Mostrando postagens com marcador ambiente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ambiente. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A sustentabilidade dos mananciais: a ética do uso da água

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/539218-a-sustentabilidade-dos-mananciais-a-etica-do-uso-da-agua


A sustentabilidade dos mananciais: a ética do uso da água

"Sem uma visão sistêmica do ciclo das águas e sem uma ética do uso da água que implique o cuidado dos mananciais, comprometeremos sempre mais o abastecimento humano, a dessedentação dos animais e os demais usos", escreveRoberto Malvezzi, graduado em Teologia pelo Instituto Teológico de São Paulo e atuante na CPT, em artigo publicado pelaComissão Pastoral da Terra - CPT, 20-01-2015.
Eis o artigo.
Quando a lei brasileira de recursos hídricos 9.433/97 incorporou em seu texto o uso prioritário da água para consumo humano e a dessedentação dos animais (Art. 10, Inc. III), ela estava assimilando uma escala de valores. Quando falamos em valores - e numa hierarquia de valores -, então estamos falando de ética.
Esses princípios já existiam a partir de uma reflexão global (Princípios de Dublin), quando setores da humanidade deram-se conta que estávamos mergulhando numa crise da água. Ela faz parte de uma crise civilizacional maior, que sobre usa os bens naturais acima do que a natureza pode oferecer, ou num ritmo mais veloz do que ela é capaz de repor. É o que se chama de insustentabilidade.
Mas, há um vácuo na ética da água no Brasil. Não existe na lei brasileira de recursos hídricos nenhum parágrafo que normatize o cuidado com os mananciais, a não ser um princípio geral da referida lei que afirma ser necessária a gestão dos recursos hídricos integrada à gestão ambiental (Art. 30, Inc. III).
Em 2004, quando a Campanha da Fraternidade da CNBB questionou esse vazio, a resposta das autoridades é que essa dimensão estava implícita em outras leis ambientais, sobretudo no Código Florestal. Porém, o Código foi modificado.
Sem a vegetação, a penetração da água que forma os lençóis freáticos se reduz de 60% para 20%. Sabemos que é o rio aéreo da Amazônia que abastece todo sul e sudeste brasileiros, dependendo da evapotranspiração da floresta. Entretanto, quem pretende ter água nessa região, tem que respeitar também os parâmetros ecológicos locais para que ela esteja ao alcance. Logo, a compra de áreas de preservação na Amazônia em troca do desmatamento em nível local não soluciona o problema da recarga dos aquíferos. É preciso preservar a Amazônia e a vegetação local.
Os dois principais programas do governo federal para a água são no sentido de expandir o consumo. O Água para Todosvisa realizar o valor primordial no uso da água que é o abastecimento humano. O Oferta de Água visa expandir seu uso econômico. Temos ainda investimentos pelo PAC em abastecimento humano, com o objetivo de ampliar os serviços de saneamento básico. Entretanto, não temos nenhum programa relevante em termos de proteção dos mananciais.
Sem uma visão sistêmica do ciclo das águas e sem uma ética do uso da água que implique o cuidado dos mananciais, comprometeremos sempre mais o abastecimento humano, a dessedentação dos animais e os demais usos.
O óbvio ulula diante de nossos olhos.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Empresa brasileira vai vender garrafa com água retirada do ar da Amazônia por R$ 20

amaz
http://amazonia.org.br/2015/01/empresa-brasileira-vai-vender-garrafa-com-agua-retirada-do-ar-da-amazonia-por-r-20/?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Not%EDcias+da+Amaz%F4nia+-+21+de+janeiro+de+2015


Empresa brasileira vai vender garrafa com água retirada do ar da Amazônia por R$ 20

