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sábado, 7 de março de 2015

Água: a falência do sistema e o espírito bandeirante

carta maior
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Meio-Ambiente/agua-a-falencia-do-sistema-e-o-espirito-bandeirante/3/33001


Água: a falência do sistema e o espírito bandeirante

As irregularidades são tantas que ninguém sabe quanto de água se retira em São Paulo. E tem gente que ainda acha que o problema é a falta de chuvas...


Najar Tubino
Mídia Ninja / Flickr
Essa discussão, que no Brasil, a mídia chama de crise hídrica, é muito mais complicada e envolve o próprio modelo econômico adotado, além da incompetência local, no caso de São Paulo, com um sistema de gestão pífio e um sistema de fiscalização ridículo. A questão: a chuva não vai resolver o problema, nem do sistema Cantareira, nem Alto Tietê, nem na Bacia do Piracicaba, Capivari e Jundiaí, assim como não resolverá a questão dos reservatórios das hidrelétricas. Primeiro ponto: o lago da represa de Ilha Solteira, que é a terceira maior do país – produz 3.444 MW, localizado na fronteira entre SP e MS, está SECO, assim como o da represa de Três Marias.
 
No levantamento do ONS sobre o estado das represas, do dia 2 de março, a média para a região Sudeste e Centro-Oeste era de 20,97% da capacidade. As principais represas estavam na média de 13%, isso inclui a de Furnas. Na região Nordeste a situação é idêntica: Sobradinho estava com 18,21% e Três Marias com 18,36%. As regiões Sul e Norte é que estão em melhores condições- Tucuruí com 40,3% e Passo Real com 43,15%. As chuvas do nordeste estão abaixo da média como era previsto. A seca entra no quarto ano nos estados do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Isso na prática é o seguinte: 248 municípios com racionamento de água ou sem fornecimento. O Ceará ainda mantém 176 municípios, de um total de 184, em estado de emergência. Em Pernambuco são 116 dos 173 municípios.
 
Quanta água é captada?
 
Em São Paulo as chuvas foram acima da média em fevereiro, embora o Sistema Cantareira tenha recolhido água apenas para completar o primeiro volume morto – acima de 18% ele completa o segundo volume morto. Mas as previsões de março são de chuvas menos intensas. E, depois, começa o período com menor probabilidade de chover. O Dia 30 de abril é definitivo: o governo estadual vai definir se corta a água de indústrias, agricultores e demais usuários. Antes disso o espírito bandeirante aflorou. É tamanha a quantidade de irregularidades que ocorrem com a captação de água no estado – oficialmente mantém 35,4 mil pontos de captação de água, acrescentando que em 2014 concederam mais 5.471 outorgas. E o Departamento de Água e Energia Elétrica tem 271 técnicos para fiscalizar todo o estado.
 
Não vou tratar da lista dos 500 clientes da Sabesp está em discussão. Vamos ver a situação da Bacia do Alto Tietê, que abastece parte da região metropolitana de SP, incluindo municípios como Suzano, Poá, Ferraz de Vasconcelos e parte da zona leste da capital. Municípios como Salesópolis e Mogi das Cruzes concentram o cinturão verde do estado. Qual a situação da agricultura: mais de 80% dos agricultores que captam água para irrigar suas plantações – que são no regime de agronegócio, embora de verduras e legumes – estão irregulares.
 
Quer dizer, ninguém sabe quanto eles captam. Mas eles são a parte menor nesta questão. O Comitê da Bacia do Alto Tietê vai começar a cobrar dos usuários a partir desse ano. Isso já ocorre em outras bacias espalhadas pelo Brasil, desde 2001. O próprio Comitê, que é o responsável – onde participam usuários, sociedade civil e o poder público - definiu pela cobrança em 2012. A questão mais importante é a seguinte: são 2,5 mil usuários que captam água diretamente, envolve desde empresa que vendem água, tipo carro-pipa, hotéis, condomínios e indústrias.
 
Cobrança começa apenas em 2015
 
A Agência Nacional de Água é quem faz o recolhimento desta taxa, cujo objetivo único é investir na recuperação da bacia hidrográfica. No caso dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí – de domínio público federal – a taxa é recolhida desde 2006. Até 2013, a ANA repassou para a Fundação Agências das Bacias do PCJ R$150 milhões. Em todo o país, que inclui rios como São Francisco, Paraíba do Sul e outros, foram recolhidos em 2013 R$234 milhões. São Paulo recebeu R$40 milhões. No Alto Tietê a previsão é que haverá um recolhimento na ordem de R$24 milhões este ano, de empresas como Gerdau, Multipapéis, NGK, Melhoramentos, Kimberly Clark- todas localizadas em Mogi das Cruzes, além da Suzano Papel e Celulose, Clariant e Itaquareia. No Consórcio da Bacia do PCJ participam 43 prefeituras e 27 empresas, entre elas, Petrobras, Unilever, Rhodia, Ypê, responsáveis por 90% do consumo da região.
 
