terça-feira, 17 de janeiro de 2012

rio+20 e gênero

fonte - GT educação
rio+20


Intercâmbio Virtual Educação em um Mundo em Crise: Limites e Possibilidades frente à RIO + 20
Grupo de Trabalho de Educação

O paradigma do cuidado e a sustentabilidade da vida na economia feminista
Gabriele Merz, REPEM

Grupo de Trabalho Latino-americano (GTL) do Programa Educação, Gênero e Economia *



A sustentabilidade da vida – humana, social e ecológica – é o maior desafio que temos como humanidade, para que esta e as futuras gerações, mulheres e homens, possam sobreviver e conviver em paz, com direitos iguais, com justiça social e de gênero. A economia feminista nos anima com um novo paradigma de desenvolvimento centrado no cuidado e na sustentabilidade da vida.

Na Rede de Educação Popular entre Mulheres da América Latina e do Caribe (REPEM) intercambiamos leituras, reflexões e propostas através dos seminários virtuais, e um presencial, em torno das diversas correntes da economia feminista(1), com o objetivo de revisar e renovar nossos enfoques teórico-conceituais, nossas estratégias e nossas práticas educativas como rede de organizações de mulheres e feministas que acompanham mulheres empreendedoras em projetos de geração de renda, mulheres operárias, indígenas, de zonas rurais e donas de casa em diversos processos formativos.

Um dos marcos interpretativos discutidos nesses seminários foi a perspectiva do cuidado e da sustentabilidade da vida da economia feminista, baseada em textos de Jeanine Anderson, Cristina Carrasco e Ana Felicia Torres(2).

No centro desta perspectiva estão o cuidado e o trabalho de cuidado realizado pelas mulheres, a dependência humana e os processos de reprodução e manutenção da vida, propondo análises que partem da experiência das mulheres e incluem o conjunto de relações sociais que garantem a satisfação das necessidades das pessoas. Esta concepção significa uma crítica aos “modelos teóricos elaborados a partir da economia que se centraram exclusivamente na economia de mercado” (C. Carrasco, p. 169), desmontando as visões bipolares de: mercado-não mercado, econômico-social, trabalho pago-não pago que excluem “os processos de vida das pessoas e o trabalho das mulheres” (C. Carrasco, op. cit.).

O cuidado e o trabalho de cuidado são aspectos fundamentais neste marco interpretativo, considerado parte substantiva nos processos de reprodução e manutenção da vida e do bem-estar humano. Referem-se ao conjunto de necessidades, materiais e imateriais, objetivas e subjetivas, de mulheres e homens, que há que satisfazer. Segundo Cristina Carrasco, “o cuidado começou a emergir como um aspecto central dos afazeres domésticos: além de alimentar-nos e vestir-nos, proteger-nos do frio e das doenças, estudar e educar-nos, também necessitamos carinho e cuidados, aprender a estabelecer relações e viver em comunidade” (C. Carrasco, p. 177). A autora argumenta que essa atividade, é que deveria servir de referência e não o trabalho realizado no mercado.

A perspectiva do cuidado leva a economia feminista a questionar a noção de dependência que é utilizada em relação com as crianças ou com pessoas doentes, anciãs ou com alguma deficiência. Na perspectiva do cuidado se afirma que a dependência não é algo específico de determinados grupos da população; é  intrínseca à condição humana: “todos e todas somos dependentes e necessitamos cuidados, embora, naturalmente, com diferentes características segundo o momento do ciclo vital; satisfazer uma necessidade requerida por uma dependência significa, de fato, realizar cuidados” (C. Carrasco, p. 178).

Este olhar da economia, da satisfação das dependências e o trabalho de cuidado como elementos centrais da reprodução e da manutenção da vida definem o conceito de sustentabilidade da vida, constituindo, segundo a autora, “uma base teórica sobre a qual há que exigir que a sociedade em seu conjunto dê resposta” (C. Carrasco, p. 183). A sustentabilidade da vida se refere a “um processo complexo, dinâmico e multidimensional de satisfação de necessidades em contínua adaptação das identidades individuais e das relações sociais (...) que requerem recursos materiais, mas também de contextos e relações de cuidado e afeto (...) um conceito que permite dar conta da profunda relação entre o aspecto econômico e o social (...) e que expõe como prioridade as condições de vida das pessoas, mulheres e homens” (C. Carrasco, p. 183). Conceito, ademais, intimamente ligado à sustentabilidade social e ecológica.

O Seminário, do qual fazemos este breve resumo da perspectiva do cuidado e da sustentabilidade da vida da economia feminista, aportou-nos importantes reflexões e propostas e também interrogações. Aqui apontamos algumas.

O trabalho doméstico e de cuidados é parte substantiva da economia e das condições de vida de mulheres e homens de todas as idades, ou seja, de toda a sociedade, porém  realizados em grande parte pelas mulheres e assumidos por elas como sua responsabilidade, e que foram impostos por normas culturais e sociais e integradas ao sistema patriarcal e aos modelos econômicos dominantes como trabalho invisível e sem valor econômico e social.