Empresários vão investir R$ 30 milhões em marca voltada para o mercado europeu; estratégia é lucrar 100 milhões de euros
Empresários esperam lucros de 100 milhões de euros em dez anos
O ‘raio gourmetizador’, como brincam os usuários das redes sociais com a moda de produtos cercados por cuidados mercadológicos – o bom e velho segmento premium – terá a partir de março uma pequena, mas já ilustre participante: uma marca de água mineral retirada não de debaixo da terra, mas da atmosfera da floresta amazônica.
Uma garrafinha da Ô Amazon Air Water, de 250 mls, terá preço sugerido de aproximadamente R$ 20. Ou, para ser preciso, A 6,5. Isso porque 95% da produção terá como destino o mercado europeu, onde será distribuído para 200 pontos de venda de luxo, como o hotel Four Seasons de Lisboa.
Os 5% restantes serão reservadas para o consumidor brasileiro, vendidas em um e-commerce da marca e por uma flagship store, ou loja conceito, prevista para ser anunciada em julho e, certamente, ocupando um endereço chique da cidade de São Paulo, como o Jardim Europa por exemplo.
Um grupo formado por quatro empresários brasileiros é responsável pela ideia. Já experimentados no empreendedorismo, eles aportaram R$ 20 milhões na empresa A2BR, que abriga a marca Ô Amazon. Outros R$ 10 milhões estão previstos para os próximos 12 meses, dinheiro destinado para o início da produção, marcado para a segunda quinzena de março, estratégias de marketing e comunicação, além do subsídio ao mercado na primeira leva a ser exportada. “Nós estamos com uma estratégia de abordagem de mercado onde a gente financia a primeira compra de nosso cliente, porque a gente seleciona quem a gente quer que revenda nosso produto”, conta o sócio Cal Junior, que em dez anos estima um retorno de 100 milhões de euros, em lucros.
Instalados em uma casa com cara de sede de startup na cidade de São Paulo, os quatro empresários, na verdade, mantém um parque fabril de 1,75 milhão metros quadrados às margens do rio Negro, na Amazônia. É lá, no espaço concedido por 30 anos pela prefeitura de Barcelos, que eles instalaram duas máquinas que se parecem com grandes geradores de eletricidade, e que serão responsáveis por condensar a umidade do ar da floresta, fazendo a água passar por filtros e equipamentos de mineralização.
O processo, para que o leitor possa compreender, é similar ao do aparelho de ar-condicionado, que desumidifica o ar e, em seguida, devolve o ar refrigerado, eliminando a água. Nesse caso, como o objetivo não é a climatização do ambiente, e sim gerar água potável, toda o potencial da máquina está voltado para o desempenho de condensação e, posteriores filtragem, mineralização e engarrafamento. Uma simples máquina, feita com exclusividade na China, é capaz de produzir 5 mil litros de água por dia.
“As pessoas nos perguntam qual será o impacto da produção na Amazônia e eu digo que é zero. É como tirar um copo de água de uma piscina olímpica, sendo que durante a noite, a natureza trata de restituir a perda”, afirma Ricardo Rozgrin, sócio e diretor financeiro do negócio. “Um dos nossos sócios, o Paulo Ferreira (filho de Nuno Ferreira, dono da empresa de logística internacional homônima), conheceu a tecnologia em uma transação logística e começamos a estudar esse mercado. No início, a gente queria produzir máquinas e vender no varejo. Só que nosso foco foi redefinido”, lembra Cal Junior, que promete apenas 6 milhões de garrafas por ano. “Vai ser a água de luxo mais exclusiva do mundo.”
Com embalagem de vidro e uma tampa com resina de amido de milho, repleta de sementes, a proposta é que o cliente depois plante a tampa e compartilhe a informação com a marca e demais consumidores por meio de um aplicativo para smartphones. Nosso projeto é totalmente sustentável, da embalagem de vidro à energia elétrica da fábrica, 100% solar”, afirma Cal.
O mercado, por sua vez, parece ter gostado da proposta do quarteto. Tanto que a fábrica que ainda não produziu uma gota de água sequer já é disputada por investidores. Dois gandes grupos de private equity já fizeram propostas pelo controle da empresa, mas foram descartados. Neste momento, entretanto, eles acertam as base de um contrato para ceder 15% da companhia para dois investidores físicos, que pagarão R$ 45 milhões pelas cotas, fazendo da empresa sem faturamento ou produto à venda, um empreendimento orçado na casa dos R$ 300 milhões.
Fonte: O Estado de São Paulo

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Catadora relembra 'massacre de autoestima' em lixão de Gramacho

bbc
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/01/141202_gramacho_fernanda



Catadora relembra 'massacre de autoestima' em lixão de Gramacho

  • 19 janeiro 2015
"Difícil não foi conviver com o lixo, difícil foi não virar lixo." Assim Gloria Cristina dos Santos resume o que enfrentou durante os 14 anos em que trabalhou como catadora no antigo aterro sanitário de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.
Aos 39, ela lembra com lucidez os momentos mais marcantes de uma época de sofrimento e superação.
Sua trajetória começa aos 11 anos, quando ela pisou no lixão pela primeira vez para levar a marmita da mãe, a primeira da família a trabalhar no aterro.
Dali, ela só sairia aos 25 anos, para integrar a diretoria da primeira cooperativa de catadores de lixo de Jardim Gramacho. Com o fechamento do lixão, em junho de 2012 – então o maior da América Latina -, Gloria se destacou como uma das lideranças entre os catadores e hoje está à frente do Polo de Reciclagem de Gramacho, que emprega antigos catadores – iniciativa pioneira no Brasil.
Gloria no polo de reciclagem
Catadores cooperativados trabalham em polo de reciclagem, inaugurado após fechamento de lixão
Mas até chegar aqui, ela percorreu uma jornada árdua, pontuada por uma infância roubada pelo trabalho no lixão, uma adolescência conturbada, dois acidentes graves e uma depressão pós-parto que culminou com uma tentativa de suicídio aos 17 anos.
A BBC foi a Gramacho para saber como os catadores estão vivendo dois anos após o fechamento do aterro. A história de Gloria e de seus colegas será retratada no documentário de rádio Your Rubbish, our Hope, que será transmitido em inglês no Serviço Mundial da BBC no dia 21 de janeiro.

