de uma “bigha”, uma unidade de medida equivalente a 0,133 hectare, Mandal colhe 480 quilos de arroz com casca, 70 quilos a mais do que antes, e suficientes para cobrir o consumo mensal de sua família.
Agora que tem água fresca suficiente, Mandal consegue duas colheitas de arroz anualmente, com um total de 900 quilos em um ano sem desastres naturais. Depois de atender as necessidades alimentares da família, ganha cerca de US$ 400 com a venda do que sobra. Com as hortaliças que cultiva na mesma superfície ganha o dobro, já que planta um cultivo misto de mais de 25 variedades ao longo do ano. Com o uso de cada centímetro de espaço livre, a família aumentou sua capacidade de recuperação diante da mudança climática e dos padrões climáticos.
E o transbordamento da lagoa também tem seus benefícios. “Nossa família de quatro pessoas consome três quilos de pescado por semana e vende alguns”, disse Alpana à IPS. “De nossos 890 membros em 17 aldeias, apenas 15 adotaram a agricultura integrada”, afirmou Palash Sinha, que dirige a ISWS no bloco Patharpratima. “Uma das principais razões é o alto custo de 12 mil rúpias”, cerca de US$ 200, que “custam as áreas agrícolas integradas”, acrescentou.
Apesar da assistência técnica e do apoio monetário que recebem de organizações da comunidade, muitos agricultores resistem a fazer empréstimo de cinco mil rúpias para esse fim. “Para que as parcelas funcionem com eficácia é necessário ao menos 0,072 hectares”, ou 720 metros quadrados, pontuou Sinha. “Muitos agricultores nem mesmo possuem essa quantidade de terra”, destacou.
Outros associam o método integrado com um trabalho mais árduo. “Em um bom ano, a renda das fazendas integradas podem ser 200% maiores do que a das convencionais, mas o fator trabalho é 700% superior”, apontou Samiran Jana, um agricultor integrado no povoado de Indrapastha.
A ajuda estatal aos agricultores marginais que esperam transformar suas pequenas áreas é extremamente baixa, afirmam os especialistas. Por exemplo, o Plano de Ação de Bengala Ocidental para a Mudança Climática, que inclui a promessa de reforçar a assistência, ainda não foi implantado.
Os especialistas recomendam que neste país, onde 56% da população ativa se dedica à agricultura e onde 80% são pequenos produtores ou camponeses sem terras, sejam feitos esforços concertados em nível federal para proteger os milhões de pessoas cujos meios de vida estão ligados aos padrões mutantes do clima.

O dia em que São Paulo voltou a respirar 2013

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O dia em que São Paulo voltou a respirar 2013

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Em três relatos, a grande marcha pela desmercantilização do transporte, a brutalidade policial e uma pergunta: “quem quer botar fogo na floresta”?
Por Pablo OrtelladoLeonardo Sakamoto Marie Leclerc | Imagem de Capa: Mídia Ninja

I.
Considerações sobre as manifestações de 9 de Janeiro, em São Paulo
Por Pablo Ortellado, em seu perfil no Facebook
* O aumento: o aumento das passagens de ônibus em muitas cidades, mas sobretudo em São Paulo é um inequívoco desafio ao legado de junho. É uma aposta arriscada de que os protestos de junho não foram motivados pelo preço das passagens (como disse explicitamente o prefeito Haddad em entrevista ao El País) e que a capacidade de mobilização popular demonstrada em 2013 não pode ser repetida.
TEXTO-MEIO
> Acompanhe: a marcha segue reivindicante e serena até o momento 2m30s. Então, a PM ataca

