fase
http://fase.org.br/pt/informe-se/noticias/david-harvey-critica-modelo-capitalista-de-urbanizacao/
David Harvey critica modelo capitalista de urbanização
Recentemente, o geógrafo britânico lançou seu novo livro no Brasil. Ele participou de conferência em PE e visitou o Movimento Ocupe Estelita
David Harvey: “As cidades devem ser para as necessidades das pessoas e não do capital” (Foto: Passarinho/UFPE)
David Harvey não visitava Pernambuco há 40 anos. Quase não reconheceu a capital Recife, onde esteve recentemente para ministrar a conferência “Economia Política da Urbanização: acumulação do capital e direito à cidade”. O modelo de urbanização no capitalismo foi o foco de sua fala no evento, que reuniu cerca de 1500 pessoas. O geógrafo britânico, considerado uma referência em dinâmica do capital e estudos territoriais, esteve no Brasil para o lançamento de seu novo livro “Para entender O Capital: Livros II e III”, um guia de leitura da obra de Karl Marx.
O professor de antropologia da Pós-Graduação da Universidade da Cidade de Nova York (The City University of New York – Cuny) explicou que o sistema capitalista defende o crescimento, mas que não é possível mantê-lo o tempo todo. Dessa maneira, surgem as dívidas, baseadas na promessa de se ter recursos no futuro. “Capitalismo, em vez de liberdade, é dominação”, afirmou Harvey. Para ele, é preciso inventar uma sociedade que não dependa do crescimento, mas sim da redistribuição da riqueza.
Auditório lotado com 1500 pessoas. (Foto: Evanildo Barbosa/FASE)
Harvey tem escrito sobre as mobilizações que surgiram, desde 2011, em diversas cidades do mundo, em contestação à dominação que as grandes empresas exercem sobre a produção do espaço, com seus impactos sobre a qualidade da vida urbana. “A urbanização planetária passou a ser o centro da reprodução do capital”, disse.
Durante a palestra, realizada no último dia 17, ele não deixou de analisar os protestos do ano passado no Brasil. Segundo o estudioso, eles foram fruto do descontentamento com o fato de as cidades não funcionarem para a maior parte da população. “As cidades devem ser para as necessidades das pessoas e não do capital”, defendeu. Harvey também salientou que houve explosões de descontentamento até mesmo em cidades como Paris e Londres, sendo preciso unir todas essas manifestações para gerar mudança.
David Harvey ao lado da equipe de organização do evento, da qual a FASE participou (Foto: UFPE)
A conferência foi promovida pela Editora Boitempo e pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com coordenação do Núcleo de Gestão Urbana e Políticas Públicas (Nugepp). Contou com o apoio da FASE, da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur) e da Comunidade Interdisciplinar de Ação Pesquisa e Aprendizagem (Ciapa). Além de visitar Recife, David Harvey esteve entre os dias 14 e 19 de novembro em debates gratuitos nas cidades de Brasília, Fortaleza, Curitiba e São Paulo.
Apoio ao Movimento Ocupe Estelita
“Eu escrevo sobre o direito à cidade, vocês o praticam. E isso é o mais importante”, declarou David Harvey em apoio ao Movimento Ocupe Estelita, que faz oposição, ao lado de outros movimentos urbanos de luta pelo direito à cidade, a um projeto imobiliário chamado “Novo Recife”. Ele visitou os armazéns do Cais José Estelita durante mais um dia de atividades do movimento. Lá foram realizados shows, debates sobre política, oficinas, projeção de filmes, exposições de fotografias, além de uma programação voltada para as crianças.
“Ocupar, resistir! “, gritaram os ativistas ao final da fala de Harvey (Foto: Ocupe Estelita/facebook)
“Vocês não têm o grande capital do seu lado, não têm as grandes corporações do seu lado. Então, a única madeira de defender o que vocês têm é indo para a rua com outras pessoas, unidas, realizando atividades culturais, se divertindo e fazendo política ao mesmo tempo”, garantiu Harvey.
O empreendimento “Novo Recife” pretende levantar 12 torres com até 40 andares ao longo da orla, numa região próxima ao centro histórico da capital pernambucana. “Opor-se a esse tipo de desenvolvimento é opor-se ao Capital. Eu creio que em certo momento temos que nos tornar anticapitalistas e construirmos um tipo alternativo de sociedade, baseada em relações humanas diferentes e em diferentes estruturas sociais”, reforçou o geógrafo. E completou: “Creio que os tipos de solidariedade que podem ser construídas valem a pena por si só, porque vivemos numa cidade que é cada vez mais individualista, mas quando trabalhamos juntos a experiência é muito mais satisfatória”.
“Recife, cidade roubada”
O Movimento Ocupe Estelita acaba de lançar um vídeo em que denuncia o “Novo Recife”. De acordo com a produção, as irregularidades começaram desde o leilão do terreno, em 2008. O documentário destaca também que o projeto não contou com estudos de impacto ambiental e de vizinhança.
O filme é narrado por Irandhir Santos, ator pernambucano de destaque no cinema e na TV, e conta com o rapper Criolo na trilha sonora. Traz ainda entrevistas que citam as velhas práticas do empreendimento, como a apropriação de dinheiro público em prol de interesses privados e a realização de obras que aprofundam desigualdades sociais. “Nem tudo que é novo é bom. Nem tudo que é novo é novo”, diz a chamada.