Parque de diversões

Nas memórias inocentes da Gloria ainda menina, o lixão era "colorido" e um "parque de diversões ambulante", onde era farta a oferta de bonecas e tantos outros brinquedos.
Com o passar dos anos, o parque foi ficando mais parecido com um trem fantasma diante das frequentes cenas de "filme de terror".
Até o início dos anos 90, o lixo domiciliar descarregado em Gramacho era misturado com hospitalar. Frequentemente os catadores sujavam-se com sangue, espetavam-se com agulhas e deparavam-se com corpos, fetos e animais mortos.
"Furei meu pé com agulha e fique seis meses sem andar. Tive muita sorte de não ter me contaminado com HIV", diz.
Este não seria seu único acidente. Pouco antes de completar 15 anos, ela foi aterrada por uma montanha de lixo despejada por uma carreta. Foi resgatada pelos colegas após passar dez minutos sob quilos de resíduos.
"Foi a pior adolescência que alguém pode ter. Ser adolescente já é muito ruim. Mas ser adolescente e catadora era bem pior. A sensação de injustiça, de fracasso era constante. O massacre de autoestima era diário. Eu sempre quis escapar do lixão e é isso que me move até hoje".

Depressão e superação

Mesmo com todas as dificuldades, Gloria conseguiu frequentar a escola. Sua rotina era pesada. Ela subia a "rampa" (termo usado pelos ex-catadores para se referir ao lixão) às 4h30 e trabalhava até às 13h. Duas horas depois estava na sala de aula e de lá só saía às 19h.
"Às vezes não conseguia tirar o cheiro da mão e conforme suava o cheiro ficava mais forte. Eu não conseguia me enturmar na escola. As meninas da minha idade tinham problema com cabelo, com a unha da moda. Eu eu era do aterro, uma extraterrestre. Nunca contei a ninguém que trabalhava no lixão. Por muito tempo, só me sentia segura ao chegar em Gramacho".
Uma gravidez precoce aos 17 anos agravou o dilema de se aceitar como catadora. Três meses após dar à luz sua filha Lorraine, Gloria tentou o suicídio. Ela revela que sua terapia para a depressão pós-parto veio dos livros recuperados no lixão.
"Meus livros me salvaram. Todo mundo quer escapar do lixão, resta saber que maneira usar. A grande maioria optou por drogas, eu optei por livros. Era minha maneira de escape, de fugir, viver outras vidas. Era o que me dava barato, segurava a onda".
Na estante, ela exibe obras de Umberto Eco, Gabriel García Márquez, Fyodor Dostoyevsky, Machado de Assis, Erico Veríssimo, entre outros. Todos recuperados do chorume.

Polo de reciclagem

O fortalecimento do mercado de recicláveis no Brasil a partir dos anos 90 lhe estimulou a continuar trabalhando como catadora. Durante anos ela recolheu do lixão papel branco e papelão e chegou arrecadar R$3 mil por mês.
Quando o aterro foi fechado, semanas antes da conferência Rio+20, da ONU, Gloria integrou à comissão que negociou uma indenização individual de R$14 mil para os 1,7 mil catadores e financiamento para a construção do primeiro estágio do Polo de Reciclagem de Gramacho.
O local, inaugurado em novembro de 2013, emprega apenas 50 dos 500 catadores que na época do fechamento manifestaram o desejo de continuar trabalhando com reciclagem.
Isso se deve às dificuldades que Gloria enfrenta para captar recicláveis - papel, plástico, papelão, metal, vidro, entre outros, - já que o município de Duque de Caxias, do qual Gramacho é distrito, não realiza coleta seletiva domiciliar.
catadoras no polo de reciclagem
Catadores enfrentam escasses de recicláveis desde encerramento do lixão de Gramacho
"A gente se orgulha do polo, mas não funciona como deveria. Abastecimento é um problema diário. Todo dia eu tenho que ligar para empresas pedindo doações de recicláveis, entrar em editais, planejar o transporte. É frustrante, mas não minimiza o tamanho da nossa conquista. Conseguimos fazer o governo olhar e se responsabilizar por toda aquela situação", avalia.
O polo recebe cerca de 50 toneladas de recicláveis por mês, oriundas de parcerias com empresas privadas da Baixada Fluninense e condomínios residenciais. A quantia é ínfima se comparada as 200 toneladas/dia que os catadores recolhiam no lixão.
A escassez afeta diretamente o bolso do catadores, que sentiram uma queda brusca nos rendimentos – de R$ 2,5 mil/mês em média para apenas R$ 500.
O antigo aterro de Gramacho funcionou durante 34 anos em uma área de 1,3 milhão de m², à beira da Baía de Guanabara. O local recebia cerca de 9,5 mil toneladas diárias de resíduos de sete municípios fluminenses, incluindo os do Rio de Janeiro.
Mesmo com todos os obstáculos, Gloria mantém o otimismo.
"O polo é meu sonho, minha missão de vida, é a transição que todo lixão deveria ter. Eu tenho a necessidade de que isso dê certo para finalizar minha história e saber que eu escapei do lixão".