O presidente da Fiesp, Paulo Skaf diz que 70% das empresas fazem reúso da água. Já o diretor de Meio Ambiente da mesma entidade, Nelson Pereira dos Reis, disse que 60 mil empresas serão atingidas pela falta de água na Grande São Paulo e Campinas, responsáveis por 1,5 milhão de empregos na área industrial. A saída é óbvia: investimentos na abertura de poços artesianos. Em 2012, a Fundação Brasileira de Desenvolvimento Sustentável apresentou um relatório sobre o setor privado e os recursos renováveis. Em São Paulo, 41,2% da água é usada pela agricultura, 32% para abastecimento público e 26,8% pela indústria.
 
Consumo industrial no meio urbano
 
Citava metas de redução do consumo de água pela indústria e listava os maiores consumidores: alimentos e bebidas, indústria têxtil, mineração, siderurgia, papel e celulose, petróleo e derivados químicos. Uma das integrantes da lista dos clientes da Sabesp que pagam tarifa promocional é a Viscofan, da área de papel e celulose. A produção de papel fino gasta um milhão de litros por tonelada de papel – no caso do sulfite são 700 mil litros por tonelada. Uma indústria têxtil também está na lista: o tingimento de tecido consome 150 mil litros por tonelada e o preparo do linho 40 mil litros. Para fazer polipropileno, base química para milhares de produtos são gastos 230 mil litros por tonelada.
 
Recentemente o prefeito de Campinas insistiu com a Sabesp para fazer um sobrevoo sobre o rio Atibaia porque a diferença no desnível do rio era muito acentuada. Constataram o que todo mundo sabe – furto de água. Agora, numa situação como a atual, chega-se a seguinte conclusão: ninguém sabe quanto de água se retira dos rios, riachos, aquíferos em São Paulo, tal o nível de irregularidades constatadas. Um trecho do documento lançado recentemente na capital paulista pela Aliança pela Água:
 
“- Não existem dados para afirmar que o ciclo de estiagem esteja acabando, a seca pode continuar e até se intensificar ao longo deste ano. Com a falta de água o individualismo e a violência tendem a prevalecer. O vácuo alimenta o alarmismo e o pânico, dificultando ainda mais a garantia dos direitos e a saúde dos cidadãos nesta iminente calamidade. O esforço para enfrentar o colapso deverá ser coletivo e exigirá um longo período de sacrifícios por parte da população. E transparência e diálogo com os diversos setores da sociedade.”
 
Panorama mundial - mais consumo e menos água
 
Qual o panorama no mundo sobre a escassez, desperdício, poluição da água? Em fevereiro a ONU lançou dois relatórios sobre o tema. No primeiro sobre o aumento de 40% no consumo de água até 2030, mas com um adendo importante: a redução na vazão dos principais rios do mundo em 25% - em alguns meses do ano eles não chegarão a sua foz. Mais importante: 48 países deverão ser enquadrados na categoria com escassez ou falta de água no mesmo período, envolvendo uma população de quase três bilhões de pessoas – lógico que Índia e China estão entre eles. Pior: 80% da água no mundo não é coletada, nem tratada. Nos países em desenvolvimento 70% dos resíduos industriais não são tratados. Morrem por ano no mundo 1,5 milhão de crianças menores de cinco anos por doenças decorrentes do suprimento de água contaminada – as chamadas doenças diarréicas.
 
O relatório também cita um fato comprovado desde 1970, em regiões que começaram a enfrentar problemas de seca. O volume de chuvas, desde então, tem diminuído nestas mesmas regiões em pelo menos 20%. A degradação da terra, a desertificação e a seca atingem 1,5 bilhão de pessoas no planeta. Houve uma perda de 24 bilhões de toneladas de solo fértil nos últimos anos, uma área comparada à zona agriculturável dos Estados Unidos. Sem contar que mais de 200 milhões de toneladas de esgotos são jogados em rios, córregos e no mar.
 
Exemplo bandeirante
 
Uma pesquisa realizada pela UNESP em 54 riachos da região de São José do Rio Preto constatou que no período de 2003-2013 em 80% deles houve diminuição do volume de água e perda da qualidade do ambiente por assoreamento e deposição de areia nos leitos. Diz a pesquisadora Lilian Casatti:
 
“- Nós sabíamos que haveria uma perda de qualidade ambiental, mas não imaginávamos que ela seria tão grave em tão pouco tempo”.
 