Estamos acostumados ao discurso ambientalista genralizado pela mídia e pela consciência coletiva. Mas importa reconhecer que restringir a ecologia ao ambientalismo é incidir em grave reducionismo. Não basta uma produção de baixo carbono mas mantendo a mesma atitude de exploração irresponsável dos bens e serviços da natureza. Seria como limar os dentes de um lobo com a ilusão de tirar a ferocidade dele. Sua ferocidade reside em sua natureza e não nos dentes. Algo semelhante ocorre com o nosso sistema industrialista, produtivista e consumista. É de sua natureza tratar a Terra como um balcão de mercadorias a serem colocadas no mercado. Temos que superar esta visão caso quisermos alcançar um outro paradigma de relação para com a Terra e assim sustar um processo que nos pode levar a um abismo.
Estamos cansados de meio-ambiente. Queremos o ambiente inteiro, vale dizer, uma visão sistêmica do sitema-Terra, do sistema-vida e do sistema-civilização humana, constituindo um grande todo, feito de redes de inerdependências, complementações e reciprocidades.
Com razão a Carta da Terra tende a substituir meio-ambiente por comunidade de vida pois a moderna biologia e cosmologia nos ensinam que todos os seres vivos são portadores do mesmo código genético de base – os vinte aminoácidos e as quatro bases fosfatadas – desde a bactéria mais originária surgida há 3,8 bilhões de anos, passando pelas grandes florestas, os dinossauros, os colibris e chegando a nós. A combinação diferenciada desses aminoácidos com as bases fosfatadas origina a diversidade dos seres vivos. O resultado desta constatação é que um laço de parentesco une todos os viventes, formando, de fato uma comunidade de vida a ser “cuidada com compreensão, compaixão e amor”(Carta da Terra, n. I, 2). O que Francisco de Assis intuía em sua mística cósmica, chamando a todos os seres com o doce nome de irmãos e irmãs, nós o sabemos por um experiento científico.
Entre esses seres vivos ressalta o planeta Terra. A partir dos anos 70 do século passado se firmou, em grande parte da comunidade científica, primeiro a hipótese e a partir de 2001 a teoria de que a Terra não somente possui vida sobre ela. Ela mesma é viva, chamada por seu formulador principal James Lovelock e no Brasil por José Lutzenberger de Gaia, um dos nomes da mitologia grega para a Terra viva. Ela combina o químico, o físico, o ecológico e antropológico de forma tão sutil que sempre se torna capaz de produzir e reproduzir vida. Em razão desta constatação a própria ONU em 22 de abril de 2009 numa famosa sessão geral aprovou por unamidade chamar a Terra de Mãe Terra, Magna Mater e Pachamama. Vale dizer, ela é um super Ente vivo, complexo, por vezes, aos nossos olhos, contraditório (faz conviver a ordem com a desordem) mas sempre geradora de todos os seres, nas suas mais distintas ordens, especialmente é gestadora dos seres vivos, maxime, dos seres humanos, homens e mulheres.
Acresce ainda este dado que segundo o bioquímico e divulgador de assuntos científicos Isaac Asimov, é o grande legado das viagens espaciais: a unicidade da Terra e da Humanidade. Lá de fora, das naves espaciais e da Lua, diz ele e o confirmaram os astronautas, não há diferença entre ser humano e Terra. Ambos formam uma única entidade. Em outras palavras, o ser humano, dotado de inteligência, de cuidado e de amor resulta de um momento avançado e altamente complexo da própria Terra. Esta evoluiu a tal ponto que começou a sentir, a pensar, a amar, a cuidar e a venerar, como já acenava o grande cantador e poeta argentino indígena Athaulpa Yupanqui. Eis que irrompeu o ser humano no cenário deste minúsculo planeta Terra. Por isso, diz-se que homem se deriva de humusa: terra boa e fértil; ou adamah em hebraico bíblico: o filho e a filha da terra arável e fecunda.
Todo esse processo da gestação da vida seria impossível se não existisse todo o substrato físico-químico (a escala de Medeneleiev) que se formou no coração das grandes estrelas vermalhas, há bilhões de anos, que explodindo, lançaram tais elementos em todas as direções, criando as galáxias, as estrelas, os planetas, a Terra e nós mesmos. Portanto, esta parte que parece inerte, também pertence à vida, porque sem ela, ontem como hoje, a vida e a humana seriam impossíveis.
A sustentabilidade –categoria central desta visão – é tudo o que se ordena a manter a existência de todos os seres especialmente os seres vivos e nossa cultura sobre o planeta.
O que concluimos deste rápido percurso? Devemos mudar nosso olhar sobre a Terra, a natureza e sobre nós mesmos. Ela é nossa grande mãe que como nossas mães merece respeito e veneração. Quer dizer, conhecer e respeitar seus ritmos e ciclos, sua capacidade de reprodução, não devastá-la como temos feito desde o advento da tecnociência e do espírito antropocentrista que pensa que ela só tem valor na medida em que nos é útil. Mas ela não precisa de nós. Nós precisamos dela.
Esse paradigma está chegando ao seu limite, porque a Mãe Terra está dando sinais inequívocos de estar extenuada e doente. Ou reinventamos outra forma de atender nossas necessidades vitais na relação com a Terra ou ela, que é viva, poderá não nos querer mais sobre seu solo.
Assumir este novo olhar e esta nova prática é, para mim, o grande nó e o desafio decisivo da questão ecológica atual.
Leonardo Boff é autor do livreto com DVD As quatro ecologias: a ambiental, a social, a mental e a integral, Mar de Idéias, Rio 2011.