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Como ter água nas torneiras

oi
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed834_como_ter_agua_nas_torneiras



Como ter água nas torneiras

Por Ulisses Capozzoli em 20/01/2015 na edição 834
 
Se o Estado está se revelando incapaz de desempenhar uma de suas funções básicas, a de fornecer com regularidade água potável para a sociedade, e se a mídia tem se mostrado passiva em relação ao descaso, certamente o cidadão deve tomar iniciativas para assegurar o mínimo de bem-estar a que tem direito.
Essa pode ser, agora, a única possibilidade de algum encaminhamento promissor. E a medida mais prática para isso ?? a menos que as chuvas cessem completamente ?? é a construção de reservatórios para estocagem das águas que, ausentes das torneiras, fluem perdidas para o leito de rios, riachos e ribeirões, mas, antes disso, inundam vias públicas e moradias produzindo cenas comparáveis à de um país rural. Ainda que o Brasil tenha concluído, a duras penas, sua urbanização nos anos 1970.
Mas, para substituir mais uma das funções do Estado ? o que já ocorre com parte da segurança pública, assistência social, educação e saúde, entre outras ? o cidadão deve ter direito a um mínimo de ressarcimento, sugestão que pode incomodar administradores públicos ? por aqui quase sempre referidos como “autoridades” ? pelo que pode parecer ousadia despropositada.
A questão, no entanto, é simples e, se tomada em conjunto, pode ao menos amenizar a situação que se encaminha para um ponto crítico, talvez insustentável, por ausência de planejamento, iniciativa responsável e visão de uns poucos palmos além do nariz.
Para ter mais representatividade ? e, neste sentido, estimular a opinião pública ? a ideia de que o Estado deva arcar com parte dos custos de iniciativas de cada cidadão talvez devesse ser encaminhada por uma entidade pública: uma das numerosas ONGs já organizadas para fazer o que não é feito pelo Estado, eventualmente uma entidade de classe de engenheiros, arquitetos, advogados. Ou mesmo jornalistas, entre outras categorias profissionais.
Essa iniciativa poderia reunir principalmente moradores de casas, ainda que não dispense o envolvimento coletivo de moradores de edifícios. Caixas de captação de águas pluviais, com um registro formal ? não necessariamente burocrático, caso contrário não iria funcionar ? deveriam ter sua execução feita a partir de pequenos projetos que, apresentados nas administrações de uma metrópole como São Paulo, renderia, por exemplo, descontos absolutamente procedentes no Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU).
Críticos apressados podem disparar que isso não faz sentido, porque o IPTU é cobrado pelas prefeituras enquanto, no caso de São Paulo, é uma empresa mista, a Sabesp, quem deveria assegurar o abastecimento de água.
Nenhum desafio para a capacidade de computação que caracteriza o século 21. As prefeituras comunicariam o Estado de quanto foi o desconto no imposto pela construção das caixas de captação de águas pluviais e o Estado transferiria esse valor aos cofres municipais.
Por que o argumento de que o Estado deve arcar com essas despesas, ao menos em parte, ainda que o justo seja a totalidade?
Impostos não justificados
Por que o Estado recolhe tributos para, entre outras obrigações, assegurar o abastecimento de água potável, mas, como não fez isso, o resultado é a crise das torneiras vazias que deve piorar com o fim das chuvas de verão. Mas também porque a captação de águas fluviais para um uso geral ? reservando-se a água tratada para consumo direto ? vai aliviar a pressão de demanda e, neste sentido, ao menos durante certo tempo, evitar investimentos pesados para captação de água rara e cada vez mais distante.
Parte da opinião pública, em especial a mais engajada do ponto de vista político-partidário, pode argumentar, com a estratégia típica da avestruz, que a falta de água se explica por um fenômeno da Natureza, a estiagem que compromete os reservatórios disponíveis. O argumento da estiagem não deixa de ser verdade, mas não é toda ela e isso é o que distingue radicalmente as coisas em situações como a que estamos vivendo.
É verdade, por exemplo, que as chuvas rarearam em 2014. Mas é verdade também que o processo de aquecimento global com mudanças climáticas em curso deveria ter sido levado em conta pelos administradores públicos. Especialmente o governo de um Estado com a importância estratégica de São Paulo para a economia e desenvolvimento do país.
Há décadas, e relatórios internos da própria Sabesp já preveniam para isso, o abastecimento hídrico de São Paulo é precário e exige medidas corajosas e lúcidas para ser ampliado, de forma a não deixar a população e a atividade econômica reféns de um fenômeno da Natureza.
Ainda não dominamos a Natureza, apesar das previsões temerárias de Francis Bacon, um dos pais da ciência moderna. E, se dominássemos, economistas que assessoram administradores públicos já teriam encontrado uma maneira de nos levar a situações piores que as criadas por fenômenos naturais.
Até onde pôde, o governador de São Paulo rejeitou a dimensão da crise hídrica da cidade de São Paulo e de boa parte do interior do Estado. E quando se referiu ao problema, sempre atribuiu a culpa à intemperança de São Pedro. Foi neste contexto que toda a mídia, em especial os jornais, com a obrigação de investigar questões de relevância social como o abastecimento de água, foi omissa, negligente, acomodada e, neste sentido, conivente com a desconversação do Palácio dos Bandeirantes.
