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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Desmatamento aumenta pelo quinto mês consecutivo, diz Imazon

eco
http://www.oeco.org.br/noticias/28879-desmatamento-aumenta-pelo-quinto-mes-consecutivo-diz-imazon



Desmatamento aumenta pelo quinto mês consecutivo, diz Imazon
((o))eco - 15/01/15

Os alertas de desmatamento apurados no período entre agosto e dezembro de 2014 mostram um padrão: são 5 meses seguidos de aumento, 4 deles com taxas acima de 100%. No contexto, o resultado de dezembro de 2014 foi o menos ruim: os dados da ONG Imazon apontam apontam 95 quilômetros quadrados de perda contra 56 em dezembro/2013, um crescimento de 70%. O Imazon faz monitoramento independente do desmatamento na Amazônia Legal.
Os aumentos foram: agosto, 136%; setembro, 290%; outubro, 247%; novembro, 467% (o maior pico); e dezembro, 70%, a menor taxa do período (veja gráfico acima). Agosto é o mês em que começa o ano-calendário de medição do desmatamento na Amazônia Legal, que vai até julho do ano seguinte, neste caso, 2015.
Ao todo, nesse período de 5 meses, a derrubada de floresta atingiu 1.373 quilômetros quadrados, contra 424 detectados no mesmo período anterior (agosto-dezembro/2013), uma subida de 224%.
Desmate por estados e municípios
Na divisão entre os estados, Mato Grosso e Pará se destacam. Juntos, eles respondem por cerca de 80% do total. O Mato Grosso representa 52% da perda de floresta (50 km²), seguido do Pará 27% (ou 26 km²), Roraima 12% (ou 11 km²) e Rondônia 9% (ou 8 km²).
A tabela abaixo mostra a área desmatada nos períodos agosto-dezembro/2013 e agosto-dezembro/2014. No acumulado destes últimos 5 meses, em termos de área absoluta desmatada, o Pará vence o Mato Grosso por um triz, 369 km2 contra 362 km2. Em compensação em percentual de aumento contra o mesmo período anterior, Mato Grosso está muito à frente, com 610% de crescimento contra 262% do Pará. O único estado que apresentou variação negativa foi Tocantins (veja tabela abaixo)
tabela-desmatamentoEvolução do desmatamento entre os Estados da Amazônia Legal de agosto de 2013 a dezembro de 2013 e agosto de 2014 a dezembro de 2014. Fonte: Imazon/SAD
Os municípios que aparecem na ranking dos 10 maiores desmatadores em dezembro foram responsáveis pela perda de 56 km² de florestas, 60% de um total de 95 km².
Entre os 10 municípios que mais desmataram, Feliz Natal (MT), Portel (PA), Vilhena (RO) e Rorainópolis (RR) lideram o ranking.
Mato Grosso aparece 5 vezes na lista (Feliz Natal, Nova Maringá, Alta Floresta, Tapuraf e Itaúba), contra 3 do Pará (Portel, Ipixuna do Pará e Goianésia do Pará), 1 de Rondônia (Vilhena) e 1 de Roraima (Rorainópolis).


Saiba Mais
Boletim do Desmatamento do SAD - Dezembro 2014 - PDF produzido pelo Imazon

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A agricultura integrada, uma forma de vencer a mudança climática

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http://www.ihu.unisinos.br/noticias/538899-a-agricultura-integrada-uma-forma-de-vencer-a-mudanca-climatica