Na região dos sistemas que abastecem a maior metrópole da América Latina existem dois milhões de construções irregulares e um complexo industrial altamente poluidor e consumidor de água, além de uma população de 25 milhões. O espírito bandeirante busca o milagre na porta do inferno.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Contra a crise hídrica, as cisternas verticais

op
http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/contra-a-crise-hidrica-uma-cisterna-vertical/


Contra a crise hídrica, as cisternas verticais

Cistena-Montagem
Experimento revela: é possível captar e armazenar água das chuvas, dispondo de apenas meio metro quadrado. Sociedade busca alternativas, governo paulista continua omitindo-se
Por QSocial
Um novo sistema vertical de captação e armazenamento de água de chuva foi inaugurado neste mês em uma casa na Lapa, na zona oeste de São Paulo. Ele chega como alternativa a quem quer captar a água da chuva ou de outras fontes, mas não tem espaço para cisternas tradicionais. Modular, ele pode ser adaptado às mais diferentes condições e combinado com outras formas de reuso e tratamento de água.
Cisterna 1 (Large)Inspirado no projeto do arquiteto Mano Mattos, o modelo desenvolvido pelos também arquitetos Uli Zens e João Pedro David, do Incriatório, armazena 320 litros e ocupa menos de meio metro quadrado. A água é captada da calha, passa por um filtro e separa a água inicial e as folhas. “É uma solução de baixo impacto para enfrentar a crise da água e adequada para empresas, casas e prédios”, afirma Zens.
A água captada no sistema terá vários usos: limpar o quintal e as áreas internas da casa e aguar plantas da casa e também da praça localizada em frente, entre outros. O próximo passo será a ampliação do projeto, que permitirá o tratamento da água com o uso de plantas, um processo chamado de biorremediação, ampliando, assim, as possibilidades de uso da água.
Especializado em manejo de água e vegetação, o arquiteto alemão diz que seu “objetivo é trazer mais uma alternativa para quem quer economizar e, principalmente, contribuir para uma nova cultura da água”.  Ele acrescenta que este sistema específico mostra que construções já existentes podem ser adaptadas para enfrentar a falta d’água, que deve se agravar ainda mais.
arte casa
“Nessa casa, fizemos adaptações, como instalar novas calhas e construir um pequeno muro para dar suporte aos tubos. Mas as novas construções já podem incluir essas inovações, que serão cada vez mais necessárias na fase de projeto e, assim, reduzir os custos futuros”, enfatiza o arquiteto.
O sistema, que ganhou régua e boia que marcam a quantidade de água, segue o básico das cisternas já existentes, explica Zens. No projeto, foi usado um filtro importado, canos, tintas especiais, tubos e conexões de PVC, que podem ser encontrados em lojas de materiais de construção.
Cisterna 2 (Large)
Um diferencial  do modelo é que ele pode ser integrado ao estilo da construção.  Um sistema instalado _similar ao da foto_, incluindo projeto, filtro, materiais, mão de obra especializada e garantia, sai em torno de R$ 9.000.
Quem quiser se aventurar sozinho pode seguir o tutorial do especialista Edson Urbano, do Sempre Sustentável. Para orçar o sistema adaptado pelo Incriatório, os e-mails são uli@incriatorio.com e joaopedro@incriatorio.com , e o telefone é 11 2935- 0867.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Fritos, sujos e mal pagos

carta maior
http://cartamaior.com.br/?/Especial/Charlie-um-incendio-chamado-seculo-21/Fritos-sujos-e-mal-pagos-/187/32679


Fritos, sujos e mal pagos

O calor em 2014 foi capaz de aquecer em mais de meio grau um caldeirão com 1,3 quatrilhão de litros de água. Estamos falando da superfície dos cinco oceanos.

por: Saul Leblon 

Arquivo

Quantas bombas nucleares seriam necessárias para elevar em meio grau  a temperatura  dos oceanos que  recobrem uma área equivalente a 71% da superfície da Terra?

Estamos falando de uma panela de água salgada com 357 milhões de km2, profundidade média de 3.870 metros (pode chegar a 11 quilômetros nos abismos, as fossas oceânicas).

Seja qual for a resposta, essa guerra já aconteceu.

No ano passado, a temperatura no planeta atingiu níveis sem precedentes nos registros  históricos desde 1880, coligidos pela agencia espacial norte-americana, a NASA.

Na superfície do mar ela ficou justamente 0,57%  grau acima da média do século passado.

Insista-se:  vivemos sob um bombardeio de calor capaz de aquecer em mais de meio grau um caldeirão com cerca de 1,3 quatrilhão de litros de água salgada.