Omissão da imprensa
Duas razões talvez possam explicar ao menos parte desse comportamento: um deles diz respeito à própria desorientação da mídia tradicional, que perdeu o rumo com o impacto/interação/fusão com conteúdos online de natureza apressada e superficial. Neste sentido, um processo que alguém já chamou de “juniorização” da imprensa também dá sua contribuição para piorar o que já estava ruim.
Em parte da imprensa, a arrogância substituiu a competência, a necessidade de investigar antes de opinar sobre tudo, especialmente sobre o que não se conhece o suficiente. Na rede digital a situação é, às vezes, exótica e se expressa, por exemplo, em grafias surpreendentes: a confusão entre sexta, sinônimo de um dia da semana, e cesta, objeto com que se transporta, por exemplo, compras na feira.
Outro calcanhar da mídia, em particular dos jornais, é o envolvimento/comprometimento com disputas político-partidárias de fundo ideológico, intolerante, provinciano e autoritário. Tão mais paroquial quanto mais pretensamente se procura negar.
A tendência nas redações, e já faz algum tempo que isso ocorre, é de ascensão via fidelização, submissão a padrões medíocres, inconsistentes e incompatíveis com o jornalismo de investigação: a reportagem bem feita, a história bem contada, com todos os ângulos possíveis de determinada situação. Com isso o jornalismo que se faz neste momento não apenas cava sob seus próprios pés como dá espaço para que omissões, de todos os tipos, ocorram. Fala-se e escreve-se sobre o óbvio e quando o óbvio já está consumado. Não se investiga, informa, denuncia, critica como forma de evitar o indesejável.
O jornalismo que já praticamos por aqui não existe mais, daí as surpresas com a sucessão de escândalos, omissões, negligências e patifarias de todos os estilos. Entre elas a crise da água e mesmo do fornecimento de energia elétrica.
O jornalismo deixou de ser crítico, analista, previdente, no sentido de se antecipar a certos fatos, e passou a sensacionalista. No caso da água, a situação deve ficar ainda mais difícil do que muita gente de boa fé está disposta a acreditar.
Um encontro, em novembro passado, reunindo 16 cientistas da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp), de que a imprensa sequer tomou conhecimento, produziu um documento perturbador, a “Carta de São Paulo” sobre a crise hídrica do Sudeste. Nessa síntese, pesquisadores de hidrologia e áreas afins expressam o temor de que a estiagem de 2014 pode ser o início de um novo ciclo e não uma ocorrência isolada, um mau humor passageiro de São Pedro, como temos sido convidados a acreditar.
Se for essa a realidade do futuro imediato ? e neste caso ninguém pode garantir tanto o sim quanto o não ? a situação pode ficar dramática o suficiente para produzir mudanças profundas na economia e na vida social do Sudeste, com reflexos em todo o país.
Preocupação estratégica
O que pode ocorrer não é coisa de futurismo, mas uma questão de natureza histórica, que só o tempo pode confirmar. Mas o interessa aqui é que, em termos estratégicos, caso do abastecimento de água, é preciso preparar-se para o pior, como forma de se assegurar o melhor.
E isso simplesmente não foi feito.
Foi neste contexto que o secretário de Recursos Hídricos, porta-voz do governo e otimista inveterado quanto à superação da crise, Mauro Arce, foi substituído, num golpe rápido e sem maiores explicações, por Benedito Braga, ex-presidente da Agência Nacional de Água (Ana) e presidente do Conselho Nacional de Água.
A mudança ocorreu no final do ano, em meio às correrias típicas da data. Um profissional na posição de um amador. E por que isso ocorreu com os fatos já consumados, o que significa dizer, com a crise já completamente instalada. Essa é uma das perguntas que os jornais deveriam ter feito.
Também as mudanças na direção da Sabesp ocorreram sob a pressão de uma tentativa proustiana de recuperar o tempo perdido com denegações de interesse eleitoral. Antes disso prevaleceram as prioridades das eleições de outubro. Ainda que, na Sabesp, a longa história da crise hídrica esteja para ser contada.
Uma edição especial de Scientific American Brasil, relativa à crise da água no Sudeste, nas bancas no final de janeiro com o título de “A Exaustão das Águas”, traz um levantamento amplo e completo dessa situação, a começar pela “Carta de São Paulo”. O que se pode ler ao longo da edição é um conjunto de desconfortos com o presente e de enorme e inédita preocupação com o futuro.
São Paulo deveria, há décadas, ter se preparado para o desafio do abastecimento de água, estimulando a reciclagem ou reúso, sensibilizando a população com campanhas educativas e também aproveitando as águas pluviais, agora a alternativa mais sensata para se amenizar a crise. A não ser, evidentemente, que as chuvas sejam ainda mais raras a partir do fim do verão e por isso insuficientes para recuperação dos reservatórios esvaziados até mesmo do que ficou conhecido como “volume morto”.
Se o pior temor dos cientistas que produziram a “Carta de São Paulo” se confirmar ? a partir de mudanças climáticas por trás do aquecimento global, mas também por destruição da Floresta Amazônica ? teremos um caso em que a realidade supera a ficção.