A agricultura integrada, uma forma de vencer a mudança climática

A propriedade de meio hectare que Sukomal Mandal tem na maior floresta de mangue do mundo é um oásis de prosperidade, apesar de o mar estar tragando lentamente a terra. Mandal, de 50 anos, e sua família vivem na localidade indiana de Biswanathpur, em Sundarbans, a floresta de mangue de dez mil quilômetros quadrados que Índia e Bangladesh compartilham no delta da baía de Bengala.
A reportagem é de Manipadma Jena, publicada pelo portal Envolverde/IPS, 09-01-2015.
Neste ponto álgido de biodiversidade, declarado Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), não restam dúvidas sobre o impacto da elevação do nível do mar em razão do aquecimento global. Os estudos mostram que a região perdeu anualmente cerca de 5,5 quilômetros quadrados entre 2001 e 2009, em comparação com os quatro quilômetros quadrados perdidos por ano nas quatro décadas anteriores.
A população local, de aproximadamente quatro milhões de pessoas, sofre inúmeras crises, entre elas a falta de águapotável, uma das necessidades mais urgentes das comunidades de subsistência que vivem e trabalham há gerações na rede de ilhas que compõem Sundarbans.
A invasão do mar, bem como ciclones, tempestades, terras de cultivo prejudicadas pela erosão e perdas nas costas das ilhas, inundações fluviais devido às chuvas concentradas, água salobra que escorre pela terra e o aumento da salinidade do solo aprofundaram a pobreza desses povos, onde três em cada dez pessoas vivem abaixo da linha da pobreza.
Os habitantes, como Mandal e sua mulher Alpana, tiveram que inovar para se manterem vivos. E para isso adotaram métodos novos, como a agricultura integrada, para enfrentar a mudança climática.
Um estudo realizado em novembro de 2014 pela União Internacional para a Conservação da Natureza alerta que aescassez de água doce está chegando ao ponto crítico na parte indiana de Sundarbans, que ocupa uma grande parte do Estado de Bengala Ocidental. Segundo Sugata Hazra, oceanógrafo e especialista em mudança climática da Universidade de Jadavpur, em Kolkata, a região precisa com urgência de uma injeção de 507 metros cúbicos de água doce por dia para manter seus ecossistemas e meios de vida.
O aumento da salinidade prejudicou as terras de cultivo em 52 das cerca de 102 ilhas habitadas no lado indiano da floresta. Um observatório na ilha de Sagar, a maior delas, que sofre a pior parte das consequências climáticas, registrou elevação média do nível do mar de 17,8 milímetros por ano entre 2001 e 2009, bem mais do que os 3,14 milímetros anuais na década anterior. Não é fácil chegar ao fim do mês nessas condições.
Vários grupos de agricultores do bloco administrativo Patharpratima, no distrito Sul 24-Parganas, disseram à IPS que cada família tem pelo menos um integrante que emigrou, cujo dinheiro que enviam é cada vez mais necessário. Outros, comoSukomal e sua mulher, recorrem a métodos de agricultura integrada.
“O sistema de agricultura integrada praticamente reproduz a natureza”, explicou Debabrata Guchhait, um capacitador daSociedade de Bem-Estar Srijan Indraprastha (ISWS), que trabalha pela segurança alimentar da comunidade. A técnica “integra a fazenda e a casa”, por isso os resíduos de um âmbito da vida se transformam em insumo para o outro. Oscultivos básicos se mesclam com outras variedades de plantas e hortaliças, enquanto o gado, patos e galinhas fazem parte do ciclo autossustentável.
O processo “reduz os custos e riscos da exploração agrícola ao recorrer ao orgânico e à diversificação das fontes de rendimento e renda, ao mesmo tempo em que garante a nutrição”, ressaltou Guchhait à IPS. As galinhas se alimentam de folhas verdes, grãos quebrados e milho. Seus resíduos são usados como adubo orgânico junto com esterco das três vacas e duas cabras de Mandal. O resto dos dejetos das aves é drenado para um tanque onde alimenta os peixes.
A escavação do pequeno tanque para coletar água durante a monção anual, que normalmente proporciona cerca de 1.700 milímetros de chuva, foi de grande ajuda para a família. Na superfície de uma “bigha”, uma unidade de medida equivalente a 0,133 hectare, Mandal colhe 480 quilos de arroz com casca, 70 quilos a mais do que antes, e suficientes para cobrir o consumo mensal de sua família.
Agora que tem água fresca suficiente, Mandal consegue duas colheitas de arroz anualmente, com um total de 900 quilos em um ano sem desastres naturais. Depois de atender as necessidades alimentares da família, ganha cerca de US$ 400 com a venda do que sobra. Com as hortaliças que cultiva na mesma superfície ganha o dobro, já que planta um cultivo misto de mais de 25 variedades ao longo do ano. Com o uso de cada centímetro de espaço livre, a família aumentou sua capacidade de recuperação diante da mudança climática e dos padrões climáticos.
E o transbordamento da lagoa também tem seus benefícios. “Nossa família de quatro pessoas consome três quilos de pescado por semana e vende alguns”, disse Alpana à IPS. “De nossos 890 membros em 17 aldeias, apenas 15 adotaram a agricultura integrada”, afirmou Palash Sinha, que dirige a ISWS no bloco Patharpratima. “Uma das principais razões é o alto custo de 12 mil rúpias”, cerca de US$ 200, que “custam as áreas agrícolas integradas”, acrescentou.
Apesar da assistência técnica e do apoio monetário que recebem de organizações da comunidade, muitos agricultores resistem a fazer empréstimo de cinco mil rúpias para esse fim. “Para que as parcelas funcionem com eficácia é necessário ao menos 0,072 hectares”, ou 720 metros quadrados, pontuou Sinha. “Muitos agricultores nem mesmo possuem essa quantidade de terra”, destacou.
Outros associam o método integrado com um trabalho mais árduo. “Em um bom ano, a renda das fazendas integradas podem ser 200% maiores do que a das convencionais, mas o fator trabalho é 700% superior”, apontou Samiran Jana, um agricultor integrado no povoado de Indrapastha.
A ajuda estatal aos agricultores marginais que esperam transformar suas pequenas áreas é extremamente baixa, afirmam os especialistas. Por exemplo, o Plano de Ação de Bengala Ocidental para a Mudança Climática, que inclui a promessa de reforçar a assistência, ainda não foi implantado.
Os especialistas recomendam que neste país, onde 56% da população ativa se dedica à agricultura e onde 80% são pequenos produtores ou camponeses sem terras, sejam feitos esforços concertados em nível federal para proteger os milhões de pessoas cujos meios de vida estão ligados aos padrões mutantes do clima.