Na terra, o aquecimento deu um salto ainda maior: um grau acima, na mesma base de comparação.

Um comunicado da direção do Instituto Goddard de Estudos Espaciais, vinculado à NASA, não deixa muitas dúvidas quanto a dimensão estrutural desse bombardeio sem estrondo,  por isso mesmo ainda mais ardiloso e fatal: ‘Este é o mais recente de uma série de anos quentes, de uma série de décadas quentes.  Se um ano isoladamente pode ser afetado por padrões climáticos caóticos, as tendências de longo prazo podem ser atribuídas à mudança climática, dominada, agora, pelas emissões humanas de gases do efeito estufa”.

A referência comparativa a 1880 ilude.

Na verdade, a água da panela sofreu seu principal processo de aquecimento em um intervalo de tempo mais curto e mais recente, evidenciando uma aceleração cumulativa do bombardeio metafórico. 

Se hoje a Terra está 0,8% mais quente do que em 1880, o fato é que o termômetro climático se mexeu com mais celeridade sobretudo nas últimas três décadas.

Com exceção de 1998, os 10 anos mais quentes de que se tem registro ocorreram depois de 2000.

 A espiral progressiva dá ao recorde de 2014 a dimensão de um alarme estridente que lideranças à direta  e à esquerda fingem não ouvir.

As bombas da insanidade sistêmica estão explodindo em velocidade cada vez maior na ‘panela’,  ainda que a percepção de quem está dentro seja vaga e episódica.

A referência ao sapo cozido em sua própria tolerância é conhecida mas válida: jogado em água fervente ele reage e salta em busca da vida; cozido em fogo baixo o distraído não reage ao martírio incremental, até que a água borbulhe a 100º.

Aí será tarde demais para saltar em busca da vida.

Os dados da equação climática sugerem que a humanidade aproxima-se dessa segunda hipótese no timmimg para refrear as causas do aquecimento global.

Não é força de expressão.

Os números da contagem progressiva oferecidos há poucos dias pela NASA sequer provocaram bocejos nos sapos dirigentes responsáveis pelo caldeirão em banho-maria avançado.

Tudo se passa como se o tempo fosse um aliado, quando a novidade é que deixou de sê-lo há centenas de folhas do calendário.

A sorte da humanidade equilibra-se em  uma estreita pinguela de uma  década e meia, se tanto, é o que já se disse mais de uma vez neste mesmo espaço.

Não é um exercício de alarmismo por tentativa e erro.

É o consenso, ou pelo menos a quase unanimidade do que enxerga a ciência.

Uma década e meia seria o tempo disponível para limar divergências, pactuar metas, dividir  cotas  e iniciar,  por volta de 2020,  um corte de 40% a 70% no volume de emissões de gases de efeito estufa, a ser concluído até 2050.

A base  de referência seriam as emissões de 2010.

Detalhe: aquilo que se preconiza como imperativo para as próximas três décadas destoa brutalmente da tendência registrada nas três anteriores.

As emissões no período recente, como reiterou a NASA no comunicado sobre o recorde de 2014, só fizeram crescer, em degraus robustos.

A redução heroica projetada agora marcaria a derradeira chance de se evitar que a temperatura média no planeta aumente mais de 2 graus Celsius até o final deste século.

Os pesquisadores –exceto a turma financiada pelo partido republicano dos EUA--   advertem que qualquer escorregão além disso adicionaria um roteador endiabrado à dinâmica dos eventos extremos, anulando o esforço de readaptação da atividade humana no planeta.

O sapo, então, mesmo consciente do fim, não teria mais alternativas, emparedado entre o caldeirão e a brasa.

No final de 2015, um novo protocolo do clima –em substituição ao falido ‘Kioto’-- será definido na reunião do IPCC, em Paris.

É justo nutrir esperanças de que alguma decisão relevante saia de um fórum dominado pelos mesmos interesses, a mesma lógica, responsáveis por terem jogado a humanidade no atual precipício entre a deflação recessiva e a estagnação secular?

Dito de outra forma: em um mundo submetido a forças que consideram irrelevante coordenar ações e expectativas para afrontar a natureza intrinsecamente desequilibrada dos mercados, que espaço existe para o planejamento global da equação climática?

Mais que a indiferença diante da fatalidade, a prostração revela que a resposta à encruzilhada ambiental transcende o ambientalismo.

Ressalvadas honrosas exceções, ao menos no Brasil, o ambientalismo  sempre resistiu em associar a sua luta à  superação da ordem econômica que está na raiz de seus desafios.