No contexto das atuais crises: econômica, financeira, alimentar e ambiental, e a acelerada deterioração das condiciones de vida, as necessidades de cuidados vão aumentando, afetando as mulheres com mais trabalho no mercado e em casa, precarização do trabalho, mais problemas e violências de todo tipo. Esta responsabilidade das mulheres é uma das chaves da desigualdade entre mulheres e homens, da desigualdade entre as próprias mulheres, e é uma das principais fontes da pobreza específica das mulheres.

Não obstante, longos anos de lutas feministas e das mulheres pelo direito de exercer nossos direitos, o trabalho doméstico e de cuidados realizados pelas mulheres continuam sendo uma dimensão da vida não valorizada pela sociedade, e não há respostas sociais que conduzam à justiça e à equidade. Os atuais debates sobre a economia e a crise se esquecem desta parte importante do bem-estar humano.

“O trabalho das mulheres, no mercado, nos seus lares e nas comunidades, não levou a menos problema e melhores condições de vida. Depois de 15 anos da IV Conferencia Mundial sobre a Mulher, as mulheres, em geral, reduzimos nossa ‘pobreza de voz’. Entretanto, isso não incidiu em uma redução substantiva e com justiça de nossa pobreza de recursos e de nossa pobreza de oportunidades” (A.F. Torres, p. 2).

A crise dos cuidados afeta sobretudo as mulheres pobres. Não só aumenta o tempo e as energias requeridas em casa e nas comunidades, mas cada vez mais as mulheres têm menos tempo e energia para cuidar de si mesmas. O conflito e a contradição são cada vez mais fortes entre os diferentes cuidados: cuidar de nós mesmas e cuidar de outros e outras, satisfazer as necessidades e aspirações próprias das mulheres, da família, do trabalho remunerado e da gestão comunitária; afeta as mulheres que se trasladam dentro e entre países para cuidar de outros e outras – as “cadeias mundiais de cuidados”, sem qualquer proteção legal, deixando em seus lugares de origem outras mulheres a cargo do cuidado.

A dimensão ecológica da perspectiva que cruza a sustentabilidade da vida humana e social exige outro modelo de sociedade e de desenvolvimento. A co-responsabilidade social dos afazeres domésticos e de cuidado (mulheres e homens nos seus lares, na comunidade, no Estado, no setor privado, nas associações) que relacione a economia com o cuidado da vida em todas suas esferas, e a formulação de políticas públicas em uma perspectiva de justiça, igualdade e inclusão das mulheres no desenvolvimento.

Cremos ser fundamental que se incorpore na discussão de novos paradigmas de desenvolvimento as dimensões do cuidado (3) e da sustentabilidade da vida em uma perspectiva feminista. Atualmente, os debates sobre as diversas crises que afetam o mundo e a humanidade continuam sendo centralizados exclusivamente na economia de mercado, levando a aguçar a crise dos cuidados que hoje em dia continua sendo trabalho quase exclusivo das mulheres, especialmente das mulheres mais pobres, sem reconhecimento econômico, político, social e cultural.

Textos apresentados no “Segundo Seminário Virtual “Gênero, Economia, Feminismo e Desenvolvimento”, desenvolvido pela REPEM entre 17 de outubro e 4 de novembro de 2011.
  • Anderson, Jeanine - Crisis de Cuidados y Cadenas de Cuidados. Trabalho apresentado para o Seminário.
  • Carrasco, Cristina. “Mujeres, Sostenibilidad e Deuda Social”. Artigo publicado na “Revista de Educación”, Número Extraordinário 2009, pp. 169-191.
  • Torres, Ana Felicia. “Formación Política de Mujeres en Mesoamérica ¿Para el mercado o desde el cuidado?”. Trabalho apresentado para o Seminário.

Recomendam-se os artigos de: Bosch, Anna; Carrasco, Cristina; e Grau, Elena (2004), “Verde que te quiero violeta. Encuentros e desencuentros entre feminismo e ecologismo”, IX Jornadas de Economia Crítica, disponível em http://www.ucm.es/info/ec/jec9/index.htm [2004, 27 de março].

* Contribuição realizada a partir das leituras e reflexões do Segundo Seminário Virtual “Gênero, Economia, Feminismo e Desenvolvimento” realizado pela REPEM entre 17 de outubro e 4 de novembro de 2011.

(1)     Os seminários fazem parte do Programa Educação, Gênero e Economia da REPEM, cujo objetivo é “aportar à construção de nova proposta de desenvolvimento para as mulheres, baseada na justiça, na equidade de gênero e social, através de diversos processos de formação, de produção e sistematização de saberes e incidência política”.
(2)     As referências se encontram no final deste texto.
(3)      As referências se encontram no final deste texto. Dimensões que abarcam o aspecto econômico e material, político, cultural, ético e moral, segundo o texto de Jeanine Anderson para o Seminário.

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