O dia em que São Paulo voltou a respirar 2013

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http://outraspalavras.net/brasil/o-dia-em-que-sao-paulo-voltou-a-respirar-2013/


O dia em que São Paulo voltou a respirar 2013

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Em três relatos, a grande marcha pela desmercantilização do transporte, a brutalidade policial e uma pergunta: “quem quer botar fogo na floresta”?
Por Pablo OrtelladoLeonardo Sakamoto Marie Leclerc | Imagem de Capa: Mídia Ninja

I.
Considerações sobre as manifestações de 9 de Janeiro, em São Paulo
Por Pablo Ortellado, em seu perfil no Facebook
* O aumento: o aumento das passagens de ônibus em muitas cidades, mas sobretudo em São Paulo é um inequívoco desafio ao legado de junho. É uma aposta arriscada de que os protestos de junho não foram motivados pelo preço das passagens (como disse explicitamente o prefeito Haddad em entrevista ao El País) e que a capacidade de mobilização popular demonstrada em 2013 não pode ser repetida.
TEXTO-MEIO
> Acompanhe: a marcha segue reivindicante e serena até o momento 2m30s. Então, a PM ataca

* Adesão: com quase 50 mil pessoas confirmadas no Facebook, a manifestação reuniu um número muito maior de pessoas do que o esperado. O MPL estimou no começo o número em 10 mil, depois 15 mil e no final do percurso em 30 mil manifestantes. A PM estimou em 5 mil. A rede Globo, no Jornal Nacional, estimou 2 mil pessoas. Minha estimativa pessoal é de 15 mil pessoas e posso afirmar que havia mais gente hoje do que na manifestação do dia 13 de junho de 2013. Os manifestantes eram formados principalmente por estudantes — universitários e secundaristas e muitos secundaristas da periferia.
* Ação da polícia: a PM obviamente substimou a capacidade de mobilização do MPL destacando uma quantidade muito insuficiente de policiais para fazer o acompanhamento, como havia prometido. No entanto, ela parecia ter recebido ordens para impedir o acesso à Paulista (destino combinado na assembléia que precedeu o ato). Uns cem metros à frente da manifestação, já na Avenida Paulista, um grupo pequeno de jovens que estavam desgarrados do grupo maior se envolveu num incidente (não encontrei testemunhas, então não sei relatar o que aconteceu) e a polícia arremessou bombas de concussão (as bombas que soltam estilhaços e que a PM cinicamente chama “de efeito moral”) e efetuou prisões. O grupo estava tão longe da manifestação que de lá não podíamos ouvir ou perceber o que havia acontecido. O MPL, no entanto, foi alertado e segurou a manifestação na Consolação, cem metros antes da Paulista, até a situação se acalmar. Neste momento, sem qualquer motivo ou aviso, a PM começou um ataque irresponsável e gratuito de bombas de concussão e bombas de gás lacrimogênio, gerando feridos pelos estilhaços e por pisoteamento. Os manifestantes fugiram enquanto eram alvejados por bombas nas ruas paralelas à Consolação: na Angélica, na Bela Cintra, na Augusta. Há dezenas de presos e muitos feridos.
* Perspectivas da luta: A campanha contra o aumento em São Paulo começou num nível muito alto de mobilização. Em 2013, foram preciso 5 atos para se chegar nesse nível, o que mostra um acúmulo de força organizativa e sobretudo legitimidade de convocação. O aumento simultâneo de passagens em diversas capitais do país, também favorece a coordenação e intensificação recíproca da luta que pode gerar um sentimento nacional de revolta contra a mercantilização da mobilidade urbana. A luta agora é para confirmar o legado de 2013, quando 70% dos habitantes das médias e grandes cidades tiveram revogado o aumento das passagens. Como diz o chamado do MPL, agora é de 3 reais para baixo. Não estamos começando do zero, nem andando em círculos — partimos de um patamar mais alto.

II.
Pôr fogo na floresta inteira?Por Leonardo Sakamoto, em seu perfil no Facebook
Ato final do protesto contra o aumento da tarifa de ônibus, metrô e trens em São Paulo: A polícia militar usou tiro de canhão para acertar passarinho.
Um pequeno grupo provocou os policiais, espalhou lixo e bateu nas portas das lojas.
Eles, que teoricamente deveriam ser treinados para reagir de forma controlada nessas situações, responderam com gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral e balas de borracha, atingindo a manifestação – que seguia pacífica – e assustando pessoas que nem participavam da marcha.
Daí, tudo descambou.
Não vou dizer que não mudou nada de 2013 para cá porque, pelo jeito, estão com estoque renovado desses armamentos.
Mas não me sai da cabeça a sensação de que fazem isso não para atingir o passarinho, mas para pôr fogo na floresta inteira.