Guardadas as particularidades locais e individuais, tudo se passa como se a solução fosse extrair ‘água limpa da merda’ –sem alterar as bases da imensa cloaca sistêmica que devasta e empesteia os recursos que formam as bases da vida na Terra (leia ‘Extrair água da merda. Uma forma de erradicar a pobreza?’; nesta pág)

Exemplo dessa contradição é o ambientalismo cevado agora na alfafa chique das propostas do decrescimento econeoliberal.

O que temos aqui? Uma confortável simbiose entre arrocho fiscal e vapores sustentáveis. Ou seja, água da merda para os pobres; Perrier para as gargantas seletas.

A classe média semi-culta e semi-informada se inebria nas tertúlias na Casa do Saber, enquanto a operosa eficiência dos livres mercados acrescenta bombas de calor nos cinco oceanos.

Não vamos além da sorte do sapo por aí.

Neomalthusianos tingidos de verde deveriam admitir, a bem da verdade, que a bandeira do 'decrescimento’  já se encontra em vigor em sociedades díspares, da África subsaariana às economias europeias às voltas com fome,  deflação e desemprego, sob o torniquete de Merkel & FMI e interesses neocoloniais.

Os desdobramentos em marcha podem ser evocados como os albores de uma aurora sustentável?

A ascensão fulminante do Syriza numa Grécia espremida em um  torniquete mais devastador que o da Depressão  dos anos 30 nos EUA (conforme Joseph Stiglitz, no El Pais); assim como a liderança do Podemos, na Espanha –campeã europeia no quesito desigualdade (1% detém riqueza superior a dos 70% mais pobres) sugerem que não.

 Quase 1/3 da humanidade ainda depende da queima de lenha ou carvão (leia-se, derrubada de florestas) para preparar uma simples refeição.

Cerca de 850 milhões de seres humanos vivem no calabouço da fome crônica.
 
Outro tanto moureja a terra nua dispondo tão somente da força muscular para extrair seu sustento.

Mais decrescimento que isso?

Para escapar à lógica do fim do mundo  –se é que ainda há tempo—  é   preciso incorporar as circunstâncias da história realmente existente à equação sustentável.

Nas últimas décadas, a desregulação imposta a todos os níveis da atividade humana agravou os contornos da crise social e ambiental.

Se os fundos  especulativos conseguem dobrar o rendimento dos detentores da riqueza financeira em  prazos curtíssimos, todos os demais setores da economia capitalista terão que perseguir idêntica voragem. Do contrário, acionistas insaciáveis fritarão o fígado de gestores empedernidos numa grande fogueira de ações nas Bolsas de Valores.

A dominância financeira impõe há mais de 40 anos uma  aceleração predatória em todas as latitudes da terra e dos mares; do macro ao micro.

 Acelerar, no léxico dos mercados, significa desregular. O quê? Tudo: da proteção ao trabalho à exploração das riquezas naturais.

A turma do decrescimento  considera  ambientalmente indesejável  buscar o pleno emprego no século 21.

Topa uma reforma tributária capaz de tornar o emprego parcial  --ou até mesmo sazonal-- apenas uma das âncoras da sociedade regida pela universalização da cidadania plena?

Na verdade, Kalecki e Keynes, depois de Marx, já haviam farejado a implicância dos finos com uma situação de mercado de trabalho aquecido, capaz  de ampliar o poder de barganha da classe assalariada.

Ou não será o desmonte desses alicerces (fim do seguro desemprego, por exemplo) um dos motivos da satisfação dos endinheirados com a agenda Levy no Brasil?

A alavanca que move o jogo do fim do mundo  não é a dos direitos sociais –entre eles o direito ao emprego digno--  mas, sim, os direitos de saque sobre a riqueza disponível, exercido pela  papelaria  rentista, cujo montante supera US$ 600 trilhões: 10 vezes a soma do PIB planetário.

A impossibilidade física entre uma coisa e outra, entre os limites do planeta e a ganância rentista, esse o moinho satânico do nosso tempo.

 Nada disso isenta a negligência da esquerda diante do colapso que a reunião de dezembro em Paris prenuncia.

As linhas da urgência ambiental e a da prostração política  indicam que a batalha da mitigação, por ora,  foi perdida.