A destruição da Floresta Amazônica, talvez seja conveniente acrescentar, não é um desses casos de romantismo desarticulado, em que um conjunto disparatado de situações é considerado numa única equação com intenção de corroborar uma hipótese. O conhecimento climatológico disponível é mais que suficiente para explicar a formação de nuvens na Amazônia por efeito direto da floresta. O que ocorre em seguida é que ventos dominantes, confinados pelo paredão dos Andes, transportam essas nuvens até o Sudeste onde elas se precipitam sob a forma de chuva.
Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), particularmente o biogeoquímico Antonio Nobre, estão convencidos de uma conexão direta entre destruição da floresta e efeito nas chuvas do Sudeste.
Impacto da destruição de florestas
Mas a destruição das florestas é um processo que começou com a chegada de Cabral e seus marujos na costa do que é hoje a Bahia e, desde então, machados e depois motosserras não descansaram um único dia. Por tudo isso, a iniciativa óbvia, prática e preventiva de construção de reservatórios para captação de águas de chuva em todo o Sudeste, em especial na megalópole de São Paulo, é uma iniciativa óbvia e necessária.
E o Estado deve ser moralmente solidário com a população nessa iniciativa. Entre outras razões porque é o responsável legal por uma garantia que não cumpriu e, agora, é tarde demais para isso. A solução são iniciativas de emergência.
O esforço coletivo para aproveitamento das águas das chuvas, além de um ato de racionalidade, é também uma atitude de construção de maior coesão social, inclusive como maneira de enfrentar irresponsabilidades governamentais nas diferentes instâncias: municipal, estadual e também federal. Além disso, o que sobra são as passeatas e os protestos de sempre, que tendem a perder força e representatividade. E isso não apenas no caso da água, porque em relação à energia elétrica, a situação não é muito diferente.
A cada ano, burocraticamente, como se não fôssemos um país majoritariamente tropical, o governo federal decreta o “horário de verão”, com a justificativa de economia de energia. Mas, o sacrifício dos que saem da cama ainda com a noite escura, entre eles trabalhadores que vivem nas periferias e dependem de transportes abarrotados, não se justifica.
Quase sempre, na primeira trovoada, em inúmeros bairros, um transformador explode com a potência de uma banana de dinamite e a energia vai embora. É o que ocorre, por exemplo, no Sumarezinho, bairro paulistano tombado pelo patrimônio histórico, onde as interrupções no fornecimento de energia são, a cada ano, mais frequentes e duradouras. As luzes se apagam e o trabalho que deve ser feito na frente de um computador fica paralisado por horas a fio.
Quem paga por essas perdas? Ninguém paga. Aparentemente, ninguém ter qualquer coisa a ver com isso. Mas, no momento de reajuste de tarifas, uma multidão de interessados se manifesta com voz na mídia.
Exposição de doentes e idosos
Isso sem levar em conta as emergências em hospitais, moradores de edifícios com idade avançada que devem ser transportados de forma improvisada por parentes e vizinhos. Quando não ficam aprisionados em elevadores.
A justificativa de sempre é a queda de árvores. Mas nem sempre isso é real. O que ocorre de fato, em muitos casos, é uma infraestrutura sucateada, incapaz de dar conta do que se espera que possa dar conta.
Uma maneira prática e inteligente de se amenizar a crise de energia que agita os burocratas do governo é estimular a produção doméstica de energia, a partir de placas fotovoltaicas instaladas em residências.
Utopia? Na cidade de Phoenix, no Arizona (EUA), a oferta de energia elétrica produzida em domicílio já abriu uma guerra com as companhias tradicionais de distribuição. Em Phoenix há sobra de energia e os produtores domésticos descarregam o excesso na rede das companhias de distribuição, gerando atritos e insatisfações mútuas.
Por aqui, nem isso ocorre. E não ocorre por falta de iniciativa oficial, no sentido de se obter produção “em domicílio” de energia elétrica. Neste caso, os lobbies de produtoras e distribuidoras de energia não estão nem um pouco interessados em estratégias desse tipo. E os jornais são os veículos de divulgação desses lobbies. Nenhum questionamento, nenhuma postura crítica, nenhuma sugestão de mudança, de inovação ou do que quer que seja para alterar a situação.
Na ausência de reação crítica, o resultado é a construção de seguidas usinas hidrelétricas afetando terras indígenas, áreas de vida animal e vegetal únicas, investimentos pesados com encargos sociais e perturbações como a que ocorre, por exemplo, com a hidrelétrica de Belo Monte, no sul do Pará. Sem falar nos custos extras por acionamento de termelétricas, fontes altamente poluidoras e por isso mesmo indesejáveis de oferta de energia.
Mas nem assim estamos seguros em relação ao abastecimento. O Brasil dispõe do maior estoque de água doce do planeta, algo em torno de 12% e 14% de toda a água da Terra. Mas, com tudo isso, ainda nos ressentimos de água potável e de energia estável.
Um país atrasado, segundo o filósofo da ciência Mario Bunge, é um país de mentalidade atrasada. Se isso de fato for verdade, talvez as mudanças devam começar por cada um. E a construção de reservatórios para águas pluviais, com exigência de contrapartida do governo, poderia ser um primeiro passo.
Leia também
O apagão de São Paulo – Luciano Martins Costa