III.
Polícia paulista: saudades da Jornadas de Junho?
Por Marie Leclercq, com imagens de Felipe Larozza, na Vice
Estavam com saudades das Jornadas de Junho? A PM também estava, tanto é que levou mais de 50 pessoas (até a última confirmação da Polícia Militar às 21:30) em detenção e soltou muito gás lacrimogênio e bomba de efeito moral para comemorar.
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Antes de explodir a merda toda, o protesto desta sexta-feira (9), que foi primeiro ato do MPL em 2015 contra o aumento de R$ 0,50 para ônibus, metrô e trens na capital paulista, começou tranquilo na concentração no Teatro Municipal. Uma assembleia foi realizada pela organização para decidir o trajeto e ficou combinado seguir pela República, subir a Consolação e terminar na Praça do Ciclista, no final da Avenida Paulista.
Tinha muita, muita polícia. E como prometido, eles se organizaram para fazer um sanduíche gostoso onde a Choque era o pão e a manifestação a carne batida. Li em algum lugar que isso se chama “envelopamento”. Fez sentido na hora. A polícia informou que 800 PMs a pé fariam o cerco, com mais de uma centena de integrantes da “tropa do braço”. A polícia estimava 2.000 manifestantes, o MPL aventou um total de 30.000 (!) e eu chutei uns 5.000 – mas me perdoem, sou de humanas e não sei fazer cálculos.
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Subirmos sem nenhum stress pela Ipiranga. Tinha gente até entrando e saindo pelo cordão da Choque e os caras só faziam vista grossa. Uma repórter gente fina me avisou que estavam revistando um pessoal perto do Shopping Light, mas não vi nada.
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A partir do momento entramos na Consolação, comecei a perceber que o cordão ficava cada vez mais apertado e quem chegava perto da Tática levava um empurrão de escudo em troca. Levei um de brinde também, mas não foi nada grave. Era um saco ficar dentro do sanduíche, por isso dei um jeito de sair e dar um rolê com o pessoal da imprensa.
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Muita gente achou também um saco também e saiu do cordão e começou a andar na frente da faixa do MPL. Até que a via da avenida, sentido Centro, foi tomada e todo mundo começou a andar entre os carros, que buzinavam (de vidro fechado) em resposta. Lembrei do Heudes, representante do MPL, explicando para mim na concentração porque eles não foram para a reunião com a PM antes do protesto. “A polícia soltou uma matéria dizendo que estaria aqui que iriam envelopar o ato e por que nós teríamos que dialogar se a presença deles já é uma repressão?”
Para vocês terem uma ideia, era tanta gente para fora do sanduíche que a faixa do MPL começou ficar bastante para trás. Quem tomava o front era um monte de moleque anarco, antifa e black blocs.
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Por voltas das 19:20, na altura do cemitério, essa turma começou a jogar lixo na rua para botar fogo, mas a PM conseguia dar uma dispersada sem muito stress. Até que a primeira bala estourou, por volta das 19:29. Segundo relatos, tacaram uma pedra em uma viatura da Força Tática. Vi uma galera chutando as portas das lojas e literalmente pedindo o sangue da polícia. Depois da primeira bala de borracha, fodeu.
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Olhando para cima da avenida, só dava para ver uma fileira do Choque e, olhando para baixo, era a mesma coisa, somando com as viaturas. Um moleque que estava bem do meu lado, tapando a cara com uma camiseta, tomou um abraço do tamanduá no pescoço e foi engolido por uma porrada de polícia. Nosso fotógrafo Felipe Larozza falou que provavelmente era por causa do anonimato.
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Uma parte do pessoal pegou a Matias Aires e correu pra Augusta, outra parte correu pela Maceió e pegou a Angélica. Deu ruim dos dois lados, eu consegui levar de brinde a imagem (e o cheiro, apesar da máscara) de muitas bombas de gás lacrimogêneo vindo na minha direção e a mira de um monte de arma. Corri para a Matias Aires e vi mais gás rolando e a polícia atirando indiscriminadamente. “Vai jogar na imprensa, caralho?”, um fotógrafo berrou.
Muita gente estava sentada no chão com uma muralha de polícia em volta. Alguns manifestantes berravam “vocês também pegam ônibus, vocês deveriam estar do outro lado”.
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O Larozza correu para o outro lado e ganhou em troca a ROCAM seguindo ele, junto com outros fotógrafos. Um dos fotógrafos levou um cassetete de presente nas costas. Quando saí da Matias Aires, me vi de novo cercada pela polícia. O cheiro era horrível e conseguia me fazer lacrimejar mesmo com máscara e óculos. Um maluco passou correndo por mim com uma armadura preta, tirando foto enlouquecidamente. Invejei esse cara e resolvi seguir pela Angélica para tentar chegar até a Paulista.
A Avenida Angélica estava tranquila, mas reinava o cheiro ruim de gás com notas de lixo queimado. Um banco tinha o vidro pichado com um “3,50 Não”, algumas pessoas que não tinham nada a ver com o tumulto corriam desesperadas. A treta já tinha rolado, mas vi uns caras sendo enquadrados por uma viatura da Força Tática.
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Só consegui ver que tinham quebrado o vidro do Santander na Avenida Angélica, mas depoispublicaram que as concessionárias Toyota e Kia e mais algum banco rodaram e levaram pedra.
O protesto dispersou de uma maneira tão eficiente (obrigada pelo deja vu do 4º Ato de 2013, Alckmin), que quando cheguei na Paulista ainda tinha muita polícia, com algumas dezenas de gatos pingados decidindo que lado dava para ir sem tomar bala ou gás da polícia. Apertei mais o passo, meu destino agora era ver o que estava acontecendo na Rua Peixoto Gomide.
Nosso colega que mora lá viu tudo de camarote. Uns manifestantes fizeram umas barricadas e aquilo lotou de polícia em questão de segundos. Foi tão rápido que quando finalmente cheguei na rua, não tinha mais nada, só a Cavalaria da PM de longe.
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Embora o clima ser uma merda, a Paulista seguia tão normal que nem parecia que tinha acontecido alguma coisa. Exausta, sentei perto do vão do MASP para fumar um cigarro. Nunca tinha corrido da polícia na minha vida.
Recebia informações do meu editor, do Larozza e dos meus colegas. Jogaram bomba de gás no metrô Consolação, botaram fogo em um ônibus na Rua Bahia e o bicho pegou pra quem foi pro lado dos Jardins. Tudo isso. Comecei a andar de volta para a Consolação e consegui pegar uma concentração às 20:50 na frente da Estação Paulista. Todo mundo parecia bem puto, eu também estava puta pra caralho pelo fato de a manifestação não ter chegado na Paulista. Estava muito perto quando a polícia começou a brincar.
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Antes de encerrar os trabalhos, consegui encontrar o Heudes de novo para trocar uma ideia rápida sobre o que tinha rolado em apenas uma hora. “O ato foi grande e a polícia apareceu em massa, mas novamente a Polícia (…) intimidou a população com armas e muita repressão.”
“(O envelope) atrapalhou bastante, a manifestação não conseguia se mexer e ninguém conseguia entrar ou sair. Até eu não consegui entrar em uma hora,” explicou.
O próximo passo agora é o dia 16, no mesmo horário, na Praça do Ciclista. Depois da merda generalizada que rolou com a PM e a quantidade de gente puta da vida indo pra casa, botei fé nos caras: “dia 16 vai ser maior”.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