Resta saber se a esquerda será capaz de recuperar o tempo perdido para dar à humanidade uma segunda  chance, para além da sua metamorfose em um sapo cozido na desconcertante conivência com o caos.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A agricultura integrada, uma forma de vencer a mudança climática

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/538899-a-agricultura-integrada-uma-forma-de-vencer-a-mudanca-climatica


A agricultura integrada, uma forma de vencer a mudança climática

A propriedade de meio hectare que Sukomal Mandal tem na maior floresta de mangue do mundo é um oásis de prosperidade, apesar de o mar estar tragando lentamente a terra. Mandal, de 50 anos, e sua família vivem na localidade indiana de Biswanathpur, em Sundarbans, a floresta de mangue de dez mil quilômetros quadrados que Índia e Bangladesh compartilham no delta da baía de Bengala.
A reportagem é de Manipadma Jena, publicada pelo portal Envolverde/IPS, 09-01-2015.
Neste ponto álgido de biodiversidade, declarado Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), não restam dúvidas sobre o impacto da elevação do nível do mar em razão do aquecimento global. Os estudos mostram que a região perdeu anualmente cerca de 5,5 quilômetros quadrados entre 2001 e 2009, em comparação com os quatro quilômetros quadrados perdidos por ano nas quatro décadas anteriores.
A população local, de aproximadamente quatro milhões de pessoas, sofre inúmeras crises, entre elas a falta de águapotável, uma das necessidades mais urgentes das comunidades de subsistência que vivem e trabalham há gerações na rede de ilhas que compõem Sundarbans.
A invasão do mar, bem como ciclones, tempestades, terras de cultivo prejudicadas pela erosão e perdas nas costas das ilhas, inundações fluviais devido às chuvas concentradas, água salobra que escorre pela terra e o aumento da salinidade do solo aprofundaram a pobreza desses povos, onde três em cada dez pessoas vivem abaixo da linha da pobreza.
Os habitantes, como Mandal e sua mulher Alpana, tiveram que inovar para se manterem vivos. E para isso adotaram métodos novos, como a agricultura integrada, para enfrentar a mudança climática.
Um estudo realizado em novembro de 2014 pela União Internacional para a Conservação da Natureza alerta que aescassez de água doce está chegando ao ponto crítico na parte indiana de Sundarbans, que ocupa uma grande parte do Estado de Bengala Ocidental. Segundo Sugata Hazra, oceanógrafo e especialista em mudança climática da Universidade de Jadavpur, em Kolkata, a região precisa com urgência de uma injeção de 507 metros cúbicos de água doce por dia para manter seus ecossistemas e meios de vida.
O aumento da salinidade prejudicou as terras de cultivo em 52 das cerca de 102 ilhas habitadas no lado indiano da floresta. Um observatório na ilha de Sagar, a maior delas, que sofre a pior parte das consequências climáticas, registrou elevação média do nível do mar de 17,8 milímetros por ano entre 2001 e 2009, bem mais do que os 3,14 milímetros anuais na década anterior. Não é fácil chegar ao fim do mês nessas condições.
Vários grupos de agricultores do bloco administrativo Patharpratima, no distrito Sul 24-Parganas, disseram à IPS que cada família tem pelo menos um integrante que emigrou, cujo dinheiro que enviam é cada vez mais necessário. Outros, comoSukomal e sua mulher, recorrem a métodos de agricultura integrada.
“O sistema de agricultura integrada praticamente reproduz a natureza”, explicou Debabrata Guchhait, um capacitador daSociedade de Bem-Estar Srijan Indraprastha (ISWS), que trabalha pela segurança alimentar da comunidade. A técnica “integra a fazenda e a casa”, por isso os resíduos de um âmbito da vida se transformam em insumo para o outro. Oscultivos básicos se mesclam com outras variedades de plantas e hortaliças, enquanto o gado, patos e galinhas fazem parte do ciclo autossustentável.
O processo “reduz os custos e riscos da exploração agrícola ao recorrer ao orgânico e à diversificação das fontes de rendimento e renda, ao mesmo tempo em que garante a nutrição”, ressaltou Guchhait à IPS. As galinhas se alimentam de folhas verdes, grãos quebrados e milho. Seus resíduos são usados como adubo orgânico junto com esterco das três vacas e duas cabras de Mandal. O resto dos dejetos das aves é drenado para um tanque onde alimenta os peixes.
A escavação do pequeno tanque para coletar água durante a monção anual, que normalmente proporciona cerca de 1.700 milímetros de chuva, foi de grande ajuda para a família. Na superfície de uma “bigha”, uma unidade de medida equivalente a 0,133 hectare, Mandal colhe 480 quilos de arroz com casca, 70 quilos a mais do que antes, e suficientes para cobrir o consumo mensal de sua família.
Agora que tem água fresca suficiente, Mandal consegue duas colheitas de arroz anualmente, com um total de 900 quilos em um ano sem desastres naturais. Depois de atender as necessidades alimentares da família, ganha cerca de US$ 400 com a venda do que sobra. Com as hortaliças que cultiva na mesma superfície ganha o dobro, já que planta um cultivo misto de mais de 25 variedades ao longo do ano. Com o uso de cada centímetro de espaço livre, a família aumentou sua capacidade de recuperação diante da mudança climática e dos padrões climáticos.
E o transbordamento da lagoa também tem seus benefícios. “Nossa família de quatro pessoas consome três quilos de pescado por semana e vende alguns”, disse Alpana à IPS. “De nossos 890 membros em 17 aldeias, apenas 15 adotaram a agricultura integrada”, afirmou Palash Sinha, que dirige a ISWS no bloco Patharpratima. “Uma das principais razões é o alto custo de 12 mil rúpias”, cerca de US$ 200, que “custam as áreas agrícolas integradas”, acrescentou.
Apesar da assistência técnica e do apoio monetário que recebem de organizações da comunidade, muitos agricultores resistem a fazer empréstimo de cinco mil rúpias para esse fim. “Para que as parcelas funcionem com eficácia é necessário ao menos 0,072 hectares”, ou 720 metros quadrados, pontuou Sinha. “Muitos agricultores nem mesmo possuem essa quantidade de terra”, destacou.
Outros associam o método integrado com um trabalho mais árduo. “Em um bom ano, a renda das fazendas integradas podem ser 200% maiores do que a das convencionais, mas o fator trabalho é 700% superior”, apontou Samiran Jana, um agricultor integrado no povoado de Indrapastha.
A ajuda estatal aos agricultores marginais que esperam transformar suas pequenas áreas é extremamente baixa, afirmam os especialistas. Por exemplo, o Plano de Ação de Bengala Ocidental para a Mudança Climática, que inclui a promessa de reforçar a assistência, ainda não foi implantado.
Os especialistas recomendam que neste país, onde 56% da população ativa se dedica à agricultura e onde 80% são pequenos produtores ou camponeses sem terras, sejam feitos esforços concertados em nível federal para proteger os milhões de pessoas cujos meios de vida estão ligados aos padrões mutantes do clima.

