quarta-feira, 20 de junho de 2012

Se fosse pelo mercado, não existiriram políticas sociais

CARTA MAIOR
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Economia| 20/06/2012 | Copyleft 

"Se fosse pelo mercado, não existiriram políticas sociais", diz Sachs

Em conferência realizada na Coppe/UFRJ, o economista e sociólogo Ignacy Sachs defendeu a necessidade de um novo paradigma de produção e desenvolvimento, baseado no tripé "socialmente justo, ambientalmente sustentável e economicamente viável". Para Sachs, esse modelo não surgirá pelas mãos do mercado: "lamento que se dê espaço para as soluções que sejam as de mercado. O mercado tem vista curta, pensa o imediato, por ele não existiriam políticas sociais”.

Rio de Janeiro - Dando prosseguimento à série de conferências proposta pela Coppe/UFRJ com temas da Rio+20, o economista e sociólogo Ignacy Sachs falou segunda feira (18), no auditório do Centro Tecnológico, sobre alternativas para um desenvolvimento sustentável e socialmente justo. “Existem três pernas que devem ser articuladas em conjunto. Medidas que articulem o socialmente justo, o ambientalmente sustentável e o economicamente viável”, defendeu.

A mesa “O início de uma nova era: o Antropoceno” quis discutir a entrada do homem moderno nesta época caracterizada pelo intenso aumento da influência das ações humanas na natureza, a economia predatória, processo este que se iniciou na Revolução Industrial e hoje tomou proporções catastróficas, assinalou o sociólogo. 

A fala de Sachs foi uma crítica ao atual modelo de produção e economia. “Não houve um momento em que eu não levasse em conta a ineficiência das soluções de mercado, na verdade eu lamento que se dê espaço para as soluções que sejam as de mercado. O mercado tem vista curta, pensa o imediato e tem a pele grossa, ou seja, por ele não existiria políticas sociais”, disse à Carta Maior depois da mesa. A superação destes mecanismos de mercados seria o primeiro e mais urgente passo. Estes mecanismos, argumentou o economista, são insensíveis socialmente e não tem horizontes largos, a preocupação deste mercado é, então, cínica visto que não se leva em conta que o custo ambiental se coaduna com o custo social. “O novo paradigma para a ‘nave Terra’ é a de responsabilidade entre gerações, o legado da nossa geração, economicamente predatória, é catastrófica. Deve-se melhorar as condições do presente sabendo dos seus limites socio-ambientais para as gerações futuras”, disse.

Recursos renováveis, alternativas para melhoria na captação e armazenamento de energia, além da pesquisa voltada para a eliminação do desperdício são essenciais para um desenvolvimento sustentável. Sachs elogiou o trabalho feito na Coppe e exposto na série de conferência desde o dia 13. Neste ambiente de novas propostas, Ignacy fez sua parte. Delineou medidas que acredita serem necessárias para arrecadar fundos. Provocador, sugeriu que cobrássemos dos países desenvolvidos as suas intenções em desenvolver um Fundo Mundial de Desenvolvimento, socialmente includente. “Eu prefiro a palavra ‘includente’, porque ela nos coloca num processo, falar ‘inclusivo’ pode dar a ilusão de um final neste debate. Este fundo mundial é a arrecadação necessária para se efetivar medidas alternativas. A cobrança de pedágio aéreo e oceânico, taxação do carbono, onerar transações financeiras e a ajuda proposta pelos países ricos de 1% de seu PIB, chegaremos a 2% do PIB Mundial”, sugeriu. 

Este fundo defendido por Sachs deixa algumas questões abertas, como ele próprio reconhece, mas delega, por exemplo, o problema da administração deste dinheiro à Nações Unidas, sempre conservando o seu caráter includente e dialógico. A preocupação com as particularidades econômicas e sociais de cada país também foi trazida pelo professor: “não é possível taxar de maneira única e geral, no entanto se deve fazer esta cobrança de acordo com nível de desenvolvimento de cada país”, relativizou.

Expandir a relação de mercados e tecnologias além da Norte-Sul é um caminho que pode trazer benefícios aos países em desenvolvimento e os subdesenvolvidos, a rede de cooperação tecnológica e de pesquisas é um importante método de mudança, disse Sachs. Ele ainda sugeriu um papel de “abre-alas” aos BRICS no crescimento da parte sul do mundo, especificamente Brasil e Índia. Até mesmo a relação de países que possuem biomas semelhantes seria um novo paradigma. “Uma maior cooperação por biomas e não exclusivamente por meridianos. Pensarem em programas de intercâmbio científico entre Brasil e Índia. Vocês e a Índia têm cacife suficiente para mobilizar os outros, sobretudo para pegar a África no meio, ambos os países têm laços importantes com países africanos, e um bloco dos emergentes na rua com Brasil e a Índia de abre-alas, considero um cenário importante e deve cobrar apoio da Nações Unidas”, pontuou. 

O foco deve estar no planejamento desta mudança de paradigma. Um planejamento que deve ser arraigado no debate democrático e participativo, de forma a ocorrer nas esferas marginalizadas; articulando as particularidades de cada local: “recolher informações, onde estão os problemas locais e a natureza deles. O conhecimento fino da realidade e diálogo com a sociedade diretamente envolvida – isto é planejar”, concluiu Ignacy Sachs.

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