terça-feira, 19 de junho de 2012

MARÃIWATSÉDÉ DE LUTO


19 de Junho de 2012 · por  · in Uncategorized

Crianças Xavante em Marãiwatsédé são as mais vulneráveis ao descaso com a saúde. Foto: Adriano Gambarini/OPAN
Enquanto lideranças Xavante pressionam na Rio+20 por saída imediata de invasores que devastam Marãiwatsédé, mais uma criança falece por desnutrição na aldeia, em Mato Grosso.
Rio de Janeiro – Foi com pesar que os Xavante de Marãiwatsédé na Rio+20 receberam a notícia de que um bebê de 10 meses faleceu por desnutrição na aldeia, no nordeste do Mato Grosso. Esta é a segunda morte em dois meses. As crianças, junto com os idosos, são os mais vulneráveis às deficiências na atenção à saúde indígena.
Há anos o povo Xavante de Marãiwatsédé reivindica melhorias na assistência dos serviços públicos. Em maio, eles denunciaram ao Ministério Público Federal em Mato Grosso que as unidades de saúde dos municípios mais próximos a aldeia, como São Félix do Araguaia, Alto Boa Vista, Bom Jesus do Araguaia, Ribeirão Cascalheira, Canarana e Água Boa frequentemente boicotam o atendimento aos indígenas de Marãiwatsédé. “As crianças sofrem com diarreia, vômito e pneumonia porque consumimos água de córregos poluídos”, reclama o cacique Damião Paridzané.
Em dezembro do ano passado, os Xavante já tinham procurado o MPF para denunciar que aviões despejavam diariamente agrotóxicos nas lavouras que existem no interior da terra indígena e nas proximidades da aldeia, provocando doenças respiratórias em boa parte da comunidade nos dias seguintes.
Das cerca de 200 crianças de zero a cinco anos que vivem hoje em Marãiwatsédé, mais da metade sofre de desnutrição. Esta é uma triste consequência da gravíssima situação de insegurança alimentar, vivida pelo povo Xavante. “Quando um paciente sai da aldeia, não tem apoio para alimentação também. Isso não acontece só em Marãiwatsédé. É uma situação de abandono dos povos indígenas. Quando isso vai melhorar?”
Por causa do seu território invadido, os indígenas são ameaçados e impedidos de usufruir dos poucos recursos florestais restantes nos 165 mil hectares homologados pela União desde 1988. Por outro lado, a devastação da área fez com que a caça desaparecesse e que o recurso pesqueiro diminuísse. Ocupando uma área devastada pela ocupação ilegal, o cultivo tradicional fica muito prejudicado.
Marãiwatsédé é conhecida como a terra indígena mais devastada da Amazônia brasileira em decorrência da invasão de latifundiários, iniciada durante a Rio92, logo após o compromisso verbal da empresa italiana Agip Petroli de devolução do território aos seus verdadeiros e legítimos donos, retirados à força de lá em 1966. Na época, funcionários da própria Agip, fazendeiros e políticos locais orquestraram a invasão e o leilão de terras em Marãiwatsédé.

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