* Adesão: com quase 50 mil pessoas confirmadas no Facebook, a manifestação reuniu um número muito maior de pessoas do que o esperado. O MPL estimou no começo o número em 10 mil, depois 15 mil e no final do percurso em 30 mil manifestantes. A PM estimou em 5 mil. A rede Globo, no Jornal Nacional, estimou 2 mil pessoas. Minha estimativa pessoal é de 15 mil pessoas e posso afirmar que havia mais gente hoje do que na manifestação do dia 13 de junho de 2013. Os manifestantes eram formados principalmente por estudantes — universitários e secundaristas e muitos secundaristas da periferia.
* Ação da polícia: a PM obviamente substimou a capacidade de mobilização do MPL destacando uma quantidade muito insuficiente de policiais para fazer o acompanhamento, como havia prometido. No entanto, ela parecia ter recebido ordens para impedir o acesso à Paulista (destino combinado na assembléia que precedeu o ato). Uns cem metros à frente da manifestação, já na Avenida Paulista, um grupo pequeno de jovens que estavam desgarrados do grupo maior se envolveu num incidente (não encontrei testemunhas, então não sei relatar o que aconteceu) e a polícia arremessou bombas de concussão (as bombas que soltam estilhaços e que a PM cinicamente chama “de efeito moral”) e efetuou prisões. O grupo estava tão longe da manifestação que de lá não podíamos ouvir ou perceber o que havia acontecido. O MPL, no entanto, foi alertado e segurou a manifestação na Consolação, cem metros antes da Paulista, até a situação se acalmar. Neste momento, sem qualquer motivo ou aviso, a PM começou um ataque irresponsável e gratuito de bombas de concussão e bombas de gás lacrimogênio, gerando feridos pelos estilhaços e por pisoteamento. Os manifestantes fugiram enquanto eram alvejados por bombas nas ruas paralelas à Consolação: na Angélica, na Bela Cintra, na Augusta. Há dezenas de presos e muitos feridos.
* Perspectivas da luta: A campanha contra o aumento em São Paulo começou num nível muito alto de mobilização. Em 2013, foram preciso 5 atos para se chegar nesse nível, o que mostra um acúmulo de força organizativa e sobretudo legitimidade de convocação. O aumento simultâneo de passagens em diversas capitais do país, também favorece a coordenação e intensificação recíproca da luta que pode gerar um sentimento nacional de revolta contra a mercantilização da mobilidade urbana. A luta agora é para confirmar o legado de 2013, quando 70% dos habitantes das médias e grandes cidades tiveram revogado o aumento das passagens. Como diz o chamado do MPL, agora é de 3 reais para baixo. Não estamos começando do zero, nem andando em círculos — partimos de um patamar mais alto.

II.
Pôr fogo na floresta inteira?Por Leonardo Sakamoto, em seu perfil no Facebook
Ato final do protesto contra o aumento da tarifa de ônibus, metrô e trens em São Paulo: A polícia militar usou tiro de canhão para acertar passarinho.
Um pequeno grupo provocou os policiais, espalhou lixo e bateu nas portas das lojas.
Eles, que teoricamente deveriam ser treinados para reagir de forma controlada nessas situações, responderam com gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral e balas de borracha, atingindo a manifestação – que seguia pacífica – e assustando pessoas que nem participavam da marcha.
Daí, tudo descambou.
Não vou dizer que não mudou nada de 2013 para cá porque, pelo jeito, estão com estoque renovado desses armamentos.
Mas não me sai da cabeça a sensação de que fazem isso não para atingir o passarinho, mas para pôr fogo na floresta inteira.