Fritos, sujos e mal pagos

carta maior
http://cartamaior.com.br/?/Especial/Charlie-um-incendio-chamado-seculo-21/Fritos-sujos-e-mal-pagos-/187/32679


Fritos, sujos e mal pagos

O calor em 2014 foi capaz de aquecer em mais de meio grau um caldeirão com 1,3 quatrilhão de litros de água. Estamos falando da superfície dos cinco oceanos.

por: Saul Leblon 

Arquivo

Quantas bombas nucleares seriam necessárias para elevar em meio grau  a temperatura  dos oceanos que  recobrem uma área equivalente a 71% da superfície da Terra?

Estamos falando de uma panela de água salgada com 357 milhões de km2, profundidade média de 3.870 metros (pode chegar a 11 quilômetros nos abismos, as fossas oceânicas).

Seja qual for a resposta, essa guerra já aconteceu.

No ano passado, a temperatura no planeta atingiu níveis sem precedentes nos registros  históricos desde 1880, coligidos pela agencia espacial norte-americana, a NASA.

Na superfície do mar ela ficou justamente 0,57%  grau acima da média do século passado.

Insista-se:  vivemos sob um bombardeio de calor capaz de aquecer em mais de meio grau um caldeirão com cerca de 1,3 quatrilhão de litros de água salgada.

Na terra, o aquecimento deu um salto ainda maior: um grau acima, na mesma base de comparação.

Um comunicado da direção do Instituto Goddard de Estudos Espaciais, vinculado à NASA, não deixa muitas dúvidas quanto a dimensão estrutural desse bombardeio sem estrondo,  por isso mesmo ainda mais ardiloso e fatal: ‘Este é o mais recente de uma série de anos quentes, de uma série de décadas quentes.  Se um ano isoladamente pode ser afetado por padrões climáticos caóticos, as tendências de longo prazo podem ser atribuídas à mudança climática, dominada, agora, pelas emissões humanas de gases do efeito estufa”.

A referência comparativa a 1880 ilude.

Na verdade, a água da panela sofreu seu principal processo de aquecimento em um intervalo de tempo mais curto e mais recente, evidenciando uma aceleração cumulativa do bombardeio metafórico. 

Se hoje a Terra está 0,8% mais quente do que em 1880, o fato é que o termômetro climático se mexeu com mais celeridade sobretudo nas últimas três décadas.

Com exceção de 1998, os 10 anos mais quentes de que se tem registro ocorreram depois de 2000.

 A espiral progressiva dá ao recorde de 2014 a dimensão de um alarme estridente que lideranças à direta  e à esquerda fingem não ouvir.

As bombas da insanidade sistêmica estão explodindo em velocidade cada vez maior na ‘panela’,  ainda que a percepção de quem está dentro seja vaga e episódica.

A referência ao sapo cozido em sua própria tolerância é conhecida mas válida: jogado em água fervente ele reage e salta em busca da vida; cozido em fogo baixo o distraído não reage ao martírio incremental, até que a água borbulhe a 100º.

Aí será tarde demais para saltar em busca da vida.

Os dados da equação climática sugerem que a humanidade aproxima-se dessa segunda hipótese no timmimg para refrear as causas do aquecimento global.

Não é força de expressão.

Os números da contagem progressiva oferecidos há poucos dias pela NASA sequer provocaram bocejos nos sapos dirigentes responsáveis pelo caldeirão em banho-maria avançado.

Tudo se passa como se o tempo fosse um aliado, quando a novidade é que deixou de sê-lo há centenas de folhas do calendário.

A sorte da humanidade equilibra-se em  uma estreita pinguela de uma  década e meia, se tanto, é o que já se disse mais de uma vez neste mesmo espaço.

Não é um exercício de alarmismo por tentativa e erro.

É o consenso, ou pelo menos a quase unanimidade do que enxerga a ciência.

Uma década e meia seria o tempo disponível para limar divergências, pactuar metas, dividir  cotas  e iniciar,  por volta de 2020,  um corte de 40% a 70% no volume de emissões de gases de efeito estufa, a ser concluído até 2050.

A base  de referência seriam as emissões de 2010.

Detalhe: aquilo que se preconiza como imperativo para as próximas três décadas destoa brutalmente da tendência registrada nas três anteriores.

As emissões no período recente, como reiterou a NASA no comunicado sobre o recorde de 2014, só fizeram crescer, em degraus robustos.

A redução heroica projetada agora marcaria a derradeira chance de se evitar que a temperatura média no planeta aumente mais de 2 graus Celsius até o final deste século.

Os pesquisadores –exceto a turma financiada pelo partido republicano dos EUA--   advertem que qualquer escorregão além disso adicionaria um roteador endiabrado à dinâmica dos eventos extremos, anulando o esforço de readaptação da atividade humana no planeta.

O sapo, então, mesmo consciente do fim, não teria mais alternativas, emparedado entre o caldeirão e a brasa.

No final de 2015, um novo protocolo do clima –em substituição ao falido ‘Kioto’-- será definido na reunião do IPCC, em Paris.

É justo nutrir esperanças de que alguma decisão relevante saia de um fórum dominado pelos mesmos interesses, a mesma lógica, responsáveis por terem jogado a humanidade no atual precipício entre a deflação recessiva e a estagnação secular?

