terça-feira, 17 de janeiro de 2012

guevara - Com quem deveríamos aprender?

fonte - GT educação RIO+20



Intercâmbio Virtual Educação em um Mundo em Crise: Limites e Possibilidades frente à RIO + 20
Grupo de Trabalho de Educação

Terceiro Módulo “Movimento de educação y o Movimento da Sociedade Civil”

Com quem deveríamos aprender?
Por José Roberto ‘Robbie’ Guevara (*)

A natureza da crise, conforme descreveram os autores anteriores nesta conversação é complexa.

Embora a crise seja descrita freqüentemente em termos de causas econômicas e de impactos, sabemos que tem causas ambientais, sociais, culturais e políticas, e tambémimpactos. Mesmo que freqüentemente seja descrita como uma crise global, nós a sentimos em todos os níveis: regional, nacional e local, porém muito especialmente no âmbitodoméstico. Ainda que seja descrita freqüentemente como um problema com raízes históricas que tem assolado há muito tempo nossa civilização, temos que encontrar uma solução imediata que seja sustentável para as gerações futuras.

Uma crise tão complexa é apenas um sintoma de uma crise educativa

Já em 1971, Ivan Illich(1) identificou a necessidade de uma "revolução cultural" para tornar a examinar e questionar o que descreveu como ênfase na “escolarização” que perpetua uma sociedade onde o desenvolvimento é medido em termos de produção e lucros, e onde a qualidade de vida é medida pela capacidade de consumir de cada um. No entanto, transcorridos vários anos, a desejada transformação não se produziu; de fato, a própria “escolarização” que Illich descreveu só se intensificou.

Em 1995, Neil Postman(2) afirmou que a educação contemporânea continuou centrando-se em conhecimentos mecânicos, que com freqüência se baseiam em descobrir a próxima inovação tecnológica para consertar o problema que a tecnologia anterior criou; com ênfase no desenvolvimento de habilidades que preparam as pessoas para o emprego e fomentam atitudes que valorizam as próprias capacidades para acumular riquezas e posses.

O que sabemos da mudança que se necessita?

Já não basta uma solução e uma explicação material única. Já não é adequado um slogan como “pense global, atue local". Já pode não ser suficiente aprender lições do passado para assegurar um futuro mais brilhante.

Como educadores, podemos encontrar elementos do que estamos vendo no que Matthias Finger e Jose Manuel Asun(3) chamaram de “learning our way out”; um processo de aprendizagem que tem como objetivo chegar a comunidades social e ecologicamente sustentáveis, mediante a vinculação da consciência e da resistência desde o princípio.

Entretanto, a natureza abrangente da crise deu como resultado a expansão dos locais tradicionais de resistência. Muitos dos movimentos da sociedade civil que presenciamos recentemente, como o movimento Ocupar cuja tendência foi ser uma resistência localizada com presença global, e o ativismo baseado em temas que se uniu às  exigências mais  amplas de transformação social.

Como educadores, dentro de nossas respectivas organizações da sociedade civil emovimentos para transformar, o desafio consiste em identificar, dentro dessa complexidade,por onde começar. Paulo Freire advogou por começar no “aqui e agora” (4) que descreveu como “a situação em que [as pessoas] se encontram submergidas, da qual emergem, e na qual intervêm.” (5)

Somos conscientes de que se queremos realmente "aprender nossa forma de sair" desta crise, o sistema de educação formal tem que mudar. Essa mudança implica que o sistema de educação formal se abra cada vez mais a outras formas de conhecimento, como a sabedoriaindígena e local; também significa aceitar um repertório mais amplo de habilidades para a vida, relevantes para o contexto de transformação dinâmica; além disso significa estar disposto a desafiar os valores individualistas e consumistas dominantes tendendo para o queSergio Haddad(6)  chamou de um paradigma do cuidado.

Recentemente estamos trabalhando pela mudança, tanto dentro como fora do sistema educativo formal. O próprio Freire identificou esta tensão há alguns anos atrás, quando em uma conversação com Ira Shor(7) disse que “às vezes as pessoas caem em posições sectárias e dizem que não deveríamos ter nada a ver com professores e professoras que trabalham apenas dentro das escolas. Um pensamento sectário... de que os ativistas só devem trabalhar fora das escolas.” Freire disse: “Não. Os educadores dentro das escolasfazem um trabalho importante e devem ser respeitados por sua contribuição à transformação social.”

Cabe destacar que como movimento de educação, abraçamos a necessidade de ampliar nossos locais de aprendizagem e ação. Já não trabalhamos exclusivamente nas margens. Já não “pregamos para os convertidos”.

Paulo Freire argumentou que é importante que também aprendamos "como não trabalhar sozinhos, como conhecer os demais, como estabelecer relações para que possamos... fazer melhor a transformação” (8)

Portanto, a pergunta que faço aos educadores dentro de nosso movimento para a mudança é - se vamos desenvolver uma compreensão integral que nos permitirá responder com urgência à crise: com quem deveríamos aprender?

Interessa-me escutar sobre associações de aprendizagem não tradicional que formaram indivíduos, organizações e movimentos sociais para avançar em nossa luta pela transformação verdadeira e sustentável.

(*)Vice-presidente (Ásia): Conselho Internacional de Educação de Pessoas Adultas (ICAE) Presidente:Associação de Educação Básica e de Adultos do Pacífico Sul e Ásia (ASPBAE)

(1)Ivan D. Illich, DeSchooling Society. (Londres: Calder & Boyars, 1971)
(2)Neil Postman, El Fin de la Educación: Redefinir el valor de la escuela. (Nueva York: Alfred A Knopf, Inc., 1995)
(3)Matthias Finger e Jose Manuel Asun, Adult Education at the Crossroads: Learning Our Way Out. (Londres: Zed Books. 2001)
(4)Paulo Freire, Pedagogía del oprimido.. (Nueva York: The Continuum Publishing Corporation, 1993), p.66.
(5)Freire, Pedagogía del Oprimido, p.66.
(6)Sergio Hadad (2011) La Educación en un mundo en crisis: Limitaciones e posibilidades hacia Río+20. Intercambio virtual del ICAE
(7)Ira Shor, uma pedagogía para a liberación. (Massachusetts: Bergin & Garvey Publishers, Inc, 1987) p 131.
(8)Shor, uma pedagogía para la liberación. p 131.





[1] Ivan D. Illich, DeSchooling Society. (Londres : Calder & Boyars, 1971)
[2] Neil Postman, La fin de l’éducation : Redéfinir la valeur de l’école. (New York: Alfred A Knopf, Inc., 1995)
[3] Matthias Finger et Jose Manuel Asun, Adult Education at the Crossroads: Learning Our Way Out. (Londres : Zed Books. 2001)
[4] Paulo Freire, La pédagogie de l’oppressé. (New York: The Continuum Publishing Corporation, 1993), p.66.
[5] Freire, La pédagogie de l’oppressé, p.66.
[6] Sergio Hadad (2011) L’éducation dans un monde en crise : Limitations et possibilités vers Río+20. Échange virtuelle de l’ICAE
[7] Ira Shor, Une pédagogie pour la libération(Massachusetts : Bergin & Garvey Publishers, Inc, 1987) p 131.
[8] Shor, Une pédagogie pour la libération. p 131.

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