2015: como será o mundo de Alice?

correio
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10382:ambcidadania050115&catid=28:ambiente-e-cidadania&Itemid=57

 2015: como será o mundo de Alice?


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ESCRITO POR ROGÉRIO GRASSETTO TEIXEIRA DA CUNHA   
SEGUNDA, 05 DE JANEIRO DE 2015



Ao pensar sobre as perspectivas para 2015 na área ambiental, foi difícil escapar das reflexões sobre o mundo que minha filha, Alice, que nascerá em março, encontrará, e em que mundo viverá. No momento, estou bastante cético, ainda mais após ler uma entrevista de 2007 do cientista britânico James Lovelock, criador da famosa Teoria de Gaia, que recentemente voltou à tona e difundiu-se pelas redes sociais: certamente não será um mundo das maravilhas. O cientista prevê, entre outras coisas, que por volta de 6 bilhões de pessoas irão morrer e que o aumento de temperatura será maior que o previsto. Exagero? Pode até ser, mas, pelo princípio da precaução, terei que prepará-la para entrar na toca do coelho e para um possível mundo bizarro que irá encontrar.

Previsões de longo prazo são complicadas, no entanto. Por outro lado, as previsões de curto prazo ficaram por demais óbvias na área ambiental, por serem repetitivas: queimadas na estação seca do Brasil tocando o terror, deslizamentos em algum ponto da Serra do Mar na estação chuvosa, desmatamento na Amazônia arrefecendo pouco, ruralistas cada vez mais agressivos contra o meio ambiente (contra si próprios, na verdade) e governo pressionando pela hidrelétrica da vez na Amazônia – agora é o Tapajós que está na berlinda. Assim, irei restringir-me a dois temas apenas, um local e outro global: a crise da água em São Paulo e os acordos climáticos.

O tema água, embora seja muito caro ao povo nordestino há séculos, entrou fortemente na pauta do noticiário este ano ao afetar a maior cidade da América do Sul e os estados do Sudeste de uma maneira geral. Em muitos locais, onde a situação é menos crítica, teremos um respiro de alívio após as chuvas de verão. Mas, quanto a São Paulo, não espero o melhor, embora torça muito e sinceramente para que esteja redondamente enganado.

Não estou sozinho nestas previsões; baseio-me no que tenho lido de especialistas. Apesar de o religioso governador do estado rezar insistentemente para isto (nisto ele se parece com o coelho de Alice, olhando o relógio e dizendo “as chuvas estão atrasadas, as chuvas estão atrasadas!”), as chuvas não serão suficientes para encher os reservatórios. E pode ser ainda pior. Parece que um El Niño fraco está em formação e, no momento, as previsões de médio prazo do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do INPE indicam igual probabilidade para os três cenários possíveis (chuvas na média, abaixo da média ou acima da média). Ou seja, considerando as atuais informações, temos apenas 1/3 de chance de chuvas acima da média. E mesmo que fossem acima da média, não irão resolver o problema. No máximo irão apenas empurrá-lo com a barriga um pouco mais para frente. Qualquer semelhança com a situação ambiental global e as tímidas medidas paliativas NÃO é mera coincidência.

A insanidade em relação a este problema ocorre em múltiplos níveis e com múltiplos personagens, parecendo o chá de loucos ao qual a Alice da história compareceu. Também como na história, parece que o tempo congelou-se para os personagens, imobilizados que estão perante os acontecimentos. Só que, diferentemente do livro, eles não parecem ter consciência disto. Por exemplo, o que pensaria o leitor ao ver a seguinte manchete: “Reserva do Cantareira evita racionamento por 60 dias”, com explicações sobre o volume morto que pode ser usado do sistema. Diria tratar-se de alguma notícia que foi veiculada lá pelo meio do ano, correto?