sábado, 10 de janeiro de 2015

A rota para uma mudança climática imprevisível

carta maior
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Meio-Ambiente/A-rota-para-uma-mudanca-climatica-imprevisivel/3/32588


A rota para uma mudança climática imprevisível

No lugar das monoculturas industriais, precisamos de uma mudança para práticas agroecológicas que conservem a biodiversidade e garantam a biossegurança.


Vandana Shiva - Esquerda.net
Bioversity International/S. Landersz - Flickr
Os nossos atuais modos de produção e consumo, que começaram com a Revolução Industrial e se agravaram com o advento da agricultura industrial têm contribuído para ambas.
 
Se não forem tomadas medidas para reduzir as emissões de Gases de Efeito de Estufa (GEE), podemos experimentar um catastrófico aumento de 4°C na temperatura até ao final do século. Mas a mudança climática não causa apenas o aquecimento global. Ela está a intensificar as secas, inundações, ciclones e outros eventos climáticos extremos, como testemunhamos em diversas partes do mundo.
 
Nunca tínhamos ultrapassado as 280 ppm (partes por milhão) até à Revolução Industrial e os atuais níveis de CO2 (dióxido de carbono) ultrapassaram as 400 ppm. O óxido nitroso (N2O) e o metano são GEE, como o CO2, só que mais potentes. De acordo com o Relatório da Convenção sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), o N2O tem cerca de 300 vezes mais potencial para causar o aquecimento global do que o CO2, enquanto que o metano é em torno de 20 vezes mais forte.
 
As emissões de óxido nitroso e de metano aumentaram dramaticamente devido à agricultura industrial. O óxido nitroso é emitido através do uso de fertilizantes nitrogenados sintéticos e o metano é emitido a partir das atividades pecuárias que produzem leite, carne e ovos.
 
A Conferência da Organização das Nações Unidas de Leipzig sobre os Recursos Fitogenéticos, em 1995, avaliou que 75 por cento da biodiversidade do mundo havia desaparecido na agricultura devido à chamada Revolução Verde (programa da Fundação Rockefeller liderado pelo agrónomo norte-americano Norman Ernest Borlaug) e ao advento da agricultura industrial. O desaparecimento de polinizadores e organismos benéficos ao solo é outra dimensão da erosão da biodiversidade devido à agricultura industrial.
 
Mudanças climáticas, agricultura e biodiversidade estão intimamente ligadas. O avanço das monoculturas e o aumento no uso de fertilizantes químicos, combinados com a destruição de habitats, têm contribuído para a perda da biodiversidade, que faria o sequestro de gases de Efeito de Estufa.
 