Dito de outra forma: em um mundo submetido a forças que consideram irrelevante coordenar ações e expectativas para afrontar a natureza intrinsecamente desequilibrada dos mercados, que espaço existe para o planejamento global da equação climática?

Mais que a indiferença diante da fatalidade, a prostração revela que a resposta à encruzilhada ambiental transcende o ambientalismo.

Ressalvadas honrosas exceções, ao menos no Brasil, o ambientalismo  sempre resistiu em associar a sua luta à  superação da ordem econômica que está na raiz de seus desafios.

Guardadas as particularidades locais e individuais, tudo se passa como se a solução fosse extrair ‘água limpa da merda’ –sem alterar as bases da imensa cloaca sistêmica que devasta e empesteia os recursos que formam as bases da vida na Terra (leia ‘Extrair água da merda. Uma forma de erradicar a pobreza?’; nesta pág)

Exemplo dessa contradição é o ambientalismo cevado agora na alfafa chique das propostas do decrescimento econeoliberal.

O que temos aqui? Uma confortável simbiose entre arrocho fiscal e vapores sustentáveis. Ou seja, água da merda para os pobres; Perrier para as gargantas seletas.

A classe média semi-culta e semi-informada se inebria nas tertúlias na Casa do Saber, enquanto a operosa eficiência dos livres mercados acrescenta bombas de calor nos cinco oceanos.

Não vamos além da sorte do sapo por aí.

Neomalthusianos tingidos de verde deveriam admitir, a bem da verdade, que a bandeira do 'decrescimento’  já se encontra em vigor em sociedades díspares, da África subsaariana às economias europeias às voltas com fome,  deflação e desemprego, sob o torniquete de Merkel & FMI e interesses neocoloniais.

Os desdobramentos em marcha podem ser evocados como os albores de uma aurora sustentável?

A ascensão fulminante do Syriza numa Grécia espremida em um  torniquete mais devastador que o da Depressão  dos anos 30 nos EUA (conforme Joseph Stiglitz, no El Pais); assim como a liderança do Podemos, na Espanha –campeã europeia no quesito desigualdade (1% detém riqueza superior a dos 70% mais pobres) sugerem que não.

 Quase 1/3 da humanidade ainda depende da queima de lenha ou carvão (leia-se, derrubada de florestas) para preparar uma simples refeição.

Cerca de 850 milhões de seres humanos vivem no calabouço da fome crônica.
 
Outro tanto moureja a terra nua dispondo tão somente da força muscular para extrair seu sustento.

Mais decrescimento que isso?

Para escapar à lógica do fim do mundo  –se é que ainda há tempo—  é   preciso incorporar as circunstâncias da história realmente existente à equação sustentável.

Nas últimas décadas, a desregulação imposta a todos os níveis da atividade humana agravou os contornos da crise social e ambiental.

Se os fundos  especulativos conseguem dobrar o rendimento dos detentores da riqueza financeira em  prazos curtíssimos, todos os demais setores da economia capitalista terão que perseguir idêntica voragem. Do contrário, acionistas insaciáveis fritarão o fígado de gestores empedernidos numa grande fogueira de ações nas Bolsas de Valores.

A dominância financeira impõe há mais de 40 anos uma  aceleração predatória em todas as latitudes da terra e dos mares; do macro ao micro.

 Acelerar, no léxico dos mercados, significa desregular. O quê? Tudo: da proteção ao trabalho à exploração das riquezas naturais.

A turma do decrescimento  considera  ambientalmente indesejável  buscar o pleno emprego no século 21.

Topa uma reforma tributária capaz de tornar o emprego parcial  --ou até mesmo sazonal-- apenas uma das âncoras da sociedade regida pela universalização da cidadania plena?

Na verdade, Kalecki e Keynes, depois de Marx, já haviam farejado a implicância dos finos com uma situação de mercado de trabalho aquecido, capaz  de ampliar o poder de barganha da classe assalariada.

Ou não será o desmonte desses alicerces (fim do seguro desemprego, por exemplo) um dos motivos da satisfação dos endinheirados com a agenda Levy no Brasil?

A alavanca que move o jogo do fim do mundo  não é a dos direitos sociais –entre eles o direito ao emprego digno--  mas, sim, os direitos de saque sobre a riqueza disponível, exercido pela  papelaria  rentista, cujo montante supera US$ 600 trilhões: 10 vezes a soma do PIB planetário.

A impossibilidade física entre uma coisa e outra, entre os limites do planeta e a ganância rentista, esse o moinho satânico do nosso tempo.

 Nada disso isenta a negligência da esquerda diante do colapso que a reunião de dezembro em Paris prenuncia.

As linhas da urgência ambiental e a da prostração política  indicam que a batalha da mitigação, por ora,  foi perdida.

Resta saber se a esquerda será capaz de recuperar o tempo perdido para dar à humanidade uma segunda  chance, para além da sua metamorfose em um sapo cozido na desconcertante conivência com o caos.

PANDEMIA COVID-19 E DIREITOS HUMANOS NO BRASIL

PANDEMIA COVID-19 E DIREITOS HUMANOS NO BRASIL   A pandemia de Covid-19 que assola o mundo atualmente impacta com muita força ...