III.
Polícia paulista: saudades da Jornadas de Junho?
Por Marie Leclercq, com imagens de Felipe Larozza, na Vice
Estavam com saudades das Jornadas de Junho? A PM também estava, tanto é que levou mais de 50 pessoas (até a última confirmação da Polícia Militar às 21:30) em detenção e soltou muito gás lacrimogênio e bomba de efeito moral para comemorar.
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Antes de explodir a merda toda, o protesto desta sexta-feira (9), que foi primeiro ato do MPL em 2015 contra o aumento de R$ 0,50 para ônibus, metrô e trens na capital paulista, começou tranquilo na concentração no Teatro Municipal. Uma assembleia foi realizada pela organização para decidir o trajeto e ficou combinado seguir pela República, subir a Consolação e terminar na Praça do Ciclista, no final da Avenida Paulista.
Tinha muita, muita polícia. E como prometido, eles se organizaram para fazer um sanduíche gostoso onde a Choque era o pão e a manifestação a carne batida. Li em algum lugar que isso se chama “envelopamento”. Fez sentido na hora. A polícia informou que 800 PMs a pé fariam o cerco, com mais de uma centena de integrantes da “tropa do braço”. A polícia estimava 2.000 manifestantes, o MPL aventou um total de 30.000 (!) e eu chutei uns 5.000 – mas me perdoem, sou de humanas e não sei fazer cálculos.
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Subirmos sem nenhum stress pela Ipiranga. Tinha gente até entrando e saindo pelo cordão da Choque e os caras só faziam vista grossa. Uma repórter gente fina me avisou que estavam revistando um pessoal perto do Shopping Light, mas não vi nada.
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A partir do momento entramos na Consolação, comecei a perceber que o cordão ficava cada vez mais apertado e quem chegava perto da Tática levava um empurrão de escudo em troca. Levei um de brinde também, mas não foi nada grave. Era um saco ficar dentro do sanduíche, por isso dei um jeito de sair e dar um rolê com o pessoal da imprensa.
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Muita gente achou também um saco também e saiu do cordão e começou a andar na frente da faixa do MPL. Até que a via da avenida, sentido Centro, foi tomada e todo mundo começou a andar entre os carros, que buzinavam (de vidro fechado) em resposta. Lembrei do Heudes, representante do MPL, explicando para mim na concentração porque eles não foram para a reunião com a PM antes do protesto. “A polícia soltou uma matéria dizendo que estaria aqui que iriam envelopar o ato e por que nós teríamos que dialogar se a presença deles já é uma repressão?”
Para vocês terem uma ideia, era tanta gente para fora do sanduíche que a faixa do MPL começou ficar bastante para trás. Quem tomava o front era um monte de moleque anarco, antifa e black blocs.
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Por voltas das 19:20, na altura do cemitério, essa turma começou a jogar lixo na rua para botar fogo, mas a PM conseguia dar uma dispersada sem muito stress. Até que a primeira bala estourou, por volta das 19:29. Segundo relatos, tacaram uma pedra em uma viatura da Força Tática. Vi uma galera chutando as portas das lojas e literalmente pedindo o sangue da polícia. Depois da primeira bala de borracha, fodeu.
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Olhando para cima da avenida, só dava para ver uma fileira do Choque e, olhando para baixo, era a mesma coisa, somando com as viaturas. Um moleque que estava bem do meu lado, tapando a cara com uma camiseta, tomou um abraço do tamanduá no pescoço e foi engolido por uma porrada de polícia. Nosso fotógrafo Felipe Larozza falou que provavelmente era por causa do anonimato.
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Uma parte do pessoal pegou a Matias Aires e correu pra Augusta, outra parte correu pela Maceió e pegou a Angélica. Deu ruim dos dois lados, eu consegui levar de brinde a imagem (e o cheiro, apesar da máscara) de muitas bombas de gás lacrimogêneo vindo na minha direção e a mira de um monte de arma. Corri para a Matias Aires e vi mais gás rolando e a polícia atirando indiscriminadamente. “Vai jogar na imprensa, caralho?”, um fotógrafo berrou.
Muita gente estava sentada no chão com uma muralha de polícia em volta. Alguns manifestantes berravam “vocês também pegam ônibus, vocês deveriam estar do outro lado”.
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O Larozza correu para o outro lado e ganhou em troca a ROCAM seguindo ele, junto com outros fotógrafos. Um dos fotógrafos levou um cassetete de presente nas costas. Quando saí da Matias Aires, me vi de novo cercada pela polícia. O cheiro era horrível e conseguia me fazer lacrimejar mesmo com máscara e óculos. Um maluco passou correndo por mim com uma armadura preta, tirando foto enlouquecidamente. Invejei esse cara e resolvi seguir pela Angélica para tentar chegar até a Paulista.
A Avenida Angélica estava tranquila, mas reinava o cheiro ruim de gás com notas de lixo queimado. Um banco tinha o vidro pichado com um “3,50 Não”, algumas pessoas que não tinham nada a ver com o tumulto corriam desesperadas. A treta já tinha rolado, mas vi uns caras sendo enquadrados por uma viatura da Força Tática.
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Só consegui ver que tinham quebrado o vidro do Santander na Avenida Angélica, mas depoispublicaram que as concessionárias Toyota e Kia e mais algum banco rodaram e levaram pedra.
O protesto dispersou de uma maneira tão eficiente (obrigada pelo deja vu do 4º Ato de 2013, Alckmin), que quando cheguei na Paulista ainda tinha muita polícia, com algumas dezenas de gatos pingados decidindo que lado dava para ir sem tomar bala ou gás da polícia. Apertei mais o passo, meu destino agora era ver o que estava acontecendo na Rua Peixoto Gomide.
Nosso colega que mora lá viu tudo de camarote. Uns manifestantes fizeram umas barricadas e aquilo lotou de polícia em questão de segundos. Foi tão rápido que quando finalmente cheguei na rua, não tinha mais nada, só a Cavalaria da PM de longe.
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Embora o clima ser uma merda, a Paulista seguia tão normal que nem parecia que tinha acontecido alguma coisa. Exausta, sentei perto do vão do MASP para fumar um cigarro. Nunca tinha corrido da polícia na minha vida.
Recebia informações do meu editor, do Larozza e dos meus colegas. Jogaram bomba de gás no metrô Consolação, botaram fogo em um ônibus na Rua Bahia e o bicho pegou pra quem foi pro lado dos Jardins. Tudo isso. Comecei a andar de volta para a Consolação e consegui pegar uma concentração às 20:50 na frente da Estação Paulista. Todo mundo parecia bem puto, eu também estava puta pra caralho pelo fato de a manifestação não ter chegado na Paulista. Estava muito perto quando a polícia começou a brincar.
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Antes de encerrar os trabalhos, consegui encontrar o Heudes de novo para trocar uma ideia rápida sobre o que tinha rolado em apenas uma hora. “O ato foi grande e a polícia apareceu em massa, mas novamente a Polícia (…) intimidou a população com armas e muita repressão.”
“(O envelope) atrapalhou bastante, a manifestação não conseguia se mexer e ninguém conseguia entrar ou sair. Até eu não consegui entrar em uma hora,” explicou.
O próximo passo agora é o dia 16, no mesmo horário, na Praça do Ciclista. Depois da merda generalizada que rolou com a PM e a quantidade de gente puta da vida indo pra casa, botei fé nos caras: “dia 16 vai ser maior”.