Mas o leitor estaria errado. Foi uma notícia do final do ano. Só que de 2003 … (veja aqui). Quem era o governador à época? Algum palpite? Esta você acertou. Isto mesmo, Geraldo Alckmin. E o que ele fez? Planejou de forma séria no longo prazo? Realizou alguma obra relevante para a segurança do sistema? Coordenou-se com as prefeituras da região, protegeu os mananciais, córregos e rios que alimentam o sistema? Infelizmente não. Além de praguejar contra a pior seca dos últimos 70 anos (agora, dez anos depois, o número subiu para 80 e, daqui a 20 anos, pode ser a pior dos últimos cem anos … adapta-se a frase de acordo com a situação), havia instituído previamente uma medida de racionalização do consumo, como pode se ver em seu decreto de outubro daquele ano. Geraldo deve ter rezado muito também, só que, neste caso, parece que não funcionou muito. Sim, medidas de racionalização são legais e importantes, sempre, e eu as apoio integralmente, mas não resolveram o problema.

Mas obviamente que o devoto governador não tem responsabilidade isolada no cartório. O desmatamento na Amazônia pode ter seu quinhão de responsabilidade também. Então, soma-se à fatura os anos e anos em que todos os governos federais oscilaram entre a complacência irresponsável e timidez ineficaz na repressão (afinal, quem quer brigar frontalmente com o agronegócio e os poderes locais nos estados da região?). No longo prazo, como alguns especialistas têm alertado, poderemos ter que nos acostumar com um menor volume de chuvas em São Paulo. Isto graças à nossa insanidade coletiva, capitaneada por nossos governantes, de todos os matizes políticos e esferas do poder, de permitir a destruição de uma das fontes principais de água para São Paulo e outras partes do Sul-Sudeste-Centro-Oeste: as correntes úmidas provenientes da Amazônia (leia-se das florestas) que chegam até aqui pela alta atmosfera, conhecidas como rios voadores.

Chega de água. Falando do clima global, tivemos no final do ano passado em Lima, no Peru, mais uma Conferência das Partes (COP), a vigésima, relativa à Convenção Quadro das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas. Qual o resultado? Surpresa, surpresa: nada de consistente, apenas um documento vago e genérico, como tantos outros produzidos pela Convenção. Com o perdão do trocadilho infame, no Peru tivemos mais um frango desta Convenção. E aqui, faço uma previsão que acho tenho chance muito grande de acertar. A COP 21, que ocorrerá em dezembro de 2015, em Paris, terá exatamente o mesmo resultado, assim como várias das COPs dos próximos anos. A Convenção aqui parece-se com a Rainha Vermelha da famosa história de ‎Lewis Carroll: corre, corre, corre, mas não sai do lugar.

Nossos governantes e sociedades ainda não se deram conta da incompatibilidade das bases do atual modelo econômico global com a preservação ambiental real (não os arremedos sugeridos por um mal definido “desenvolvimento sustentável”). Também não se deram conta de sua insustentabilidade e do risco que representa para a preservação da espécie humana no longo prazo. Em alguns rincões do mundo, inclusive, as forças ligadas ao modelo têm contra-atacado de maneira mais violenta, reforçando e aprofundando o modelo. Vimos isto por aqui em todo o imbróglio por trás do novo Código Florestal.

Por outro lado, cresce, embora em ritmo lento, a consciência acerca dos problemas relacionados ao sistema econômico e ao nosso modo de vida. Esta consciência é turbinada cada vez que a Terra responde às agressões com algum desastre do ponto de vista humano (como a crise hídrica). Como e quando este dilema de forças se resolverá é assunto para especulações em outros artigos.

Como a Alice da história, temos uma opção entre dois caminhos, no nosso caso, entre um futuro possível ou um desastre anunciado, mas não sabemos bem onde queremos ir. Ou melhor, a maioria ainda não tem plena consciência dos resultados de nossas escolhas. Mas, ao contrário da história, a escolha não é indiferente, e estamos sendo levados pelo caminho errado. Só espero e sonho que o dilema se resolva e tomemos o caminho certo, de forma que a Alice real ainda possa encontrar o mundo de maravilhas ao qual eu ainda tive acesso.

Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é docente da Universidade Federal de Alfenas-MG e, apesar do pessimismo,  no fundo tem sempre uma esperança.
ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO EM DOMINGO, 04 DE JANEIRO DE 2015

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania

E o “verde”, como fica?

amazonia
http://amazonia.org.br/2015/01/e-o-verde-como-fica/?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Not%EDcias+da+Amaz%F4nia+-+5+de+janeiro+de+2015


E o “verde”, como fica?