Monoculturas químicas, mais vulneráveis ao fracasso no contexto de um clima instável, não são sistemas nos quais podemos confiar para garantir alimentos em tempos de incerteza. O processo de adaptação às alterações climáticas imprevisíveis requer diversidade em todos os níveis e, sistemas biodiversos não são apenas mais resistentes às mudanças climáticas, como também mais produtivos em termos de nutrição por hectare.
 
A humanidade estava informada e não adotou medidas destinadas a evitar às crises do clima e da biodiversidade. Na RIO-92, a comunidade internacional assinou dois acordos juridicamente vinculativos: as Convenções sobre o Clima e Biodiversidade; ambas baseadas no conhecimento das ciências ambientais e nos crescentes movimentos ecológicos. Um deles foi a resposta científica ao impacto da poluição dos combustíveis fósseis, o outro foi a resposta científica à erosão da biodiversidade devido à propagação de monoculturas industriais e químicas, bem como à poluição genética causada por organismos geneticamente modificados (OGM).
 
O Artigo 19.3 da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica prevê que as partes considerem a necessidade de um Protocolo que estabeleça procedimentos para a transferência, manipulação e uso de organismos vivos modificados (OVMs) resultantes da biotecnologia que possam ter um efeito adverso sobre a biodiversidade e seus componentes. Isto levou à implementação do Protocolo de Biossegurança.
 
A biossegurança cientificamente avalia o impacto dos organismos geneticamente modificados sobre o ambiente, a saúde pública e as condições socioeconómicas, garantindo a sustentabilidade social e ecológica de sistemas agrícolas e alimentares. Os sistemas baseados na agroecologia conservam a biodiversidade, aumentam a saúde e a nutrição por área de cultivo, garantem a segurança alimentar e aumentam a resiliência ao clima.
 
Mas, desde 1992, os grandes poluidores – a indústria de combustíveis fósseis e a indústria agroquímica (que é agora também a indústria da biotecnologia) – fizeram todo o possível para subverter os tratados ambientais internacionais sobre mudanças climáticas e biodiversidade, que são obrigatórios e baseados cientificamente. Porém, os seus ataques às ciências ambientais mantêm-se sem a necessária base científica e são absolutamente irresponsáveis, porque eles lançam-nos diretamente nos desastres e catástrofes climáticas enquanto impedem a realização de uma mudança, apesar de evidências científicas mostrarem que temos alternativas melhores e que funcionam.
 
Temos que nos afastar de uma agricultura industrial quimicamente-intensiva e do sistema alimentar global centralizado, baseado na produção de commodities, que contribui para as emissões. No lugar de uma biodiversidade destruída pelas monoculturas industriais, incluindo aquelas baseadas em sementes transgénicas, precisamos de uma mudança para práticas agroecológicas que conservem a biodiversidade e garantam a biossegurança. A transição para uma agricultura biodiversamente-intensiva e ecologicamente-intensiva aborda simultaneamente tanto a crise climática quanto a da biodiversidade, e, ao mesmo tempo, enfrenta a crise alimentar.
 
Embora a agricultura industrial seja um dos principais contribuidores para as mudanças climáticas e mais vulnerável a elas, há uma tentativa por parte da indústria da biotecnologia de usar a crise climática como uma oportunidade para expandir ainda mais o uso de OGMs e aprofundar o seu monopólio das sementes baseadas na biopirataria através de patentes, em detrimento das sementes resilientes ao clima que foram aprimoradas pelos agricultores ao longo de gerações.
 
Mas, como disse Einstein: “Nós não podemos resolver um problema com a mesma mentalidade que o criou”. Sistemas intensivos, centralizados, baseados na monocultura e em combustíveis fósseis, incluindo agricultura OGM, não são flexíveis. Eles não conseguem adaptar-se e evoluir. Precisamos de flexibilidade, resiliência e adaptação a uma nova realidade. Esta resiliência vem da diversidade. Esta diversidade de conhecimento, economia e política é o que eu chamo de Democracia da Terra.
 
A nossa vizinha, Caxemira, enfrentou uma tragédia este ano, assim como Uttarakhand, na Índia, viveu no ano passado. Quando a chuva de um dia possui cinco a seis vezes mais volume do que o normal, é um evento extremo. Isto é o que significa a mudança climática. Ela custou vidas, dizimou vilas, fazendas, estradas, pontes. As atividades humanas criaram desastres como o dilúvio na Caxemira. A ação humana é necessária para prevenir essas catástrofes climáticas. Não podemos ficar como espectadores mudos enquanto o paraíso da Índia na terra torna-se o “Paraíso Perdido”.
 
Artigo de Vandana Shiva* publicado em envolverde.com.br e originalmente na edição 217 da Eco21.
 
* Vandana Shiva é diretora executiva do Fundo Navdanya, física, ecofeminista e ativista ambiental.