sábado, 10 de janeiro de 2015

A rota para uma mudança climática imprevisível

carta maior
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Meio-Ambiente/A-rota-para-uma-mudanca-climatica-imprevisivel/3/32588


A rota para uma mudança climática imprevisível

No lugar das monoculturas industriais, precisamos de uma mudança para práticas agroecológicas que conservem a biodiversidade e garantam a biossegurança.


Vandana Shiva - Esquerda.net
Bioversity International/S. Landersz - Flickr
Os nossos atuais modos de produção e consumo, que começaram com a Revolução Industrial e se agravaram com o advento da agricultura industrial têm contribuído para ambas.
 
Se não forem tomadas medidas para reduzir as emissões de Gases de Efeito de Estufa (GEE), podemos experimentar um catastrófico aumento de 4°C na temperatura até ao final do século. Mas a mudança climática não causa apenas o aquecimento global. Ela está a intensificar as secas, inundações, ciclones e outros eventos climáticos extremos, como testemunhamos em diversas partes do mundo.
 
Nunca tínhamos ultrapassado as 280 ppm (partes por milhão) até à Revolução Industrial e os atuais níveis de CO2 (dióxido de carbono) ultrapassaram as 400 ppm. O óxido nitroso (N2O) e o metano são GEE, como o CO2, só que mais potentes. De acordo com o Relatório da Convenção sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), o N2O tem cerca de 300 vezes mais potencial para causar o aquecimento global do que o CO2, enquanto que o metano é em torno de 20 vezes mais forte.
 
As emissões de óxido nitroso e de metano aumentaram dramaticamente devido à agricultura industrial. O óxido nitroso é emitido através do uso de fertilizantes nitrogenados sintéticos e o metano é emitido a partir das atividades pecuárias que produzem leite, carne e ovos.
 
A Conferência da Organização das Nações Unidas de Leipzig sobre os Recursos Fitogenéticos, em 1995, avaliou que 75 por cento da biodiversidade do mundo havia desaparecido na agricultura devido à chamada Revolução Verde (programa da Fundação Rockefeller liderado pelo agrónomo norte-americano Norman Ernest Borlaug) e ao advento da agricultura industrial. O desaparecimento de polinizadores e organismos benéficos ao solo é outra dimensão da erosão da biodiversidade devido à agricultura industrial.
 
Mudanças climáticas, agricultura e biodiversidade estão intimamente ligadas. O avanço das monoculturas e o aumento no uso de fertilizantes químicos, combinados com a destruição de habitats, têm contribuído para a perda da biodiversidade, que faria o sequestro de gases de Efeito de Estufa.
 
Monoculturas químicas, mais vulneráveis ao fracasso no contexto de um clima instável, não são sistemas nos quais podemos confiar para garantir alimentos em tempos de incerteza. O processo de adaptação às alterações climáticas imprevisíveis requer diversidade em todos os níveis e, sistemas biodiversos não são apenas mais resistentes às mudanças climáticas, como também mais produtivos em termos de nutrição por hectare.
 