Foto: Martim Garcia/Divulgação/MMA
Nesta entrevista exclusiva, Izabella Teixeira revela em que momento foi chamada para permanecer no Ministério do Meio Ambiente, quais as prioridades acertadas com a presidente Dilma para os próximos quatro anos, suas expectativas em relação aos novos colegas de primeiro escalão – especialmente Kátia Abreu e Aldo Rebelo – e como vem recebendo as críticas dirigidas a ela pelo movimento ambientalista.
Izabella Teixeira me disse que já havia se programado para dar aulas em 2015 na Universidade de Stanford (EUA) como professora visitante. Mas o projeto teve que ser adiado, segundo ela, por uma “convocação” da presidenta Dilma. No último dia 18 de dezembro, logo após a cerimônia de diplomação, Dilma avisou à Izabella que contava com ela à frente do Ministério do Meio Ambiente por mais quatro anos. Pedido feito, malas desfeitas.
Sobre os rumores dando conta de que o senador Jorge Vianna (PT-AC) seria o nome preferido de Dilma até que o irmão dele, o governador reeleito do Acre, Tião Vianna, apareceu na lista de políticos denunciados na Operação Lava-Jato, Izabella foi taxativa. “Em nenhum momento isso foi falado comigo. Ela me convidou para darmos sequência àquilo que iniciamos no primeiro mandato, com algumas novas atribuições, como o enfrentamento da crise hídrica e a aprovação do novo marco de acesso a recursos genéticos”.
Um dos raros quadros técnicos do primeiro escalão do governo, Izabella não representa nenhum partido político e aparece no seleto grupo de mulheres (apenas seis) que figuram na foto oficial do ministério de Dilma neste segundo mandato, dividindo espaço com 33 homens.
E é justamente neste núcleo feminino da Esplanada que a presidenta reuniu duas protagonistas de uma antiga batalha política que vem sendo travada há anos.
Agora, Izabella Teixeira e Kátia Abreu pertencem ao mesmo time. A nova ministra da Agricultura – principal liderança do agronegócio no Brasil – foi uma das principais defensoras do novo Código Florestal (cujo texto final desagradou amplos segmentos do ambientalismo brasileiro). Kátia Abreu também vem apoiando a mudança constitucional que prevê a transferência do Poder Executivo para o Congresso Nacional (onde a bancada ruralista é forte) da responsabilidade por novas demarcações de terras indígenas e Unidades de Conservação. Esses não são os únicos pontos divergentes entre ela e Izabella Teixeira. Guerra à vista? Não necessariamente.
“Eu já conversei com a ministra Kátia Abreu. Estarei na cerimônia de posse dela. Nós nos falamos na cerimônia de posse da presidenta Dilma e combinamos de nos reunir para acertarmos uma agenda de trabalho comum. Kátia Abreu também considera prioridade a implementação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e me disse que deseja modernizar a legislação que rege a recuperação florestal.”
Outro colega de primeiro escalão com quem Izabella Teixeira conversou no dia da posse, foi Aldo Rebelo, da Ciência, Tecnologia e Inovação. Relator do Código Florestal – a quem dedicou aos “agricultores brasileiros” – Aldo foi criticado por ambientalistas e cientistas de apresentar um texto desprovido de embasamento científico e sem o aval de importantes instituições referenciais para o setor, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Agência Nacional de Águas (ANA).
A impopularidade de Aldo Rebelo junto aos ambientalistas alcançou um ponto crítico em 2011 com a publicação de um texto, assinado por ele, intitulado “A trapaça ambiental”. Nele, afirmou que “o chamado movimento ambientalista internacional nada mais é, em sua essência geopolítica, que uma cabeça de ponte do imperialismo.” Ao comentar o agravamento do efeito estufa, foi taxativo: “Não há comprovação científica das projeções do aquecimento global, e muito menos de que ele estaria ocorrendo por ação do homem e não por causa de fenômenos da natureza”, opinião que contraria frontalmente a posição histórica do Brasil nas negociações do clima.
O ministro do PC do B acaba de assumir um ministério que vem subsidiando o governo brasileiro com informações estratégicas nas negociações climáticas patrocinadas pela ONU e que buscam a redução imediata das emissões de gases estufa. Negociações em que Izabella é liderança ativa. E agora? Para que lado vamos?
“Aldo Rebelo manifestou interesse em conversar comigo sobre a agenda do clima e os assuntos da biodiversidade. É bom lembrar que foi a própria presidenta Dilma quem destacou o protagonismo do Brasil nas negociações climáticas e que esse é um tema prioritário deste mandato. É uma ação articulada de governo onde estamos todos envolvidos”, ressaltou a ministra do Meio Ambiente.
Ao ser convidada por Dilma para permanecer no cargo, Izabella ouviu da presidenta a lista de prioridades na área ambiental. A posição brasileira na COP 21 – a Conferência do Clima que acontecerá em dezembro deste ano em Paris – é uma delas. A expectativa é a de que o encontro estabeleça novas metas e prazos para que todos os países – exceto aqueles mais pobres – reduzam suas emissões de gases estufa. O Brasil promoverá consultas públicas antes de fechar uma proposta.