A humanidade estava informada e não adotou medidas destinadas a evitar às crises do clima e da biodiversidade. Na RIO-92, a comunidade internacional assinou dois acordos juridicamente vinculativos: as Convenções sobre o Clima e Biodiversidade; ambas baseadas no conhecimento das ciências ambientais e nos crescentes movimentos ecológicos. Um deles foi a resposta científica ao impacto da poluição dos combustíveis fósseis, o outro foi a resposta científica à erosão da biodiversidade devido à propagação de monoculturas industriais e químicas, bem como à poluição genética causada por organismos geneticamente modificados (OGM).
 
O Artigo 19.3 da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica prevê que as partes considerem a necessidade de um Protocolo que estabeleça procedimentos para a transferência, manipulação e uso de organismos vivos modificados (OVMs) resultantes da biotecnologia que possam ter um efeito adverso sobre a biodiversidade e seus componentes. Isto levou à implementação do Protocolo de Biossegurança.
 
A biossegurança cientificamente avalia o impacto dos organismos geneticamente modificados sobre o ambiente, a saúde pública e as condições socioeconómicas, garantindo a sustentabilidade social e ecológica de sistemas agrícolas e alimentares. Os sistemas baseados na agroecologia conservam a biodiversidade, aumentam a saúde e a nutrição por área de cultivo, garantem a segurança alimentar e aumentam a resiliência ao clima.
 
Mas, desde 1992, os grandes poluidores – a indústria de combustíveis fósseis e a indústria agroquímica (que é agora também a indústria da biotecnologia) – fizeram todo o possível para subverter os tratados ambientais internacionais sobre mudanças climáticas e biodiversidade, que são obrigatórios e baseados cientificamente. Porém, os seus ataques às ciências ambientais mantêm-se sem a necessária base científica e são absolutamente irresponsáveis, porque eles lançam-nos diretamente nos desastres e catástrofes climáticas enquanto impedem a realização de uma mudança, apesar de evidências científicas mostrarem que temos alternativas melhores e que funcionam.
 
Temos que nos afastar de uma agricultura industrial quimicamente-intensiva e do sistema alimentar global centralizado, baseado na produção de commodities, que contribui para as emissões. No lugar de uma biodiversidade destruída pelas monoculturas industriais, incluindo aquelas baseadas em sementes transgénicas, precisamos de uma mudança para práticas agroecológicas que conservem a biodiversidade e garantam a biossegurança. A transição para uma agricultura biodiversamente-intensiva e ecologicamente-intensiva aborda simultaneamente tanto a crise climática quanto a da biodiversidade, e, ao mesmo tempo, enfrenta a crise alimentar.
 
Embora a agricultura industrial seja um dos principais contribuidores para as mudanças climáticas e mais vulnerável a elas, há uma tentativa por parte da indústria da biotecnologia de usar a crise climática como uma oportunidade para expandir ainda mais o uso de OGMs e aprofundar o seu monopólio das sementes baseadas na biopirataria através de patentes, em detrimento das sementes resilientes ao clima que foram aprimoradas pelos agricultores ao longo de gerações.
 
Mas, como disse Einstein: “Nós não podemos resolver um problema com a mesma mentalidade que o criou”. Sistemas intensivos, centralizados, baseados na monocultura e em combustíveis fósseis, incluindo agricultura OGM, não são flexíveis. Eles não conseguem adaptar-se e evoluir. Precisamos de flexibilidade, resiliência e adaptação a uma nova realidade. Esta resiliência vem da diversidade. Esta diversidade de conhecimento, economia e política é o que eu chamo de Democracia da Terra.
 
A nossa vizinha, Caxemira, enfrentou uma tragédia este ano, assim como Uttarakhand, na Índia, viveu no ano passado. Quando a chuva de um dia possui cinco a seis vezes mais volume do que o normal, é um evento extremo. Isto é o que significa a mudança climática. Ela custou vidas, dizimou vilas, fazendas, estradas, pontes. As atividades humanas criaram desastres como o dilúvio na Caxemira. A ação humana é necessária para prevenir essas catástrofes climáticas. Não podemos ficar como espectadores mudos enquanto o paraíso da Índia na terra torna-se o “Paraíso Perdido”.
 
Artigo de Vandana Shiva* publicado em envolverde.com.br e originalmente na edição 217 da Eco21.
 
* Vandana Shiva é diretora executiva do Fundo Navdanya, física, ecofeminista e ativista ambiental.