Outra prioridade é a implementação do Código Florestal, especialmente a conclusão do Cadastro Ambiental Rural (CAR) que hoje, segundo o governo, alcança 130 milhões de hectares dos 329 milhões de hectares possíveis. Para que os proprietários de terra sejam cobrados em relação ao cumprimento das regras de proteção ambiental, é preciso conhecer a real situação de cada propriedade. Quem também procurou Izabella (na mesma cerimônia de posse de Dilma) para unir forças na conclusão do CAR foi o ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias.
Aperfeiçoar o licenciamento ambiental é outra meta para os próximos quatro anos. O assunto incomoda aos ambientalistas, que temem a flexibilização dos atuais protocolos em favor dos interesses econômicos.
Em relação a esse ponto, Izabella lembra que a maioria absoluta dos licenciamentos hoje é oferecida pelos Estados (no caso das obras do PAC, 82% dos licenciamentos são estaduais) e diz que o Ibama se modernizou e virou referência. Segundo ela, o órgão conta hoje com 400 funcionários concursados para cuidar dos licenciamentos federais em uma estrutura mais ágil e informatizada. “Precisamos avançar nessa agenda. Não é possível, por exemplo, encomendar um novo estudo de impacto ambiental a cada dragagem de porto. Pode-se licenciar em blocos, como já se faz nas unidades de exploração de petróleo, sem nenhum prejuízo ambiental”.
Outra questão importante, segundo ela, é “acabar com o desmatamento ilegal em todos os biomas, e não apenas na Amazônia”. Izabella garante que não faltarão recursos para isso, mesmo sabendo que 2015 será um ano de severas restrições orçamentárias para todo o governo. “Não sei de quanto será o corte, mas nunca faltou dinheiro para fiscalização e combate ao desmatamento. Quando assumi o Ministério, o orçamento era de 560 milhões de reais por ano . Hoje é de aproximadamente 1,1 bilhão”.
Izabella lembra que conhece o atual dono do cofre – leia-se, Joaquim Levy, novo todo-poderoso do Ministério da Fazenda – desde que os dois participaram do governo Sérgio Cabral (ele na Secretaria de Fazenda, ela na Secretaria do Ambiente). Vem de lá uma afinidade em relação aos assuntos ambientais, muito por conta da militância da mulher de Levy, Denise, a ambientalista da família, que trabalha no BID e mora em Washington.
Sem ser política profissional – portanto, desamparada dos “apadrinhamentos” que aceleram processos e abrem caminhos nas redes de interesses que orbitam o Poder Central – Izabella Teixeira desenvolveu seus próprios métodos para tentar fugir do ostracismo em pleno exercício do cargo. “O importante é o diálogo, não se isolar e definir pautas comuns entre os ministérios”, diz ela, reconhecendo que é preciso comunicar melhor o dia-a-dia do seu ministério junto à sociedade.
Para Izabella, as fortes críticas dirigidas ao primeiro mandato da presidenta Dilma na área ambiental – principalmente as que partem das próprias organizações ambientalistas – não levariam em consideração um numeroso pacote de realizações que ela enumera, sem disfarçar uma certa indignação. Um dos assuntos mais controversos, por exemplo, é a taxa de desmatamento da Amazônia. “Registramos as quatro menores taxas de desmatamento da Amazônia. Realizamos mudanças importantes nos mecanismos de fiscalização e controle em parcerias com o Ministério da Ciência e Tecnologia e o INPE”.
Sobre as críticas de que Dilma foi a chefe de Estado que menos criou Unidades de Conservação (UCs) desde os governos militares, Izabella defende as novas diretrizes adotadas pelo governo. “Criar Unidades de Conservação em áreas onde existam conflitos fundiários não adianta. É preciso regularizar a situação primeiro. A propósito, nos últimos quatro anos, nenhum governador da Amazônia criou novas Ucs. E ninguém menciona isso. Implementamos planos de manejo em 60 dessas unidades, mais do que foi feito nos oito anos de governo Lula”.
A maioria das medidas citadas na entrevista – não reproduziremos todas neste espaço – não teve visibilidade nem repercussão. O que não quer dizer que não sejam importantes. Na lista de Izabella não aparece, talvez por modéstia, a contribuição efetiva da delegação brasileira (chefiada por ela) para que o mundo alcançasse depois de 18 anos de negociações o Protocolo de Nagoya – o mais importante acordo ambiental internacional desde o Protocolo de Kioto – que versa sobre as regras de uso e proteção da biodiversidade. Também não mencionou a conquista do Prêmio Campeões da Terra, que lhe foi oferecido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), na categoria “liderança política”, pelos “esforços bem sucedidos em reverter o desmatamento da Amazônia”.
Leal a Dilma, Izabella sabe que o governo não entende a sustentabilidade como “eixo matricial das políticas públicas”, conforme tem defendido há décadas o colega e amigo jornalista Washington Novaes. Sabe também que boa parte de seus colegas de primeiro escalão – a maioria absoluta, vá lá – ainda vive, pensa e age como se não experimentássemos uma crise ambiental sem precedentes na história da Humanidade. E aí, o que fazer?
A ex-ministra Marina Silva pediu demissão alegando que perderia o pescoço, mas não o juízo.
O ex-ministro Carlos Minc bateu boca em público com mais de um ministro que lhe deixou “verde” de raiva pelo atropelamento das mais básicas cartilhas ambientais.
Izabella vai ficando. Que incomode bastante.
Por: André Trigueiro
Fonte: G1/ Mundo Sustentável